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19 de maio de 2017

Nicole Kidman - depois maré ruim atriz retorna aos festivais!


“Preferia que não tivesse a Barbie Nicole”. 

Bastou o trailer de O Estranho que nós amamos (The Beguiled), de Sophia Coppola ser divulgado para os comentários de rejeição a Nicole Kidman pipocarem nas redes sociais, questionando seu talento ou mesmo zombando das supostas aplicações de botox. Apesar de ter sido recentemente indicada nas principais premiações pelo trabalho em Lion - Uma Jornada para Casa (2016) , que também concorreu ao Oscar de Melhor Filme, a atriz hoje parece mais associada aos trabalhos medianos do que as obras-primas que protagonizou nos anos 2000. Situação que pode mudar com os próximos projetos!



De ex-Tom Cruise para estrela dos festivais

No começo da década de 2000 Nicole Kidman conseguiu superar o estigma de ser a ‘ex-Tom Cruise’ para se tornar um dos nomes mais promissores de Hollywood, estrelando verdadeiros clássicos modernos como Moulin Rouge (2001), Os Outros (2001), As Horas (2002) e Dogville (2003). Não por acaso, a atriz era presença constante nas principais premiações e festivais de cinema, sempre associada com produções ousadas, personagens marcantes e diretores vanguardistas. Como ícone de beleza, a atriz também figurou em campanhas e capas de revistas, com ápice do emblemático comercial do perfume Chanel n5. 

Apesar de não sofrer a ‘maldição do Oscar’, já que nunca caiu em ostracismo, nos últimos anos Nicole, porém, entrou em uma leva de filmes que oscilavam entre fracassos comerciais (A Bússola de Ouro 2007, Antes de Dormir 2014), comédias medianas (A Feiticeira 2005, Esposa de Mentirinha 2011), biografias apáticas (Grace de Mônaco 2014, Rainha do Deserto 2015, O Mestre dos Gênios) e até remakes que mal fazem justiça ao original (Invasores 2007, Olhos da Justiça 2015). A sensação é que depois da fase mais promissora a atriz teria entrado em uma leva de atuações automáticas, muitas vezes sendo mais uma figurante de luxo que  que pouco lembrava as atuações marcantes do passado. As manchetes em sites de famosos ressaltando o botox da atriz também ajudaram a criar uma áurea decadente sobre a loira, com uma imagem cada vez mais distante da musa dos festivais de outrora. 

A realidade, entretanto, é que entre esses projetos mais comerciais a atriz seguiu participando de produções ousadas de diretores em ascensão, o problema, porém, é que em sua maioria eram filmes menores, com pouca divulgação ou repercussão na mídia. Entre os destaques  de interpretação temos Margot e o Casamento (2007) de Noah Baumbach, Segredos de Sangue (2012), Obssessão (2012)   e até Reencontrando a Felicidade (2012), pelo qual foi até indicada ao Oscar.


Para os defratores, entretanto, 2017 parece o ano para lembrar o quão talentosa e versátil é a atriz. Nicole voltou aos tapetes vermelhos e premiações com as indicações a Lion no começo do ano e encontrou na TV a oportunidade de conquistar novos fãs com a elogiada minisérie Pequenas Grandes Mentiras da HBO. No papel de uma esposa que esconde as agressões do marido para manter as aparências, a atriz construíu um personagem delicado, cheio de nuances, agradando o público. 

Já a edição de Cannes será o teste final da atriz, com quatro promissores projetos que já despertam o interesse da mídia: O Estanho que Amamos (The Beguiled), de Sophia Coppola que está na competição, How to talk to girls at parties adaptação de um conto de Neil Gaiman e ainda The Killing of a Sacred Deer aguardado projeto do diretor de O Lagosta (2015). Entre os próximos projetos, há também a atuação na minissérie  Top of the Lake: China Girl e com participação até em Aquaman da DC, depois dos boatos que seria a mãe da Mulher Maravilha.

Parece que depois de anos oscilando entre projetos comerciais medianos e filmes alternativos com pouca repercussão, a atriz voltou ao rumo com associações ousadas, personagens interessantes e que demonstram o motivo de ter marcado seu nome entre os grandes talentos de Hollywood, muito além da aparência.

30 de junho de 2013

Comentário - O Grande Gatsby de Baz Luhrmann (2013)




O Grande Gatsby, celebrada obra de Fitzgerald que tornou-se um clássico da literatura por retratar a década de 20, os excessos e o posterior declínio, ganhou novas cores e interpretações na versão cinematográfica de Baz Luhrmann. Em sua filmografia, o diretor nunca foi muito sutil e sempre teve uma tendência ao clichê, com o amor levado às últimas consequências (Romeu + Julieta), um casal dançando pelos céus de Paris (Mouling Rouge) ou uma família tentando se encontrar durante a guerra (Austrália). O resultado de uma trama recheada de sutilezas com o estilo do diretor dividiu opiniões da crítica e do público, como toda obra de Baz, diminuindo o brilho e qualidades de um dos filmes mais interessantes de 2013.
   
Para os fãs do diretor, todos os elementos que o tornaram famoso estão lá: os cortes frenéticos, visual de um clipe de pop music, cenários exuberantes, a trilha sonora anacrônica mas estranhamente funcional e o elenco recheado de astros. Visualmente, todo esplendor da década de 20 é elevado ao quadrado na visão de Baz, com festas e excessos delirantes. Catherine Martin, esposa do diretor e parceira habitual em suas produções, novamente cria figurinos que ficarão na memória do espectador e têm tudo para se tornarem referência na moda. Nesse sentido, o 3D evidencia ainda mais o bom trabalho da fotografia, com camadas de profundidade e recursos que vão além da necessidade de ficar jogando objetos nas cenas. A divulgada trilha sonora também leva para a década de 20 músicas de artistas atuais como Beyoncé, Florence, Jay-z, Will.i.am e Sia. A música-tema, que é repetida em toda a oportunidade até gravar na cabeça do ouvinte, ganhou a interprete perfeita com Lana Del Rey, com estética retrô e voz melancólica. 

O Grande Gatsby talvez seja o filme mais difícil de Baz, por se tratar de um material cultuado mas que não passou pela mesma popularização de Romeu e Julieta, por exemplo. Dessa maneira, o diretor prefere apostar em algumas fichas que já deram certo em produções anteriores do que revolucionar totalmente sua estética. A narração do jovem e inocente Nick Carraway, que chega na exuberante Nova York da década de 20, muitas vezes, lembra o começo frenético de Mouling Rouge e o idealista poeta Christian. O suspense que cercava a aparição de Satine (Nicole Kidman), a estrela do cabaré, se repete aqui com o protagonista. Vamos colhendo pistas sobre o misterioso Gatsby ao longo da trama, construindo a espectativa do encontro, até que finalmente vemos Leonardo diCaprio exuberante em cena, provando que é um dos atores mais carismáticos e talentosos de sua geração. Seu Gatsby é ao mesmo tempo determinado e completamente inseguro, capaz de frequentar o submundo, mas com medo de se reencontrar com a amada.   

Não só Leonardo, mas todo o elenco está muito bem em seus papéis, em especial Carrey Mulligan, como Daisy. Longe de ser a tradicional mocinha ingênua, Carrey cria uma figura complexa: frágil, delicada e ao mesmo tempo sedutora. Nesse sentido, a produção sempre se esforça em tornar Daisy uma verdadeira miragem, como se fosse apenas uma idealização dos homens que a cercam, impecavelmente arrumada e com a voz oscilante, como se fosse chorar a qualquer momento. Sua primeira cena, cercada de cortinas de seda branca, com os braços descobertos aparecendo aos poucos, até mostrar seu rosto em um close, faz a platéia se apaixonar por ela e entender  a motivação de Gatsby. Daisy é como uma musa, que  representa o sucesso, dinheiro e tudo que os homens da época almejavam para se sentirem completos.

É nesse momento que o estilo de Baz pode enganar parte do público: seu cinema de adoráveis chiclês nos faz torcer por uma história que não é clichê. Não há vilões definidos ou obstáculos a serem superados dessa vez, já que todos os personagens, incluindo o casal protagonista, são guiados por sonhos mesquinhos, não abrem mão do poder e não dispensam uma futilidade. Estamos em uma trama em que o protagonista mente sua origem, faz fortuna por métodos ilegais e não mede esforços para atingir seus objetivos. Em determinado ponto, não sabemos mais para quem torcer ou quem sairá ileso desse jogo de aparências.

No fim, essa versão de O Grande Gatsby não será uma unanimidade. Seu maior trunfo é, ao mesmo tempo, seu defeito: ao adaptar um material tão aclamado, Baz não abriu mão de seu estilo. Fãs do livro podem se incomodar com o ritmo frenético do filme, enquanto o público em geral pode não gostar dos desfechos trágicos da trama. No fim, aproveitará mais o belo visual e ótimas atuações, quem estiver com a mente livre de comparações com a obra original ou com as versões anteriores. Afinal, essa não é adaptação definitiva de Gatsby, mas a versão de Baz, com todos os seus clichês, exageros e visual arrebatador.

31 de janeiro de 2013

Comentário: Holy Motors e A Viagem




“Quem é você?”. O questionamento, que se tornou a base da filosofia ocidental e até de estudos posteriores, mantém a relevância, como comprovam dois filmes distintos, tanto na trama quanto na realização, mas que oferecem o debate sobre o que nos diferencia e nos conecta. De um lado, temos o alternativo Holy Motors, indicado como um dos melhores filmes de 2012 e figura constante em festivais. De outro, A Viagem, filme ambicioso dos realizadores de Matrix, uma produção hollywoodiana que dividiu opiniões e acabou passando desapercebida das premiações. O dois, entretanto, causam reações distintas no público por apostarem em abordagens originais de suas temáticas.   

Holy Motors é um daqueles filmes que não faz questão de se explicar ou apresentar conclusões para o espectador. É possível ler dezenas de comentários e análises distintas sobre o filme, cada uma abordando uma linha de interpretação. Em uma trama mezzo surrealista, acompanhamos Oscar, que entra em uma limousine e recebe `missões” e personagens variados ao longo de um dia, vivendo variadas situações. Dessa maneira, o vemos ele se transformar em uma moradora de rua, um pai de família preocupado e até um doente terminal. Em cada missão, o personagem é tão realista que começamos a nos perguntar qual daqueles seria verdadeiro, ou se todos, de alguma forma, são verdade. Acabamos sem saber se Oscar é um ator, um anjo, um ser imortal ou apenas uma metáfora sobre as máscaras sociais que adotamos ao longo da vida. A dúvida aumenta ainda mais quando Oscar encontra outras pessoas que fazem a mesma coisa que ele.

27 de janeiro de 2013

Cultura pop em 2012



2012 prometia ser um ano de grandes retornos e acontecimentos marcantes na cultura pop, entretanto, a sensação é de uma promessa não muito realizada. No geral, as grandes apostas se mostraram um tanto fracas e mesmo as revelações do ano soaram um tanto sem personalidade ou diferenciais. Prova disso foram as premiações, tanto da música quanto do cinema, que nunca foram tão esquecíveis e irrelevantes. O que mais marcou 2012 foram as disputas (chatas) dos fãs, que com o poder da internet passam o dia brigando por seu ídolo ou objeto de adoração: não faltaram farpas nas disputas “Madonna X Lady Gaga”, “Vingadores X Batman” ou “Minaj X Mariah”. Muito barulho para pouco conteúdo. 


- Música de 2012
De acordo com a lista da Billboard, o cd que mais vendeu em 2012 foi, novamente, 21 de Adele. A cantora, que passou a maior parte do ano sem lançar nada além da apática música-tema de Skyfall (que provavelmente ganhará o Oscar), prevalece como a queridinha do grande público. 2012 também marcou a popularização do indie com Somebody That I Used to Know do Gotye tocando entre as 10+ das rádios e a volta das boys-bands com suas fãs histéricas, graças ao sucesso do One Direction e The Wanted. 

Nicki Minaj, Maroon 5, Bruno Mars, Coldplay, Florida e Justin Bieber colheram os frutos do sucesso dos anos anteriores, lançando músicas que já se tornaram hits rapidamente. Entre as novidades do ano, Carly Rar Jepsen se deu bem e teve um dos maiores sucessos do ano com Call Me Maybe, a notícia ruim é que a cantora tem potencial para se tornar uma one-hit wonder. Rita Ora, Marina and the diamonds e Lana Del Rey também conseguiram dar as caras nesse ano, mas sem o sucesso de uma Katy Perry ou Rihanna. Falando na cantora de Barbados, ela honrou a tradição e lançou mais um cd recheado de hits em 2012. Ke$ha também deu as caras com Die Young, apesar da promessa de revolução não cumprida. LMFAO apareceu como um furacão e já terminou, deixando dois hits divertidos como lembrança. A novidade também apareceu fora do eixo EUA-Inglaterra, com o sucesso internacional de Michel Teló (não adianta falar mal) e o coreano Psy, que bombou na internet e baladas com Gangnam Style (e terá que ralar para continuar na mídia).

2 de novembro de 2012

5 Filmes Indispensáveis de Tim Burton

Tim Burton não anda em uma fase muito boa: seu último filme, Sombras da Noite, teve um retorno morno de bilheteria e críticas bem divididas, indicando que a fórmula do diretor já estaria esgotada. Agora, com a estreia de seu novo projeto, a animação gótica Frankenweenie, remake de um curta que fez quando ainda trabalhava como animador, Tim parece que reconquistou parte da crítica, mas não teve o retorno de público esperado.

Quem acompanha a carreira de Burton há mais tempo, entretanto, percebe que a trajetória nunca foi muito linear, apesar de manter o mesmo estilo em quase todos os projetos em que esteve envolvido. Como diretor, muitos acusam Burton de se preocupar mais com a técnica e estética do que com o desenvolvimento dos personagens ou elaboração da narrativa. Inegávelmente, seus melhores filmes são aqueles em que os personagens são melhores explorados, sem abrir mão da temática e estética única que o transformaram em um dos diretores mais conhecidos e apreciados da atualidade. Para entender um pouco do talento (e, quem sabe, se animar para Frankenweenie), veja cinco filmes indispensáveis de Burton:

 

- Edward Mãos de Tesoura (1990)
Burton já tinha chamado a atenção do público e da crítica com Os Fantasmas se Divertem e com o sucesso internacional de Batman, mas o próximo projeto era seu filme mais pessoal até então, com uma temática que se tornaria frequente em suas obras:: aqui o protagonista é um monstro de bom coração, uma criação incompleta que permanece com as mãos de tesouras, isolado em um castelo. Quase um “A Bela e a Fera” gótico, o filme prima pelo visual, constratando o colorido da vida “normal”, com o castelo monocromático de Edward. Com personagens cativantes e história envolvente, o filme consegue criar cenas marcantes, como a primeira vez em que neva. Delicado e sensível, Edward também marcou a parceria que dura até hoje: Johnny Depp e Tim Burton. 


- Ed Wood (1994)
No único filme baseado em uma história real de Burton, temos a históra do “pior diretor de todos os tempos”. Ed Wood, que como Tim também tinha fascínio por temas macabros e sobrenatural, é interpretado por Depp com paixão e respeito. No filme, o diretor é retratado como um apaixonado pelo cinema que não vê problema em escalar os amigos ou trocar um ator no meio da produção, além da amizade que manteve com o astro decadente, Bella Lugosi, o Drácula. Há elementos mais emocionais que em outros filmes de Burton, com pitadas de drama e até comédia em alguns momentos. A fotografia em preto branco ressalta uma direção de arte mais contida no exageros e bem elegante.  

 

- A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999)
Um conto de suspense ganhou uma roupagem gótica e vitoriana nessa obra de Burton, que apresenta uma direção de arte e figurinos impecáveis e uma exótica mistura de suspense, ação e até uma pitada de comédia. Na trama, um agente da capital (Depp, aqui já acostumado com os personagens bizarros do diretor), vai até uma vila inglesa desvendar o assassinato em série que assombra o local. Chegando lá, descobre que o suposto responsável seria um cavaleiro decapitado que volta do mundo dos mortos em busca de vingança.Misticismo X Ciência, Tradição X Novo, são alguns dos embates que surgem ao longo do filme, que ainda hoje impressiona com seu visual e apresenta influência direta nas obras posteriores de Burton, especialmente seus filmes mais adultos e pesados como Sweeny Tood e Planeta dos Macacos.


- Peixe Grande (2003)
Burton sempre comentou os problemas com os pais durante a infância e usou Peixe Grande para exorcizar os traumas bem na época em que teve seu primeiro filho. Há menos sombras ou temas macabros e um tom mais próximo ao dos contos de fadas, como em Edward Mãos de Tesoura, para a delicada história de aproximação de pai e filho que vivem sem se entender: Enquanto Edward Bloom prefere criar histórias fantásticas e inacreditáveis sobre os momentos importantes de sua vida, o filho, William, um jornalista cético, deseja apenas a veracidade dos fatos. A distância entre eles e a diferença nas posturas é o tema de toda narrativa, que conta com um desfecho emocionante. Com um elenco afiado, o filme consegue criar cenas marcantes, como aquela em que Edward encontra o amor da sua vida em câmera lenta. Um dos poucos filmes atuais que não contou com Depp como protagonista. 


- Sweeny Tood (2007)
Burton vinha de uma boa sequência de filmes e sucessos, como A Fantástica Fábrica de Chocolate e A Noiva Cadáver, quando teve o apoio para realizar um desejo antigo: a versão cinematográfica do musical macabro Sweeny Todd. Diferente de outros músicais, coloridos e divertidos, esse filme é marcado pelo visual vitoriano, gótico e muito sangrento. Na história de vingança do barbeiro contra o juiz que acabou com sua vida, não faltam elementos bizarros típicos de Burton, como assassinatos, personagens estranhos e situações macabras, como as tortas com a carne dos cadáveres. Se no quesito voz os astros Depp e Helena Bohan Carter foram críticados na época, os dois dão um show na atuação, especialmente a esposa do diretor, que cria uma personagem moralmente questionável, mas que conquista a simpatia do público com sua visão quase romantica da tragédia que a rodeia. O filme se tornou uma obra cult, com destaque nas premiações. Foi um dos últimos momentos em que Burton conquistou um relativo destaque.  

16 de setembro de 2012

Meia Noite em Paris - Woody Allen


Há uma tendência cada vez mais forte em olhar o passado em busca de ideias, seja na moda ou nas artes. Até Hollywood parece nostálgica ao dar o Oscar a "O Artista", um filme mudo em preto e branco. Na fotografia, usam-se filtros que deixam as fotos com cara de antigas pelo aplicativo Instagram. É nesse contexto saudosista que Meia-noite em Paris (2011), de Woody Allen, se encaixa: uma obra que celebra o passado e dá ao espectador muitas reflexões sobre o tema.

Gil (Owen Wilson), o protagonista, busca no passado a segurança e conforto que não encontra no presente, no qual é constantemente cobrado e avaliado pelos colegas, sogros e até pela noiva. Apesar do sucesso como roteirista de filmes populares de Hollywood, Gil mantém o sonho de se tornar escritor e busca em Paris a inspiração para criar sua história e provar que pode ser bem mais que  um sujeito mediano.

A Paris apresentada por Allen é encantadoramente glamourosa. Não há problemas na cidade, apenas prédios históricos, pessoas interessantes e ambientes belissimamente decorados. Quase como um lindo cartão postal em movimento. No decorrer da trama, a cidade ganha novas significações, tornando-se um símbolo da efervescência cultural, inspiração dos poetas e artistas de décadas passadas. Nesse sentido, a fotografia é eficiente em explorar os pontos mais conhecidos de Paris, tornando-a um cenário que transmite cultura e história a cada frame. A bela trilha sonora também ajuda a criar esse ambiente charmoso com canções de Cole Poter (em nenhum momento é ouvido músicas atuais, mesmo com a cantora Carla Bruni no elenco).

12 de agosto de 2012

Crítica - Batman O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Batman sempre foi meu super-herói preferido, justamente por não ter grandes poderes e estar mais próximo da realidade. Superman, por exemplo, sempre foi muito indestrutível, perfeito. Além disso, os filmes de Tim Burton foram fundamentais para o meu fascínio com o herói e os vilões perturbados. O único o filme do morcegão que tinha visto ao cinema era o mal falado Batman & Robin, odiado pela maioria do público, com um tom quase infantil. Para um garoto de nove anos, o filme parecia divertido. Demoraria alguns anos para ver o morcego novamente no cinema, com o Batman Begins de Nolan, em 2005.

Até então, Nolan era diretor considerado interessante, mas sem um grande sucesso de público. Begins era aguardado com relativo receio: o tom realista, um batmóvel transformado em tanque de guerra, vilões praticamente desconhecidos do grande público (Espantalho e Ra´s Al Ghul) e um protagonista que estava longe de ser um grande astro de ação, eram motivos suficientes para acreditar que Batman Begins seria um fracasso. Quando lançado, entretanto, o que víamos era um novo tom para a história do Batman, contando os detalhes que transformaram Bruce Wayne, atormentado pela morte dos pais, em um vigilante mascarado, disposto a ser um mito e motivo de esperança para uma cidade corrupta, destruída pelo crime e sem esperanças. Com boas atuações, história interessante e direção segura, o filme se tornou um grande sucesso. 


Se Begins marcava o retorno do herói em traços realistas, o sucessor, Cavaleiro das Trevas se tornaria um verdadeiro fênomeno pop. Um sucesso enorme de bilheteria que levaria as adaptações de quadrinhos para outro patamar. Com uma inteligente campanha de marketing e todo hype criado na “última atuação de Heath Ledger”, o filme já estreiou com status de “clássico moderno”. Cultuado por grande parte dos fãs, Cavaleiro das Trevas apresenta o Coringa como um elemento do caos, destruindo Gothan e invertendo os papéis de vilão e herói, com um Batman quase psicótico e a trágica história de Harvey Dent. 

Depois de dois filmes que se tornaram referência no gênero e milhões de bilheteria, chegamos ao capítulo final (por enquanto, já que a Waner planeja um novo para 2016): O Cavaleiro das Trevas Ressurge. O filme já começa com uma difícil missão: superar o anterior e dar um final coeso e magistral para a trilogia. Diante de tamanha expectativa, o longa gerou uma reação inédita na série: foi amado e odiado na mesma intensidade e se tornou tema de discussão em dezenas de fóruns e sites, com fãs e haters debatendo (sem muitos argumentos) se o último filme de Nolan é obra-prima ou apenas mediano. Na verdade, os dois lados têm um pouco de razão: esse Batman é bom, mas está longe de ser impecável. Algo parecido já havia acontecido nas trilogias dos X-men e Homem Aranha, em que o capítulo final não superou o anterior. 


O Cavaleiro das Trevas Ressurge falha ao inserir muitos personagens interessantes e fortes em pouco tempo: temos o vilão Bane, o policial órfão, a ladra Selina Kyle e a empresária Miranda Tate. Dessa maneira, pela primeira vez na trilogia, a trama acaba um tanto apressada, sem dar tempo para conhecermos melhor os personagens ou entender suas motivações. A consequência disso é que mesmo com as grandes revelações do final não conseguimos sentir a urgência ou o impacto que as informações teriam, já que pouco nos identificamos com os personagens. Além disso, algumas partes ficaram um tanto vagas (como o retorno do herói à cidade ou a facada que é esquecida na cena seguinte) ou forçadas (Bane consegue realizar seus planos sempre com facilidade, sem ter que enfrentar ninguém), coisas que não aconteciam nos filme anteriores. Nem considero o argumento “Nolan não quer dar respostas, mas fazer o público pensar”. Algumas explicações simples só agregariam à trama. 

Se o tradicional elenco continua eficiente em seus papéis, com destaque para Christian Bale, que mostra um Bruce fragilizado que vai ganhando confiança aos poucos, os novatos acabam prejudicados por personagens mais rasos. O Bane de Tom Hardy surge ameaçador e imprevisível nas primeiras cenas, mas vai perdendo força como vilão e não consegue ter a mesma carga do Coringa no filme anterior. A Mulher Gato de Anne Hathway ganha pontos por se afastar da figura icônica e complexa de Michelle Pfeiffer e apostar mais na ação. A personagem acaba sem o desenvolvimento que merecia e pouco sabemos sobre sua vida, além do desejo de sair de Gothan e mudar de identidade. Marion, entretanto, é a maior prejudicada na história toda, aparecendo sem a importância que merecia na trama e em situações forçadas (o destino da personagem já virou até motivo de piada na internet). 

Nolan conduz o filme com a eficiência costumeira e mantem um bom ritmo com reviravoltas calculadas para deixar a platéia interessada. A longa duração nem se torna um problema, já que o clima de tensão permanece durante todo o filme e nos faz esperar pelas próximas cenas. Outro destaque importante foi não desconsiderar a história dos outros filmes, deixando a triologia com unidade e com os capítulos bem relacionados entre eles (apesar de faltar uma explicação do que aconteceu com o Coringa). Com um final aberto para possíveis interpretações, Nolan também preferiu não fechar as portas, deixando arestas soltas que poderão servir de base para futuras continuações, caso o diretor e roterista mude de ideia. Do jeito que está, esse Batman será mais lembrado pela tragédia em que esteve envolvido do que pela força do filme. Um final bem satisfatório, mas longe de ser inesquecível.

1 de julho de 2012

Crítica - Sombras da Noite de Tim Burton


Agora é moda falar mal de Tim Burton. Criticam a direção fria, visual sombrio, personagens estranhos e a presença dos mesmos colaboradores, dos protagonistas  ao excelente Danny Elfman na trilha sonora. Muitos esquecem que esses elementos são marcas registradas do diretor, motivos que o tornaram tão famoso. Também esquecem que a carreira de Burton não é linear ou recheada apenas de sucessos: para cada Peixe Grande e Edward Mãos de Tesoura, temos um Marte Ataca! ou Planeta dos Macacos. Dizer que ele "perdeu a mão" é precipitado.

A nova parceria com o amigo Johnny Depp e com a esposa é Sombras da Noite, filme inspirado na série de televisão dos anos 60 que abordava os acontecimenos sobrenaturais que rondavam a família Collins, que recebe a visita de um parente vampiro, Barnabas, que dormiu por 200 anos depois de ser amaldiçoado por uma bruxa com quem teve um romance. Como em outras obras de Burton, o filme apresenta uma releitura dos elementos que fizeram parte da infância do diretor, que foi recheada de filmes de monstros e histórias de terror. Entre erros e acertos, o resultado é bom filme, que ganha força justamente por não se levar tão a sério.

Como adaptação de uma serie de televisão, o filme acaba prejudicado pela grande quantidade de personagens e histórias sem desenvolvimento. Se na telinha o excesso de tramas paralelas ajuda a manter a audiência, no cinema acaba soando apressado. Dessa maneira, bons personagens, como a psiquiatra alcoólatra vivida por Helena, acabam sem o destaque que mereciam. A trama do jovem David, atormentado pela mãe que morreu afogada, é esquecida em boa parte do filme e só volta ao destaque quase no fim. A própria Victoria, que seria a protagonista da históra, perde força no decorrer da trama. Vale ressaltar também que o todo o ato final soa forçado, com pontas soltas em busca de ganchos para continuações, uma possível exigência do estúdio.

Sombras da noite: na TV e no cinema
Uma das opções mais acertadas do roteiro foi a não alterar a década em que Barnabas acorda e não cair na tentação de “modernizar” ou trazer para os dias de hoje a história do filme (com possíveis piadinhas sobre facebook e outras modernidades). Ao estabelecer a trama na década de 70, podemos rir dos costumes da época e acreditar mais na lógica do filme, em que hippies dividem drogas com um vampiro sem perceber que há algo de errado.

Se na história há falhas, não podemos reclamar do elenco estrelar que Burton arrumou dessa vez. Michelle Pfeiffer e Eva Green roubam a cena, aproveitando ao máximo os momentos em que aparecem. Michelle disse que chegou a implorar para voltar a trabalhar com o diretor, depois de criarem a mulher gato icônica (e insuperável) de Batman - O Retorno. Aqui, ela está confortável como a matriarca da família, a mulher bela e forte capaz de lutar quando necessário. Já Eva Green prova que pode fazer do mundo de Burton, ao criar uma vilã sensual na medida certa: irresistível e odiosa, linda e repulsiva, cruel e divertida. Já o grande Depp parece que finalmente se livrou dos trejeitos de Jack Sparrow e se entrega em uma performance divertida e carismática.

Eva e Michelle roubam a cena
Como de costume, o visual chama atenção com a direção de arte e figurinos impecáveis. Há todo o colorido dos anos 70, com o estilo gótico recheado de referências do diretor. Barnabas parece a versão romântica de Nosferatus, enquanto a bruxa Angelique remete ao sucesso A Morte Lhe Cai Bem. Os efeitos especiais parecem propositalmente bem marcados e datados, para aumentar o tom de sátira e não dar o mínimo de veracidade na história. Há também os elementos recorrentes de Burton, como as árvores retorcidas, jovens loiras indefesas e a aquela cena em que Victoria deve passar pelo portão da mansão, logo no ínicio, que faz um paralelo com Edward, Alice e no próprio Batman: é necessário atravessar aquela barreira para entrar no mundo da fantasia, do sobrenatural. Também não deixa de ser divertido ver uma rápida participação de Christopher Lee, o Drácula, conversando com o vampiro Barnabas.

Recebido com relativa frieza pela crítica (que demonstra muita má vontade com o diretor depois de Alice) e com resultados mornos nas bilheterias, Sombras da Noite deverá se tornar um filme menos lembrado na carreira de Burton. Pode até não ser uma obra perfeita, mas demonstra que as parcerias do cineasta ainda rendem personagens interessantes, visuais arrebatadores e vampiros que bebem sanguem e queimam ao sol, como devem ser. Agora, resta torcer para que Frankenweenie, animação que Burton lançará nesse ano, seja uma obra-prima e cale novamente todas as críticas que se tornaram tão comuns. Em Burton eu ainda confio!

22 de abril de 2012

Comentário - W.E. O Romance do Século de Madonna


Se no campo da música pop Madonna mantém uma carreira icônica, no cinema a história sempre foi bem diferente. Ela desejava ser uma atriz premiada e reconhecida pela crítica (até se casou com um ator talentoso e um diretor respeitado para lhe dar um suporte), mas sempre foi motivo de chacota pelos colegas e detonada pela crítica. Suas melhores interpretações são aquelas em que pode injetar um pouco do seu próprio jeito e personalidade, como Procurando Susan Desesperadamente, Dick Tracy e Evita. Depois de abandonar a carreira de atriz, Madonna não desistiu do cinema e agora dirige filmes, ainda sem o sucesso e reconhecimento esperado.

Chegamos então a W.E – O Romance do Século, o segundo longa-metragem da cantora que foi lançado ano passado em festivais. Madonna mostrou-se tão obsessiva por esse projeto quanto na época de Evita, chegando a abandonar a música por alguns anos para escrever o roteiro e dar atenção a cada detalhe, da escalação do elenco até os figurinos que seriam utilizados em cada cena. Lançando com fracasso no mercado internacional e avacalhado pela crítica, o filme chegou ao Brasil nesse ano, em poucas salas, em geral no circuito alternativo. Depois de conferir W.E, entretanto, podemos comprovar que entre erros e acertos, há uma bela história.

Madonna como diretora: atenção aos detalhes
Para o bem ou para o mal, o nome Madonna é mais forte que qualquer coisa que ela faça. Fãs irão assistir e comprar o que ela fizer, preparados para amar, enquanto quem não gosta ou vai se recusar a assistir ou vai assistir apenas para apontar os defeitos. Aposto que muitos críticos já tinha a resenha pronta antes mesmo de irem à première. A mídia brasileira, entretanto, foi mais branda e menos afetada que os comentários dos festivais e apontou o óbvio: Madonna não é um Woody Allen, mas faz um filme com atenção aos detalhes, imagens fortes e boas atuações.

A trama é quase um Julia e Julie com toques mais dramáticos: acompanhamos a história real de Wallis Simpson, plebéia e divorciada por quem o rei Edward VIII abdicou o trono. O romance se tornaria um dos casos mais polêmicos e famosos da história (parte dessa trama é vista do premiado O Discurso do Rei). No presente, acompanhamos a jovem Wally, que sofre por estar em um casamento fracassado até que fica fascinada pela história de Wallis e busca nela o exemplo para mudar de vida. Madonna, então, recheia sua trama com alguns clichês e situações forçadas, como o guarda-costa russo, culto e sensível, por quem Wally se apaixona ou o marido insensível e unilateral, que aparece na trama apenas para humilhar nossa protagonista. No fundo, W.E só ganha força com a história de Wallis e Edward, ao mostrar o outro lado e contar um belo caso de amor, capaz de alterar os rumos de uma nação.

W.E ganha força com a história real
As protagonistas, no fundo, possuem muito da própria Madonna. A cantora escreveu o roteiro quando estava no fim do casamento com o diretor Guy Ritchie, momento em que pipocavam na mídia boatos sobre as adoções feitas pelo casal e brigas constantes. Assim como Wally, Madonna se apegou desesperadamente na história de Wallis em busca da fórmula de um grande amor, tendo acesso as cartas que eles trocavam e estudando tudo sobre o casal. Foi então que ela percebeu que mesmo eles tiveram que aguentar o peso das escolhas e que não havia um final feliz. Nasceu a vontade de contar o “outro lado” da história e mostrar Wallis não como a vilã, mas a vítima da situação. A cena em que Wallis vê seu nome estampado nos jornais e sente-se julgada pelas pessoas que passam nas ruas, lembrar muito da própria Madonna, que sempre teve a vida dissecada pelos jornais e julgada pela opinião publica.  

A interpretação de Andrea Riseborough é um destaque, transformando Wallis em uma figura complexa, cheia de dúvidas e muito verdadeira. Outro ponto positivo é a parte técnica do filme, que mostra a obsessão de Madonna pelos detalhes e um time de profissionais gabaritados, como Arianne Phillips, responsável pelo figurino lindíssimo, indicado aos principais prêmios da categoria. A direção de arte ganha força nas cenas que exaltam o luxo e beleza da vida real. Já a edição pode causar um certo estranhamento inicial, com cortes rápidos e a tentativa de estabelecer um paralelo entre as duas tramas, sem ordem cronológica.

Comparação: W.E verdadeiro e da ficção
Madonna poderia ter feito um filme menor, algo menos pretensioso, como gravar um filme convencional sobre a vida de Wallis. No mundo de Madonna, entretanto, não há espaço para intimismos. Não podemos negar que ela foi ousada em se arriscar com tramas paralelas, narrativa não linear e com momentos delicados, como as cenas de agressão. W.E, dessa forma, é um bom filme, que vai crescendo e nos faz ter muita curiosidade pela história de Wallis e Edward. Se fosse lançado por outro diretor, talvez, o filme não seria massacrado pelos críticos e faria bem mais sucesso. Entre erros e acertos, Madonna revela-se uma diretora e roterista ousada, mas ainda bem menos interessante do que a cantora. A prova disso é o Globo de Ouro de melhor canção, para a bela Masterpiece, tema do filme. 

  

21 de fevereiro de 2012

O Estranho Mundo de Tim Burton

O Estranho Mundo de Tim Burton não é uma biografia convencional, até porque Tim Burton não é um diretor ou homem muito convencional. O livro, na verdade, é uma reunião de análises, críticas, entrevistas e depoimentos sobre os mais de 20 projetos que ele esteve envolvido (como diretor ou produtor) desde que começou a carreira com curtas-metragens na Disney. Alguns detalhes da vida pessoal de Tim são abordados, como o relacionamento complicado com os pais, alguns namoros e, principalmente, a infância do diretor. Esses detalhes ajudam a desvendar alguns aspectos dos filmes, como os temas sombrios e os personagens estranhos que ele tanto gosta.  


Como um livro de vários autores, algumas análises são ricas em detalhes e nos oferecem curiosidades dos bastidores, aspectos da vida pessoal do diretor e entrevistas bem esclarecedoras. Outras, entretanto, são mais superficiais, basicamente com a sinopse do filme e algum cometário rápido. De maneira geral, com essas análises podemos ver como Burton conseguiu manter o estilo pessoal e desafiou padrões de Hollywood ao ter sucesso de público e crítica com obras consideradas estranhas ou de difícil realização.   
Burton e Depp: amigos e parceiros
O livro esclarece algumas questões frequentes sobre as obras de Burton. Os visuais de seus filmes são tão carregados e únicos porque ele é um ex-desenhista: cada frame deve ter a beleza e estética de uma pintura ou animação. Há uma maior preocupação com a estética do que com o roteiro, por exemplo. A dificuldade em se adaptar ao meio social, tema frequente das suas obras, é reflexo do próprio diretor, que se considera uma pessoa socialmente deslocada. Além disso, todos os filmes remetem a elementos que fizeram parte de uma infância recheada de filmes de monstros, quadrinhos e ídolos do terror como Vincent Price e Christopher Lee. Os protagonistas dos seus filmes, como o bizarro Edward, o sombrio Batman ou o diretor menosprezado Ed Wood, representam partes da personalidade e biografia do próprio Burton.

O livro ajuda a compreender como Burton foi recebido pela crítica e público ao longo do tempo. Os filmes do diretor sempre foram muito reconhecidos pelos aspectos técnicos e visuais, mas não são unanimidades entre os críticos, muito menos nas premiações, que sempre o esnobaram o trabalho do diretor. Já o público normalmente comparece em peso nos cinemas, mesmo que depois critique, como aconteceu com o recente Alice no País das Maravilhas, que se tornou uma das maiores bilheterias de todos os tempos. 

No fim, fica a sensação de que Burton está tentando, a cada filme, resgatar pedaços da infância e oferecer ao público pequenos fragmentos de sua personalidade e vivência. Com personagens bizarros, visuais únicos e histórias estranhas, o diretor oferece ao público uma chance de sair da realidade e questionar o que é ser "normal". Indicado especialmente para fãs, o livro nos faz entender e admirar, ainda mais, o trabalho e vida desse homem que é um dos artistas contemporâneos mais expressivos e criativos. Com dois projetos para esse ano, o diretor ainda tem muito para oferecer e encantar platéias do mundo inteiro. 


19 de dezembro de 2011

Comentário - Rocky Horror Picture Show

Atualmente é comum ouvir a definição 'filme cult' para qualquer obra independente ou de pouco apelo comercial que é lançada. Um filme cult, na essência, é um produto que não tem uma boa recepção do público ou reconhecimento de crítica na época em que foi lançado e é descoberto futuramente, influenciando a estética de outras produções cinematográficas e adquirindo status de uma obra cultuada, com uma base de fãs. 

Só para ficar com exemplos famosos de obras cults, temos Blade Runner – O Caçador de Andróides e O Estranho Mundo de Jack, filmes que se tornaram clássicos com o tempo, apesar de um lançamento ruim. Uma das maiores obras cults de todos os tempos é a adaptação cinematográfica do musical Rocky Horror Picture Show (1973). Quando lançado nos cinemas, o longa foi um fiasco de bilheteria e poucos entenderam a trama anárquica que faz uma homenagem aos filmes de ficção e ao cinema trash. Após o fracasso, o filme começou a ser exibido nas famosas “sessões da meia-noite”, que divulgavam longas de baixo orçamento. O sucesso de Rocky Horror nessas sessões foi imediato, tornando-se o filme que ficou mais tempo em cartaz.

Anarquia, tramas estranhas e o visual glam rock
O sucesso posterior deve-se, principalmente, pela estranha mistura de tramas e influências. É um musical que satiriza os filmes de terror com a manjada história do casal nerd que se perde em uma tempestade e acaba no castelo assombrado. Todos os elementos do terror trash estão lá: os empregados sinistros, o dono do castelo estranho, duelo de cientistas, crimes e até extraterrestres. Junte isso com várias passagens que celebram o amor livre, o humor negro e músicas que grudam na cabeça.

Uma trama tão confusa poderia ser um fracasso se não fosse pelas grandes atuações de todo o elenco em papéis encantadores. Tin Rourque é o centro das atenções como Dr Frank, o cientista travesti mestre do castelo que pretende criar um ser humano esteticamente perfeito (referência direta ao clássico do terror Frankenstein). O casal nerd e puritano chama a atenção pelas mudanças que vão sofrendo ao longo do filme, descobrindo muito sobre a sexualidade e sentimentos reprimidos Além desse trio principal temos os  serviçais do castelo, fundamentais para o desfecho dessa trama estranha.

Homenagem de Glee ao musical
Como clássico cult, o filme acabou inspirando dezenas de outras produções culturais, como o recente videoclipe Hold It Against Me de Britney Spears, além de ter sido considerado um dos “30 filmes que mais influenciaram na moda”, com sua estética glam-rock. O filme continua tão presente na cultura pop que ganhou uma homenagem da serie Glee e até um CD com músicas interpretadas pelo elenco.

O filme é, indiscutivelmente, um clássico do cinema B, com a trama um tanto confusa, personagens cativantes e uma trilha sonora deliciosamente influenciada pelo rocky e pop.  Longe de ser um filme indicado para todos os públicos, o longa é uma opção diferente, principalmente para quem gosta de filmes de terror B. Como diria os icônicos lábios vermelhos que abrem o filme: "Oh-oh at the late night, double feature, picture show"

19 de novembro de 2011

Romeu + Julieta de Baz Luhrmann - poesia pop


Romeu e Julieta é uma história tão clássica que é possível lembrar vários filmes, peças, musicais, sátiras e até animações que tiveram base no clássico de Shakespear sobre famílias rivais e jovens apaixonados que levam o amor as últimas consequências. Poucas adaptações da obra, entretanto, foram tão emblemáticas quanto a versão do diretor autraliano Baz Luhrmann (1996), que trouxe a tragédia dos Capuletos e Montéquios para os dias de hoje, transformando a briga de famílias em uma guerra de gangues. A “modernização”, porém, fica só no visual, já que o roteiro apresenta os versos líricos do livro na integra. Poderia ser incoerente, mas nas mãos de Luhrmann os versos ganham ainda mais força e sentido com o visual extravagante. 

Luhrmann usa histórias tradicionais com visuais modernos
A edição frenética, o uso das cores para transmitir sensações (do colorido saturado ao monocromático) e a trilha sonora recheada de canções pop dá um ar de “videoclipe da MTV“ para o filme, que ressalta ainda mais a juventude dos protagonistas e consegue dialogar diretamente com o público atual. Usando com maestria recursos visuais e sonoros, o diretor consegue criar imagens tão fortes que já fazem parte do coletivo popular, como a belíssima cena do encontro de Romeu e Julieta com um aquário entre eles enquanto a festa acontece na mansão dos Capuletos.
 
O elenco é encabeçado por um Leonardo Di Caprio ainda jovem e carismático. O Romeu do ator parece sem perspectivas, rumo ou ideais, até que encontra a razão de sua existência: o amor que nutre pela bela Julieta (Clarice Daines), jovem da família rival e considerada "inimiga". A atriz Clarice Daines cria uma Julieta inocente, quase etérea, mas que consegue manusear uma pistola quando necessário sem perder a feminilidade. Os protagonistas convencem nos papéis de jovens perdidamente apaixonados, capazes de brigar com suas famílias para consumarem seu amor. O elenco de apoio também da conta do recado com muitos rostos que seriam vistos em obras posteriores de Luhrmann. 

O amor em Romeu + Julieta é levado aos extremos
Alguns elementos presentes nesse filme seriam vistos depois em Mouling Rouge, a obra-prima do diretor responsável por trazer os filmes musicais de volta as telas de cinema e aos prêmios. Algumas cenas, como a chuva que cai azulada no momento em que Romeu é exilado da cidade, lembra, e muito, os momentos em que a cortesã Satine deixa seu amado Christian para evitar uma briga no cabaré.

Nos filmes de Luhrmann, principalmente em Romeu + Julieta, a história é conhecida, previsível, mas a forma como é contada é tão inovadora que desperta o interesse do espectador. Em R+J é até possível torcer, genuinamente, por aquele casal fadado ao final mais apoteótico e dramático de todos: morrer por amor. No mundo de Luhrmann o amor é sempre assim: intenso, dramático, proibido e sem medo de abraçar os clichês. Entre cores berrantes, músicas pop e poesia lírica, Romeu + Julieta fica marcado como uma das melhores versões do clássico de Shakespear