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18 de fevereiro de 2015

Megapost: Entendendo Living For Love de Madonna


A crítica foi praticamente unânime em apontar ‘Living for Love’, produção dirigida por Julien Choquart e Camille Hirigoyen como o mais influente clipe de Madonna desde que a Rainha do Pop desfilou seu collant roxo em Hung Up e iniciou a onda do revival dance-disco-setentista. A cantora andava mesmo um tanto desleixada com as produções de videoclipes, área em que foi referência por anos e rendeu pérolas como Like a Prayer, Frozen, Bedtime Story, superproduções como Express Yourself, Die Another Day, além dos polêmicos e censurados Justify My Love e Erotica. Se na última era, Give me All Your Luving foi uma divertida crítica ao cenário pop atual, Girl Gone Wild e Turn Up the Radio passaram quase desapercebidas do grande público e não conseguiram marcar a identidade visual do álbum MDNA.  

Aparentemente uma produção simples, Living For Love acerta onde algumas das criações recentes de Madonna pecaram, criando imagens fortes, personagem marcante, além da referência ao passado da artista, ao mesmo tempo em que aponta para a vontade da cantora em dialogar com um novo público. O próprio lançamento do vídeo, o primeiro videoclipe lançado mundialmente pelo aplicativo Snapchat, já indica como Madonna está de olho em novos meios de divulgar seu nome para futuras gerações, especialmente os mais jovens que talvez ainda associem Madonna como a ‘rival de Lady Gaga’ e ainda não tiveram contato com o trabalho dela. 

Como todo lançamento de Madonna, mesmo um clipe aparentemente simples, revela significados e referências a outros trabalhos da artista, homenagens e marca uma mensagem de superação, como diz a letra da canção.

A LETRA


Living for Love foi definida pela própria Madonna como uma canção sobre triunfar logo após ter o coração partido, uma mensagem de superação. Não há espaço para martírios românticos ou vítimas: no novo single, Madonna adota uma postura de esperança quando as coisas não parecem tão bem e aposta no amor como o elemento motivador das grandes mudanças.

First you love me and I let you in
Made me feel like I was born again
You empowered me, you made me strong
Built me up and I can do no wrong
I let down my guard, I fell into your arms
Forgot who I was, I didn't hear the alarms
Now I'm down on my knees, alone in the dark
I was blind to your game
You fired a shot in my heart

No começo da música, Madonna descreve como deixou-se enganar por um relacionamento aparentemente perfeito, deixando de lado os próprios gostos e dependendo do outro para fortalecê-la, motivá-la. Com o rompimento dessa realidade, ela percebe que estava ‘cega para o jogo’ e agora terá que enfrentar sozinha o fim dessa relação e encontrar a automotivação para seguir em frente.  

Took me to heaven and let me fall down
Now that it's over
I'm gonna carry on
Lifted me up, and watched me stumble
After the heartache, I'm gonna carry on
Living for love
Living for love
I'm not giving up
I'm gonna carry on

No lugar de lamentar esse término ou se colocar como a vítima da situação, o refrão da canção revela a mensagem de superação, ao colocar o amor (próprio) como elemento motivador para não desistir e superar as adversidades. O amor que antes era dedicado para o outro, volta-se para si, sendo um elemento de mudança. 

I could get  caught up in bitterness
But I'm not dwelling on this crazy mess
I found freedom in the ugly truth
I deserve the best and it's not you
You broke my heart, but you can't bring me down
I was falling apart, what was lost, now I'm found
I picked up my crown, put it back on my head
I can forgive, but I will never forget

Já superado o fim desse relacionamento, há a libertação e a convicção de que ela merece 'o melhor', diferente da relação fracassada que estava vivendo. Encontrando a liberdade na 'feia verdade' e já fortalecida, ela não se deixa mais abalar por essa história, recolocando 'coroa em sua cabeça', encarando o problema de frente. Apesar de parecer uma história superada, há uma promessa: apesar de perdoar, ela ainda não é capaz de esquecer, aprendendo com essa situação.

As Touradas


Semanas antes do lançamento do clipe, quando ainda não havia a confirmação da temática, a cantora postou uma foto de toureiro em a conta do Instagram, com elogios a pose ‘sexy’ da imagem. Minutos depois, a enxurrada de críticas diziam que as touradas incentivavam a matança do touro por entretenimento e mesmo com a cantora tentando justificar que admirava a pose e figurino na foto, ela acabou deletando a imagem para não gerar ainda mais polêmica ou ter que ficar que justificando as postagens. 

Polêmicas, as touradas fazem parte da cultura espanhola e são recheadas de simbolismo, rituais e etapas. A tradicional imagem do homem duelando contra o touro com uma capa vermelha é apenas uma parte do espetáculo, que envolve riscos para todos os participantes. Nesse duelo tão próximo com o animal, os dribles com a capa servem justamente para o toureiro conseguir avaliar o porte, velocidade e força do touro, para decidir o momento ideal para desferir o golpe. A tourada espanhola, diferente de outras versões em países Latinos, termina com o animal morto, de preferência com uma morte rápida e com um golpe calculado. Se o toureiro der o golpe certeiro, o animal não permanecerá por mais alguns minutos vivos e será ovacionado pelo público presente. 

Além da polêmica dessa tradição aparentemente cruel, o meio ainda é dominado pelos homens, apesar de existirem mulheres que encarem uma arena. As reais toureiras ainda lidam com o preconceito de participarem de um ambiente predominante masculino e têm que viver de maneira centrada para serem bem-sucedidas e encarem os perigos da prática, como retratado em ‘Fale com Ela’, do diretor Almodóvar em que a personagem toureira é atropelada por um touro e entra em estado vegetativo.

Entre os significados que alguns adotam das touradas, está a luta entre o homem e o animal, a razão sobre o instinto e até o feminino contra o masculino. 

Madonna e os toureiros


Não é a primeira vez que Madonna se aproxima do universo das touradas: em 1994, com o belíssimo clipe de Take a Bow (que fez com que ela ganhasse o papel título em Evita), ela interpretava uma mulher apaixonada pelo toureiro, quase obcecada pela imagem viril que ele representa. Depois de finalmente seduzi-lo, ela era abandonada e terminava o vídeo sozinha, encarando que tinha sido usada pelo homem que tanto venerou. O clipe tornou-se uma referência na videografia da cantora, na época no auge da beleza e rendeu uma das baladas de maior sucesso da carreira, permanecendo no topo das paradas por semanas. 



O sucesso de Take a Bow fez com a cantora repetisse a dose e fizesse a primeira continuação de videoclipe da carreira com a balada You’ll See. Dessa vez, entretanto, a situação era inversa: o toureiro arrependido segue Madonna para pedir perdão, mas a cantora está decida em deixá-lo, viajando para longe. Na letra, ela insiste em que não perderá a fé no amor e irá encontrar forças para superar essa desilusão, sozinha. Quase em tom de ameaça, a faixa termina dizendo 'eu não preciso de ninguém dessa vez - você verá'. 


O Clipe

Décadas depois de deixar o toureiro no clipe de You'll See, é Madonna agora quem assume o papel de domadora. Se em Take a Bow e You'll See as touradas eram um ambiente viril e sedutor, dessa vez ela surge como um dramático palco de lutas, com status de libertação. Se no clipe clássico de 1994 ela se arrumava para seduzir o toureiro, dessa vez ela se apronta para a luta.


Com belos e detalhados figurinos criado sob coordenação de B. Åkerlund com a estilista alemã Verena Dietzel, conhecida por peças burlescas, Madonna surge sozinha no palco que simula uma arena de tourada cercada com cortinas vermelhas, treinado para a luta (espetáculo) que está para começar. Se antes ela sofreu de amor e prometeu que iria superar, em Living For Love ela retoma a mensagem de superação e força, dessa vez encarando de frente os 'minotauros' que adquirem o significado dos problemas passados, relacionamentos fracassados e até ex-amantes. 





Já fortalecida e confiante, acreditando no amor próprio como defesa, a cantora adota uma postura provocativa, encarando os minotauros e fazendo com que, um a um, eles a enfrentem e sejam domados na arena. Ao encarar os problemas 'de frente', ela prova que está além dessas adversidades e logo faz com que os minotauros sigam seu comando, seu ritmo, como se tomasse as rédeas da situação.






Depois de dominar seus problemas, Madonna aparece rapidamente com uma máscara de diamantes parecida com as dos minotauros, que por sua vez revelam seus rostos. Se antes eles eram intocáveis seres místicos, agora eles não passam de homens comuns. Abandonando o figurino de toureira, Madonna ressurge mais feminina, solta e vibrante, como se depois de controlar seus medos a cantora se libertasse e estivesse pronta para uma nova fase. Um dos minotauros até tenta seduzi-la (uma reconciliação?), mas logo é repelido pela cantora, que é elevada pelos seres como a vencedora da Arena. 




Como na tradição espanhola, os minotauros são mortos e Madonna surge vitoriosa no fim, sendo ovacionada pela platéia que acompanhava o espetáculo. Encarando os medos e acreditando no amor como o motivador de grandes mudanças (como diz a letra), o clipe traz elementos da carreira da artista e faz referência as coreografias e palco de Maurice Bejart, além de pequenas polêmicas como o incentivo as touradas ou aqueles que preferem acreditar que Madonna está enfrentando 'demônios' no clipe. Com uma produção aparentemente simples, mas repletas de detalhes, Living For Love marca o começo da era 'Rebel Heart' e prova que Madonna ainda está interessada em permanecer no imaginário popular com imagens impactantes e, como diz na canção: não irá desistir!    



16 de setembro de 2012

Meia Noite em Paris - Woody Allen


Há uma tendência cada vez mais forte em olhar o passado em busca de ideias, seja na moda ou nas artes. Até Hollywood parece nostálgica ao dar o Oscar a "O Artista", um filme mudo em preto e branco. Na fotografia, usam-se filtros que deixam as fotos com cara de antigas pelo aplicativo Instagram. É nesse contexto saudosista que Meia-noite em Paris (2011), de Woody Allen, se encaixa: uma obra que celebra o passado e dá ao espectador muitas reflexões sobre o tema.

Gil (Owen Wilson), o protagonista, busca no passado a segurança e conforto que não encontra no presente, no qual é constantemente cobrado e avaliado pelos colegas, sogros e até pela noiva. Apesar do sucesso como roteirista de filmes populares de Hollywood, Gil mantém o sonho de se tornar escritor e busca em Paris a inspiração para criar sua história e provar que pode ser bem mais que  um sujeito mediano.

A Paris apresentada por Allen é encantadoramente glamourosa. Não há problemas na cidade, apenas prédios históricos, pessoas interessantes e ambientes belissimamente decorados. Quase como um lindo cartão postal em movimento. No decorrer da trama, a cidade ganha novas significações, tornando-se um símbolo da efervescência cultural, inspiração dos poetas e artistas de décadas passadas. Nesse sentido, a fotografia é eficiente em explorar os pontos mais conhecidos de Paris, tornando-a um cenário que transmite cultura e história a cada frame. A bela trilha sonora também ajuda a criar esse ambiente charmoso com canções de Cole Poter (em nenhum momento é ouvido músicas atuais, mesmo com a cantora Carla Bruni no elenco).

23 de outubro de 2011

Com "Sexo" e "Clímax" Erasmo e Marina voltam ao cenário musical



Como a música popular brasileira anda sem grandes ousadias, a tarefa de injetar um pouco de ânimo no cenário musical ficou para dois “veteranos” desse setor: Marina Lima e Erasmo Carlos. Os dois já até trocaram alguns selinhos numa premiação da MTV alguns anos atrás e chegam ao mercado com bons trabalhos que chamam a atenção pela dose de sensualidade nas letras e uma tentativa de modernizar o som desses dois artistas que andavam sumidos do cenário musical.

Marina, com seu Clímax, continua discreta e elegante em seus projetos, mesmo ao abordar sua busca por prazeres na metrópole com “noites de subir pelas paredes altas” na canção de abertura, Não me Venha Mais Com Amor. Marina parece ter aproveitado o contato intenso com a capital paulistana, sua nova casa desde que se mudou do Rio, apresentando um som revigorado, eletrônico e recheado de misturas sonoras em uma tentativa sincera de atualizar seu estilo. Essa é uma característica de quase todo o CD: a sensação de urgência, como se Marina depois dos 50 anos e da mudança de cidade estivesse ansiosa em aumentar o contato com as novidades musicais. Entres as canções, grande parte composições da própria cantora, destaca-se De Todas que Vivi, um dueto com Vanessa da Mata, em que cada cantora respeitou seu estilo de cantar e de interpretar a canção. São Paulo também ganhou uma homenagem em #Sampa Feelings, que chega a rimar Torá com Lady Gaga, para expressar como a metrópole paulista é cosmopolita. Outra parceria de sucesso no novo CD é a radiofônica Pra Sempre, com o vocalista do Skank, Samuel Rosa, que fecha o álbum de maneira mais calma, como se depois da agitação da cidade e dos questionamentos das relações modernas, Marina diminuisse o ritmo. Clímax é superior ao último trabalho de Marina, o também bom Lá Nos Primórdios, por representar, justamente, essa revitalização e novas parcerias no trabalho da cantora, fugindo dos clichês e dos padrões de outras cantoras brasileiras.

Já Erasmo Carlos continua a safra de bons projetos musicais, depois do elogiado Rock N' Roll, com o lançamento Sexo. Enquanto seus colegas da Jovem Guarda só gravam coletânias ou fazem shows bregas em Jerusalém, o “tremendão” aposta em letras repletas de sensualidade e um projeto ousado, a começar pela capa do cd: muito criativa e interessante. Depois da introdução da empolgante de Kama Sutra, música de Arnaldo Antunes que fala sobre as diversas posições sexuais do famoso livro indiano, Erasmo engata uma das melhores músicas do CD: Jogo Sujo, que chama a atenção por colocar a mulher como a interessada apenas por sexo, sem querer comprometimento amoroso. Essa “nova mulher”, mais interessada no prazer que em romance (que Marina também representa em seu novo disco) aparecerá em outras canções do álbum, como Apaixonado Anônimo. O cd perde um pouco do fôlego da metade para o final, com músicas que não contribuem musicalmente e que pouco acrescentam sobre o tema, muita vezes soando  muito parecidas entre elas. Entre os destaques das músicas mais "calmas" do disco estão Santas Mulheres, Seu Homem Mulher e Vênus e Marte.

Marina e Erasmo conseguiram produzir músicas atuais, fugiram de temas batidos e soam atuais sem apagar o histórico dos artistas e suas características principais. Em ambos os CDs, outro fator em comum chama a atenção: a busca por compositores novos, que injetam sangue novo nas produções. Adriana Calcanhotto, por exemplo, colabora com canções nos dois discos, com músicas acimas da média, que provam, mais uma vez, o talento de Adriana como compositora e sua capacidade de dialogar com diferentes ritmos e cantores.

Clímax e Sexo representam bons momentos nas discografias de seus autores por representarem um esforço em dialogar com questões modernas como sexo, vida urbana, amor... Erasmo e Marina, com todo os anos de carreira de cada, conseguiram ser mais relevantes e interessantes que grande parte dos cantores e cantoras que surgiram nos últimos anos. Mais uma vez, os "veteranos" ensinam como produzir obras de qualidade, com uma pitada de ousadia e sem perder a elegância. 

 
 

31 de julho de 2011

O Mistério de Iamamiwhoami

Vídeos virais, visual excêntrico e talvez a melhor campanha de lançamento de uma artista na era da Internet, podem definir o Iamamiwhoami até agora. Utilizando a tática do mistério como alma do negócio, há cerca de um ano um canal no Youtube chamado Iamamiwhoami começou a postar vídeos bizarros (com cerca de 30 segundos), com uma mulher loira e nenhuma descrição do que seria aquilo. Um mistério começava na Internet e rapidamente começaram os boatos. No começo, pensaram que era algum novo projeto secreto de Aguilera e depois até levantaram o nome de Gaga como responsável, mas Iamamiwhoami era algo bem mais fora do comum. 


No início, os vídeos eram curtos, nomeados com longas seqüência numéricas, mostravam imagens sem sentido (normalmente de paisagens, florestas ou animais) e uma mulher loira entre um frame e outro. Nada que permitisse deduzir muita coisa, muito menos a identidade ou objetivos da loira misteriosa. Nos vídeos mais recentes, postados nos últimos meses, já é possível acompanhar melhor os rumos do projeto. Nomeados com letras ou pequenas palavras, nos novos clipes já  é possível ouvir as músicas (um  pop mais experimental, com ecos de Bjork) e ter melhor noção do visual de Iamamiwhoami, que pode até parecer bizarro, mas está recheado de metáforas visuais e um apuro estético que difere de um projeto amador.


Com cerca de 200 mil exibições em cada vídeo, sem nenhuma divulgação nos meios tradicionais (tv, rádio ou jornais), nenhum CD lançado ou esclarecimento oficial,  o Iamamiwhoami é, até agora, um dos mais instigantes e curiosos “nascimentos” no mundo da música, fruto direto das novas formas de lançar e consumir canções na era da Internet. Trabalhando com o conceito de clipes lançados antes das músicas, o projeto aposta no mistério e no surreal para chamar atenção. Em tempos em que Lady Gaga é considerada A revolucionária da música pop, Iamamiwhoami prova que existem coisas instigantes e interessantes rolando na internet.



24 de julho de 2011

Comentário - A Sangue Frio de Truman


Com A Sangue Frio, Truman Capote inaugurou um novo estilo na literatura e no jornalismo: uma mescla até então inédita do espírito ivestigativo do jornalismo com a análise psicológica dos personagens, definido pelo autor como um “romance de não ficção”. Na trama, vamos acompanhando, detalhadamente, os diversos aspectos e repercussões do assassinato de quatro membros de uma família, numa cidadezinha do Kansas, Estados Unidos. O livro também traça um perfil detalhado dos assassinos: desde problemas na infância, até os desejos mais íntimos que os motivaram a cometer esse crime que chocou a sociedade na época.

Alguns anos atrás, Capote tornou-se figura celebrada, principalmente pelo lançamento da cinebiografia do autor, Capote (2006), que concorreu a diversos prêmios, incluindo o Oscar. Até A Sangue Frio, o autor era mais conhecido por livros de ficção, como Bonequinha de Luxo, participações em roteiros de filmes e pelo convívio direto com a alta sociedade nova-iorquina, incluindo as estrelas da música e do cinema da época. Foi folheando o jornal que Capote deparou-se com a notícia do assassinato da família Clutter, que serviria de embrião para seu livro mais famoso. A idéia inicial do escritor era escrever um artigo sobre como uma cidadezinha se comportaria diante de tal chacina e como as relações na comunidade seriam afetadas pela suspeita, uma vez que o paradeiro dos assassinos ainda era desconhecido. Com a prisão dos criminosos, o texto tomou novos rumos e passou a abordar, paralelamente, os aspectos psicológicos dos assassinos. 

Ao todo, o livro levou cerca de seis anos para ser escrito e, apesar de atualmente questionarem até que ponto Capote não teria “alterado” alguns depoimentos e passagens, o que se tem, no geral, é uma grande reportagem, escrita com a fluência de um romance. Capote consegue narrar de maneira detalhada, mas sem ser cansativa, os ambientes, personagens e situações. 

O destaque da trama não é mais o assassinato em si, o factual, mas o perfil psicológico dos personagens, principalmente dos assassinos: dois ex-presidiários que bolaram um golpe para recomeçar a vida no México. Capote é habilidoso em marcar a personalidade de cada um, dessa forma, Richard Hickicok, o Dick, surge inescrupuloso, grosseiro, extremamente calculista, enquanto Perry Smith revela-se dono de uma alma sensível e ao mesmo tempo capaz de matar uma família inteira por dinheiro.  Essa descrição é capaz de levar o leitor em uma jornada e uma confusão de sentimentos: ao mesmo tempo que percebemos a brutalidade do crime cometido, à sangue frio, vamos, pouco a pouco,  compartilhando os dilemas de culpa e arrependimento dos assassinos. Há também uma aparente imparcialidade na trama, já que nenhum julgamento é feito explicitamente, apenas a narrativa dos fatos como aconteceram, sem opiniões ou criticas por parte do autor. A imparcialidade também é atingida com o relato dos próprios assassinos, uma vez que dá voz para os dois lados envolvidos no fato. Até o titulo “A Sangue Frio” pode ser relacionado com o crime em si, ou à execução dos dois criminosos.

Capote conseguiu transformar uma noticia de jornal em uma analise profunda de seus personagens, narrando de forma continua e estimulante, os diversos aspectos que cercam o fato. Independente se é jornalismo ou literatura, não há como negar que estamos diante de uma grande obra.

11 de julho de 2011

Comentário - Born This Way (Lady Gaga)

Lady Gaga é onipresente: ela está no rádio, na televisão, nos sites de notícias, no youtube... A cantora ficou tão famosa nos últimos anos que nem parece que antes de 2008 ela era praticamente uma desconhecida do grande público. Com Poker Face e Just Dance, a loira conquistou as paradas musicais e nunca mais saiu da mídia, emendando “escândalos” (como a famosa roupa de carne), figurinos bizarros e declarações polêmicas por onde passa. Com o cenário musical ávido por novidades e dominado por cantoras que não faziam nada de novo ou ousado, Gaga surgiu e já foi rotulada como a última revolução do pop, a única capaz de lançar tendência, gerar debate e ainda colocar suas músicas no topo do sucesso.

Depois do sucesso de The Fame Monster (que contou com o hit Bad Romance), Gaga teria a maior provação da carreira até agora: conseguir manter o sucesso e interesse dos fãs e da mídia com o segundo CD de inéditas de sua carreira. Mesmo com a pressão de alcançar os patamares anteriores, Gaga, como boa marketeira que é, não se intimidou e declarou que seu novo álbum seria o “melhor da década”, o “hino de uma geração”. Com o lançamento do aguardado Born This Way no final de maio, percebe-se que o novo trabalho, na verdade, é uma evolução de The Fame Monster, mas está longe de representar uma ruptura ou mesmo uma grande inovação no que a cantora já vinha produzindo.

Dessa forma, o CD aposta no caminho que Gaga já domina, com muitas músicas preparadas para agitar as baladas do mundo todo, com algumas misturas de ritmos e claras referências a outros artistas (é só lembrar da polêmica envolvendo Madonna e Express Yourself). Born This Way começa com muito folêgo, principalmente suas cinco primeiras músicas, mas que vai perdendo o gás depois da segunda metade, recheada com canções feitas sob medida para cumprir as exigências da gravadora e com pouco diferencial entre si, totalmente esquecíveis. Entre os destaques, estão Judas (que lembra muito a estrutura de Bad Romance), em que a cantora discute sobre amar a pessoa errada, Americano, em que Gaga evoca Gogol Bordello, Bloody Mary (a mais madônnica de todas as músicas de Gaga, tanto na letra quanto na melodia) e duas que prometem incendiar as pistas do mundo inteiro: Shibe (com passagens em alemão) e Goverment Hooker. O disco termina com a balada à Shania Twain, You and I e o próximo single da cantora, The Edge of Glory.


Um dos pontos favoráveis do CD é que podemos escutar melhor a voz da cantora, sem tantos efeitos quanto as canções da Kesha, Britney ou mesmo nas primeiras canções de Gaga em The Fame. No quesito letras, Born This Way acaba sendo bem mais pessoal que os outros trabalhos dela, debatendo sobre religião, amor e, principalmente, a necessidade da auto-aceitação, como proclama a faixa-título, que celebra a diversidade sexual. A cantora já declarou diversas vezes que nunca foi uma garota muito popular antes da fama e que sofria por não se encaixar nos padrões estéticos e comportamentais, essa é base de todo disco. Pode até soar um tanto clichê ou como auto-ajuda barata, mas mostra uma tentativa de Gaga em se expor e dialogar diretamente com os anseios de seus fãs, os "monstrinhos".

Diante de tantas expectativas e propagandas, Born This Way não cumpriu a revolução proclamada, mas também não compromete a carreira de Lady Gaga. Se por um lado, temos canções mais pessoais e que buscam trazer elementos de outros ritmos musicais, a sensação é que nenhuma música consegue superar Bad Romance ou Poker Face. Talvez, com mais tempo e sem tanta pressão da mídia e dos fãs, Gaga conseguiria criar um CD ainda mais pessoal e que pudesse, de fato, mostrar mais sobre a mulher que está por baixo do personagem e das roupas bizarras. Agora é esperar pela turnê (que pode passar pelo Brasil no ano que vem) e pelos clipes que a loira lançará. 

22 de maio de 2011

Comentário - Who You Are de Jessie J

Se você andou por fora das novidades da música pop nos últimos anos, só vai precisar ouvir o primeiro CD da cantora britânica que está indo bem nas paradas de sucesso: Jessie J.  Who You Are tem um pouco do sucesso do hip-hop, rapper fazendo participações em canções, uma pitada de rock e baladinhas que poderiam aparecer nas vozes de Kesha ou Rihanna. Isso pode até ser explicado pelo fato de Jessie ter composto várias músicas para outros cantores, antes de gravar suas próprias canções.

Fisicamente, ela pode até lembrar Katy Perry, usar roupas excêntricas à Lady Gaga, ter letras sobre o cotidiano feminino como Lily Allen, soar agressiva como Nicki Minaj e adora mostrar que tem uma bela voz, com exibições dignas dos candidatos do Ídolos. A maior qualidade da cantora parece ser justamente essa capacidade de combinar um pouco de tudo e conseguir soar natural, sem parecer uma cópia. Há até um certo frescor e atitude que parece ter agradado em cheio os críticos ingleses. 

No cd, destaca-se a faixa de abertura Price Tag, uma saborosa canção de introdução, seguida por uma das melhores do álbum:  Nobody's Perfect, em que a cantora relata sobre os momentos em que perde o controle e fica fora de si. Conhecida por falar o que pensa, sem se preocupar com a  opinião dos outros, a canção ganha força e brilha como um dos melhores momentos do cd. Tirando o single Do It Like a Dude (uma canção com mistura de hip-hop e que conseguiu ir bem nas paradas), e alguns outros bons momentos, o restante das músicas soam sem muita força ou pecam pelo excesso de firulas vocais. De maneira geral, Who You Are vai oscilando entre bons momentos, momentos medianos ou abaixo da média, mas que ainda conseguem mostrar que Jessie tem talento.

Além de começar a chamar a atenção do público, a cantora tem recebido elogios dos críticos, que destacam sua voz bem treinada, suas composições sobre a mulher moderna e o talento para misturar ritmos sem parecer com data de validade. Nesse primeiro álbum, por enquanto, fica a sensação de que ainda falta algo e a certeza de que a cantora ainda poderá render muito mais se ficar menos presa no que está sendo tocando nas rádios e se esforçar em soar mais como ela mesma.



8 de março de 2011

Comentário - Scott Pilgrim Contra o Mundo

De vez em quanto tempos a chance de presenciar algo diferente no cinema. Scott Pilgrim Contra o Mundo é exemplo recente do quanto um filme baseado em histórias em quadrinho pode ser original. O longa é uma mistura de tudo que esteve em alta na cultura pop na última década: quadrinhos, videogames, cultura japonesa, bandas de rock alternativas, kung fu e animações. Na trama, o adolescente Scott Pilgrim leva sua vida sem muitos atrativos, até que conhece uma jovem recém chegada e fica completamente apaixonado pela moça. O único problema é que para ficar com Ramona, Scott terá que enfrentar os sete ex-namorados malignos dela e ainda terminar sua relação com a obsessiva namoradinha japonesa. 

Apesar da história não parecer muita coisa (e realmente não é...) o que chama atenção no filme é estética de videogame utilizada. Cada ex-namorado é como um "chefão" de um jogo que precisa de habilidades únicas para ser derrotado. Dessa maneira, temos lutas no estilo Mortal Kombat (com direito a pontos por cada golpe), disputas de Guitar Hero e até uma "fase final" com o chefão dos malignos. O filme chega até a lembrar o estilo frenético e super colorido de Speedy Racer com a história de Kick Ass - Quebrando Tudo.

Mas um filme não sobrevive só com visual bacana, aqui os personagens secundários  também são destaques, como o ex-namorado que adquiriu poderes psiquicos pela dieta vegan, ou o colega de quarto homossexual de Scott, que representa o papel sem as típicas caricaturas ou afetações, que caracterizam os gays no cinema. O casal protagonista também cumpre bem seus papéis, apesar de Michael Cera estar praticamente fazendo o mesmo personagem de Juno.  

Totalmente fora da realidade, pop, acelerado e com uma trilha sonora bacana, o filme está longe de agradar a todos, mas é uma opção diferente e original para quem está cansado das opções do cinema atual, principalmente com as adaptações de histórias em quadrinhos que se tornaram a galinha dos ovos de ouro de Hollywood.