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6 de março de 2016

Do fracasso de ArtPop ao sucesso no Oscar - como Lady Gaga alterou a imagem


A mídia e os fãs de pop adoram um renascimento. Ainda mais saboroso que acompanhar o declínio de grandes astros e ver quando eles tentam um novo posicionamento e pedem uma segunda chance para entreter as plateias globais. Esses recomeços marcam a história de quase todos os grandes nomes da música pop, como Justin Bieber que recentemente deixou a imagem de ‘garoto problema’ para cantar ‘Sorry’ e chorar no palco emocionado com a oportunidade de voltar a se apresentar em premiações. Como Lady Gaga criticou no seu vídeo Paparazzi de 2009, a ascensão, queda e ressurgimento de ícones pop é um ciclo comum na mídia. Utilizando ações e projetos estratégicos, a própria Gaga conseguiu uma segunda chance de se reposicionar no mercado musical, conquistando novos fãs e expandindo o nome para além do gueto pop que a transformou em um fenômeno na década passada. 

Por mais que os fãs batam na tecla de que o álbum seja bom ou tenha uma importância na carreira, é inegável que ArtPop resultou em uma era bagunçada, com mais promessas do que resultados concretos e uma queda de venda e popularidade nos padrões 'GAGA'. O que foi inicialmente anunciado como um álbum multimídia, com o lançamento de um aplicativo e até um possível disco duplo, por fim revelou-se um projeto com boas músicas pop, que pareciam fazer a ligação entre o pop descompromissado de The Fame com as canções de autoaceitação de Born This Way. Com evidentes problemas de planejamento e divulgação, inclusive com mudanças de membros da equipe e declarações de insatisfação da própria cantora, o que foi anunciado como uma revolução na carreira acabou passando quase desapercebido do público, com o cancelamento de clipes, singles com pouca divulgação e uma queda nas vendas: enquanto o antecessor quase bateu a marca de sete milhões de cópias, ArtPop não ultrapassou os dois milhões. Até mesmo a turnê ArtRAVE: The ArtPop Ball não foi estendida e conta com menor arrecadação que os shows anteriores da cantora. Só para comparação, no mesmo período Prism de Katy Perry vendeu mais de três milhões e meio de cópias e emplacou dois hits poderosos (Roar e Dark Horse), além de uma apresentação no Super Bowl e a turnê Prismatic.


Para diminuir essa imagem de decadência e evitar cair no ostracismo do Pop, a cantora atualizou sua equipe e investiu na construção de uma nova 'persona' artística, que culminaria na premiação da Billboard como 'Mulher do Ano' em 2015. Para conseguir essa façanha, Gaga deixou o pop de lado e abraçou a nova fase 'jazz'. Mal terminada a turnê ArtRave em novembro de 2014, Gaga já estava envolvida na divulgação do álbum Cheek to Cheek, parceria com Tony Bennett. Era o primeiro projeto musical no qual a cantora abandonaria a personagem extravagante e com discursos de aceitação para investir em uma imagem mais clássica e acessível para todos os estilos (e idades). Para isso, obviamente, ela não ousou em inovar e apostou em versões de canções clássicas, de Bang Bang, até I Won't Dance. e teve a figura icônica de Bennett como um 'padrinho', que atestava a qualidade do material e parecia garantir que possíveis críticas fossem apaziguadas. Com foco na voz e sem os dançarinos semi-nus que a cercavam, Gaga queria atrair novos fãs para os shows intimistas, que nada lembravam os littles monsters  fantasiados que lotam os shows da cantora no passado. O projeto garantiu boas vendas se considerado um projeto ‘paralelo’, uma turnê estendida e até ganhou um Grammy.

Para consolidar essa nova imagem, Gaga aproveitou a oportunidade de realizar uma apresentação no Oscar 2015, um tributo ao clássico A Noviça Rebelde, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 1966 e que completava 50 anos do lançamento. Com um treinamento vocal 'de dois meses', de acordo com a cantora, a elogiada apresentação de The Hills Are Alive serviu para demonstrar ao mundo interior essa nova fase, mesmo para aqueles que ainda não conhecessem o último projeto com Bennett ou a nova imagem elegante da cantora. O evento também marcaria a aproximação de Gaga com atores e produtores, o que ficaria ainda mais evidente com o teaser divulgado nos dias seguintes, com informações de um novo projeto da cantora.
 

Agora que apresentava uma nova faceta musical, a cantora explorava um novo desafio: Lady Gaga foi o primeiro nome confirmado no elenco da quinta temporada da série American Horror Story, antologia de terror criada por Ryan Murphy (de Glee e Scream Queens).  A ansiedade era grande, já que a anunciada saída de Jessica Lange, atriz que praticamente protagonizou as três temporadas, deixaria um grande buraco a ser preenchido e novidades seriam necessárias para atrair um novo público ao programa. Depois do teaser em preto e branco com a temática da temporada, poucos detalhes foram revelados até a estreia em setembro, em que tivemos a oportunidade de acompanhar Gaga como a protagonista da série no papel de uma excêntrica vampira, a 'Condessa', que vive em um hotel decadente e sinistro, uma trama claramente inspirada no clássico cult Fome de Viver. Apesar da queda de audiência ao longo da temporada, Gaga conquistou reconhecimento pela atuação, levando um Globo de Ouro e já está confirmada para próximos anos da série. Essa aproximação com as telonas não é novidade no meio musical e poderá render ainda mais oportunidades futuras, como tiveram Cher, Bette Midler e Barba Streisand.

Para fechar 2015, Gaga receberia o título de 'Mulher do Ano' pela revista Billboard, título que já foi de Taylor Swift, Beyoncé e Katy Perry em edições anteriores. Na entrevista, a cantora comentava da aproximação dos 30 anos, das exigências do mercado fonográfico atual e que não mais se preocupava em parecer uma pop star. Como resultado dessas ações, no começo de 2016 tivemos Gaga onipresente em todos os eventos e premiações possíveis, do Super Bowl com a execução do hino nacional, a premiação no Globo de Ouro, fazendo um tributo tecnológico ao Bowie no Grammy e a indicação de Til It Happens To You no Oscar, que levou ao palco vítimas de abusos sexuais, Em todos os eventos, do visual a postura, nada lembrava a Lady Gaga excêntrica e ousada de anos anteriores, mas um reforço dessa nova fase em que a cantora é associada com atitudes centradas e qualidade musical, uma nova Gaga 'para todas as idades'.

A 'nova' Gaga: longe do vestido de carne
Com ações estratégicas e projetos paralelos em quase dois anos, Gaga e sua equipe parecem ter deixado a mancha de ArtPop para trás, com um reposicionamento de imagem e estilo. A prova definitiva de se esse esforço valeu a pena será com o lançamento do aguardado quinto álbum da cantora, que está sendo produzido desde meados de 2015 com uma possível participação do produtor RedOne (responsável pelo sucesso Just Dance) e que ainda não tem uma data de lançamento definitiva. Para o público, será curioso ver como Gaga tentará conciliar essas duas novas personagens que se definiram nos últimos anos e se ela conseguirá agradar tanto os antigos fãs que adoravam os hits dançantes e a nova parcela que foi atraída pela associação com o jazz. Os próximos passos serão decisivos para a consolidação da carreira e, por enquanto, só resta torcer para que esses anos em projetos tão diversificados tenham servido como repertório e inspiração para novas mudanças e ousadias no próximo passo de Gaga!  

3 de abril de 2013

Nostagia na Cultura Pop – O Retorno dos Grandes Ídolos



Não há como negar: estão faltando ídolos. Seja na música, cinema ou até mesmo na literatura, qual nome atual é capaz de despertar a paixão e interesse dos astros de antigamente? Em uma era em que todos pode se tornar um fenômeno de popularidade, sem a necessidade de uma habilidade especial, é cada vez mais difícil aparecer alguém realmente interessante. Se, por um lado, nunca estivermos tão perto dos nossos ícones, por outro, percebemos mais facilmente suas fragilidades, problemas pessoais e acabamos perdendo a idolatria. Sem as redes sociais ou internet, nossa imagem dos astros era sempre imaculada: sorridentes em entrevistas, impecáveis em bailes ou brilhando nas telas e palcos. Não sabíamos que eles se matavam na academia, que tinham problemas com drogas ou que saiam de casa vestindo pijama. É difícil acreditar que Britney Spears é incrível, depois de ver milhares de fotos dela acima do peso e com roupas comuns no dia a dia. Hoje, qualquer passo dos famosos é registrado, compartilhado e gera um rápido debate. Eles estão cada vez mais como nós.

Na música pop, Lady Gaga parecia recuperar o glamour das grandes estrelas, com ousadias e polêmicas calculadas que despertavam o interesse do público e da mídia. Os excessos, entretanto, acabaram esgotando sua imagem e seus fãs terminaram reduzidos a uma "panelinha". Justin Bieber é outro que já reclama dos efeitos da fama: em um recente show, passou mal, foi parar no hospital e saiu brigando com os fotógrafos. A contradição é que, ao mesmo tempo em que cobrava privacidade, publicava fotos de cada acontecimento em sua conta no Instagram. A mídia continua tentando encontrar quem será capaz de despertar o interesse do grande público e se tornar "A Voz de Uma Geração": Lana Del Rey parecia incrível, até que cantou ao vivo... Adele vendeu milhões, mas parece mais preocupada com a família do que manter a fama. Rita Ora, Jessie J, Nicki Minaj, One Direction... nomes não faltaram nos últimos anos como grandes revelações, que acabaram não vingando ou perdendo o interesse do grande público. Na falta de uma novidade realmente interessante, os "retornos musicais" nunca foram tão alardeados. Artistas consagrados que há anos não lançavam nada estão tendo que correr para cativar um público sedento por grandes ídolos.

Só no ano passado, Madonna provou que ainda dá um banho na concorrência com a turnê MDNA. No Doubt, Mika, Nelly Furtado, Christina Aguilera e P!nk foram alguns dos grandes nomes que também lançaram material inédito após anos. Alguns tiveram retorno comercialmente, outros só conseguiram a apreciação da crítica. O importante foi colocar seus nomes, novamente, na lista de músicas das novas gerações. Nesse ano, tivemos o aguardado retorno do Príncipe do Pop: Justin Timberlake, que tinha estacionado a carreira de cantor para se dedicar ao cinema. Beyoncé, que nunca dormiu no ponto quando o assunto é ganhar dinheiro, também aproveitou a falta de grandes nomes atuais para anunciar uma nova turnê, depois da recepção fria do álbum 4 e o nascimento do bebê. O retorno mais inesperado e midiático, entretanto, foi o anúncio de David Bowie, quase uma década depois de praticamente sumir dos holofotes. O Camaleão do Rock provou que ainda consegue dar uma aula para as novas gerações de músicos e fez o projeto que queria, no tempo que determinou.


No cinema, a situação não é diferente: Hollywood e o público estão saudosos dos tempos dourados. A última cerimônia do Oscar mostrou o desespero da Academia em tentar premiar jovens talentos, como Jennifer Lawrence ou Anne Hathway, como se quisesse indicar "rostos novos" para serem idolatrados. O público, porém, não se convence mais só com um prêmio dourado: Hathway se tornou motivo de chacotas na internet por seu vestido e a fama cada vez maior de ser arrogante e antipática. Já Jennifer Lawrence pode representar bem o estilo "descolada", mas terminou sendo um dos assuntos mais comentados da noite ao cair na escadaria, quando ia receber seu troféu de melhor atriz. 

Nisso, Hollywood aponta para o passado como algo imbatível. Filmes como A Invenção de Hugo Cabret, O Artista e Sete Dias com Marilyn já mostravam essa tendência em buscar nas origens do cinema as possibilidades de encantar os novos espectadores. Grandes astros como Marilyn, Hitchcock e Elizabeth Taylor já rederam longas que procuram, mais do que mostrar suas histórias, ressaltar o que os tornavam únicos. A próxima aposta é Grace de Mônaco, com Nicole Kidman no papel do ícone Grace Kelly. Para um público cada vez menos acostumado a escolher o filme pelos atros, rever essas grandes estrelas é uma viagem ao passado.

Um comercial recente de chocolates causou polêmica (como tudo hoje em dia), ao ser protagonizado por uma Audrey Hepburn digital. A questão sobre “direitos de imagem” ou “apropriação da memória” podem ser debatidas, mas, talvez, o comercial só quisesse mostrar como Audrey era encantadora, delicada e elegante. Quem, atualmente, teria a mesma graciosidade da Bonequinha de Luxo para comer um chocolate no ônibus e soar totalmente plausível? Acreditamos que Audrey é incrível, talvez, por não sabermos como ela era no dia a dia, por não termos fotos dela no Instagram, por não acompanharmos o twitter onde ela descreveria seu cotidiano. Nossa imagem é apenas da mulher imaculada, a diva que sai do seu castelo de sonhos e entrega para nós um pouco de encanto. 

Por isso, não é estranho pensar que Gaga se inspire em Madonna, que grandes atrizes queiram interpretar ícones do passado, que se lotem as fotos e clipes com filtros do Instagram ou que o retorno de David Bowie seja encarado quase como um messias musical. O passado nunca pareceu tão atraente. O problema é que quando paramos para analisar,os grandes ídolos nunca foram infalíveis, nem tinham a pretensão de mudar o mundo... não podemos cobrar deles se nossa geração é fraca de conteúdo. Não será admirando o passado que manteremos a cultura pop viva.