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3 de novembro de 2017

DVD Rebel Heart Tour - Em novo show Madonna ressurge mais saudosista



Com o lançamento do CD duplo e do DVD da Rebel Heart Tour, os fãs brasileiros têm a oportunidade de assistir ao show que dessa vez não veio ao país e conferir essa ‘nova’ Madonna, que surge mais saudosista que nunca. Na décima turnê da carreira, a Material Girl deixa um pouco de lado as tecnologias e palcos que parecem Transformers que marcaram os últimos shows e aposta em truques de cena como figurinos deslumbrantes, uma trupe de dançarinos diversificados e um setlist recheado de clássicos oitentistas para levantar o público.

O clássico novo pop

O show segue o padrão que a loira estabeleceu com Blond Ambition e é seguido por 90% das produções atuais, com blocos temáticos separando músicas e conduzindo o espectador pela 'jornada' (como Madonna costuma se referir aos espetáculos) e criando os novos personagens da carreira. Assim, o show começa com Madonna enclausurada com mesmo vestido em que defendeu Sooner or Later na cerimonia do Oscar em 93, uma referencia direta a Marilyn Monroe, o ícone pop supremo do cinema que Madonna recriou tantas vezes ao longo da carreira. Fragilizada na jaula, Madonna contesta a imagem de ícone superficial, convocando os exércitos em Iconic e já emendando com Bitch I'm Madonna.

De forma geral, esse primeiro bloco resume alguma das lutas e polêmicas de Madonna, com o ponto alto em Holly Water, em que freiras sensuais fazem pole dance e uma pecaminosa recriação da Santa Ceia. Após esse começo frenético com a guerreira Madonna, o próximo bloco dá uma acalmada, com estética retrô e o encanto, decepção e superação de um relacionamento. True Blue, música composta para Sean Pean, é resgatada em uma emocionante versão acústica, assim como Like a Virgin é repaginada com Madonna dançando, rolando e rebolando pelo palco... impossível qualquer fã não ficar com um sorriso no rosto de associar esse momento com The Virgin Tour de 85




Depois de uma passada pela fase Erotica com uma sensual performance de S.E.X, Madonna surge com a longa capa, executando com maestria a performance de toureira de Living For Love que levou a cantora ao chão no palco do EMA em 2015. O drama das touradas é só a porta de entrada para o  colorido universo latino, que Madonna sempre visitou em clipes e turnês ao longo da carreira e aqui serve de plano de fundo para os hits La Isla Bonita, Dress to Up e Into the Groove, finalizando com Rebel Heart reforçando várias imagens icônicas da loira. Impossível não sentir falta de pelo menos uma das performances acústicas que Madonna fez ao longo da turnê nesse bloco, como Who's That Gilr, Secret, Don't tell Me, entre outras, que deixaria o bloco ainda mais emocionante. 

Já na reta final, Illuminatti é um interlúdios mais incríveis dos shows de Madonna, com dançarinos se equilibrando em uma interessante coreografia. O brilho dos anos 20 é reforçado por Madonna cantando Music em preto e branco, em um clima de cabaré decadente. Até Material Girl, hit que a cantora já revelou não mais se identificar, surge fazendo referência direta ao clipe com ares de art déco, com Madonna se livrando dos pretendentes até terminar vestida de noiva, em uma clara associação com sua fase oitentista. Para fechar essa 'jornada', depois de uma versão acústica de La Vie en Rose, Madonna faz a festa com convidados VIPS em Unapologetic Bitch e termina voando toda sorridente em Holiday, hit que já encerrou vários shows. 


Edição pesada tira parte da emoção

Funcionando quase como uma turnê de celebração e recapitulação da carreira, a Rebel Heart exibe uma faceta mais vulnerável e acessível de Madonna, sem tantos efeitos de palco e mais interessada em se conectar com o público. É uma pena, portanto, que parte dessa emoção saudosista seja prejudicada nesse registro oficial pela edição que ora tira trechos das apresentações, ora coloca tanta informação em tela que fica difícil de acompanhar a cena. Nessa, até a edição de áudio tira praticamente toda a emoção dos fãs para deixar a base mais alta que a própria voz da Madonna: basta ver qualquer vídeo no youtube gravado por fãs para sentir a diferença. Um pouco mais de apreço na edição teria evitado essa impressão de distanciamento. 

Em entrevista para divulgação desse material, Madonna comentou que planeja futuras turnês mais intimistas, já que acredita que levou as superproduções ao limite ao longo da carreira e agora deseja explorar novos formatos, mais próximo dos fãs e sem tanto apelo tecnológico. Se for realmente um novo posicionamento da cantora, agora que também está beirando os 60 anos, Rebel Heart entrará em sua história com a primeira olhada nostálgica ao passado, sem naftalina, um espetáculo capaz de agradar tanto quem cresceu vendo a noiva de Like a Virgin quanto quem descobriu a cantora dançando Bitch I'm Madonna no youtube, uma comprovação de que no palco ela ainda é a Rainha do Pop.  

12 de setembro de 2015

5 Turnês Indispensáveis de Madonna


O título de Rainha do Pop e o trono que Madonna ocupa há mais de 30 anos de carreira está sempre sendo questionado, seja por aqueles que ainda dizem que ela não tem a melhor voz, os fãs das novas cantoras (que em sua maioria se apropriaram do legado da própria Material Girl), ou mesmo os fãs saudosistas da Madonna dos anos 80 ou das polêmicas da década de 90. Seja qual for o argumento, muitos deles caem por terra quando a senhora Ciccone começa uma nova turnê e prova que, definitivamente, o palco é o espaço em que seu talento e legado é inquestionável. Com o início de sua mais nova empreitada, a Rebel Heart Tour (que promete se tornar a turnê mais lucrativa de 2015-2016), Madonna deverá atrair novos admiradores e reconquistar muito dos antigos. 

Para você que justamente quer conhecer (ou relembrar) as turnês que tornaram Madonna o ícone de hoje, cinco shows te ajudarão a ver a diversidade, profissionalismo e dedicação da cantora nessa jornada rumo ao topo. 


Drowned World Tour (2001)

Frequentemente fora das listas das mais queridas dos fãs, a Drowned marca o retorno de Madonna aos palcos depois de um hiato de quase oito anos em decorrências da gravidez e projetos no cinema. Marcando o começo no uso de novas tecnologias no palco, para muitos o show é quase uma ‘anti-turnê’ de Madonna, com um setlist de poucos hits clássicos (com exceção das incríveis performances de La Isla Bonita e Holiday, que surge vigorosa) e blocos que passeiam por temas pesados, como violência urbana, artes marciais e submissão feminina. Na Drowned, Madonna se comporta mais como um rockstar do que uma diva pop purpurinada, com sobrancelhas descoloridas à Ziggy Stardust, incluindo performances com instrumentos (guitarra e violão) e sendo o único show em que ela não mostrou as belas pernas ou abusou das lingeries. Com impressionante teatralidade, Drowned é uma turnê escura, repleta de referências orientais e que marcaria os rumos das próximas empreitadas de Madonna. 


Blond Ambition (1990)

Praticamente um divisor na carreira da cantora e do próprio show business, a Blond Ambition em alguns momentos pode parecer um tanto ultrapassada com aquele charme brega dos anos 80, mas foi fundamental para criar a base que 90% das turnês atuais utilizam, ao aproximar a estrutura dos mega-espetáculos da música com a produção e figurinos dignos de espetáculos da Broadway. Foi a primeira grande turnê da cantora a utilizar cenários mega-produzidos, contar com figurinos criados por estilitas e aliar a polêmica e blasfêmia para se tornar capa de jornais do mundo inteiro. Com algumas das melhores coreografias e performances da carreira, a Blond transformaria Madonna em uma deusa da sensualidade, com os sutiãs cônicos explorados por Gaultier na polêmica simulação de masturbação em Like a Virgin ou na abertura em que a cantora domina os subalternos. Um marco da cultura pop, Blond ainda encanta com uma Madonna no auge da provocação. 


Confessions Tour (2006)

Uma das turnês mais memoráveis de Madonna, a Confessions Tour seguiu a boa recepção do álbum Confessions On a Dancefloor, serviu para reconquistar muitos fãs e atrair a atenção de novas gerações, provando sua capacidade de antecipar tendências em espetáculo pop impecável. Utilizando a década de 70 como base, o show passeia por momentos com estética Disco (com inspirações em Embalos de Sábado à Noite e Xanadu), até uma polêmica performance de crucificação em uma cruz de espelhos (homenagem à Jesus Cristo Superstar), passando pelo movimento glam rock e prestando as devidas homenagens à Donna Summer e o ABBA, mesclando os primórdios e futuro da própria Madonna. Com versões surpreendentes de antigos clássicos (como Like a Virgin em que a cantora exibe toda sua flexibilidade após, literalmente, cair do cavalo), a Confessions se tornou um cartão de visita para quem quer descobrir os talentos de Madonna. 


The Girlie Show (1993)

Se a Blond Ambion serviu para definir os parâmetros de um espetáculo pop nos anos 90, The Girlie Show se aprofundou ainda mais no lado teatral dos shows, com referências ao cinema e questões sociais, se mantendo relevante sem parecer datada. Com a proposta de ser quase um “circo sexual”, a Girlie celebra a vida e o sexo, passando pelo movimento do amor livre dos anos 70, os cabarés decadentes e terminando com a motivação de ‘everybody is a star’. As performances são recheadas de referências aos filmes e divas clássicas, especialmente Marlene Drietchi, o que em alguns momentos deixa o clima um pouco arrastado. Explorando o visual andrógeno dos dançarinos (que hoje ganha novamente as manchetes da moda com o gender-bender), a Girlie marcaria o ápice de Madonna como um ícone sexual, com cabelos curtos platinados, um corpo trincado e figurinos assinados por Dolce & Gabbana.


MDNA Tour (2012)

A MDNA merece destaque por ser a última turnê de Madonna (primeira na última década) e servir quase como uma demonstração de poder da cantora: o espetáculo é grandioso, com um palco gigantesco e uma equipe de dançarinos que se contorcem e desafiam a gravidade com a mesma facilidade. Apesar das frequentes reclamações quanto ao setlist que pouco prioriza os clássicos e deixa de lado as músicas ‘que levantam o público para cantar junto’ (como Music, Holiday, Into the Groove ou La Isla Bonita), a MDNA aposta nas tecnologias de ponta e rende algumas das performances mais impactantes da carreira da loira, como a entrada ao som de Girl Gone Wild em uma catedral gótica ou Vogue, em que os dançarinos fazem um verdadeiro desfile de moda. Nessa jornada ‘das trevas para a luz’, nas palavras da própria cantora, MDNA é eficiente em criar muitas imagens memoráveis, reinventar hits e demonstrar que no palco Madonna consegue se manter como uma referência e ícone indiscutível. 

10 de março de 2015

Crítica - Madonna expõem dilemas com 'Rebel Heart'

Poucas artistas tiveram tantos ‘retornos’ e recomeços como Madonna. Dentro da proposta de se reinventar a cada trabalho, a cantora soube como poucos usar as saídas estratégicas para manter-se constantemente sendo ‘redescoberta’ pelo grande público e a mídia. Se hoje ela já poderia desfrutar soberana em um almejado (e disputado) trono do pop, Madonna parece genuinamente interessada em, mais uma vez, descer do Olimpo e provar que não é reverenciada como ícone pop há três décadas apenas por legado. A cantora quer provar que ainda consegue ser a mulher que desperta o interesse do público, fazendo aquilo que melhor sabe: ser controversa. É com o objetivo de recomeçar (mais uma vez), que Madonna apresenta seu décimo terceiro trabalho em mais trinta anos de carreira: Rebel Heart.

Depois da recepção morna ao último trabalho, MDNA (2012), que foi realizado entre a filmagem do filme W.E e o lançamento de uma linha de roupas (o que gerou protesto até do produtor William Orbit), Madonna pareceu bem mais focada na produção do álbum sucessor e chamou um verdadeiro ‘time’ de talentos em busca de uma nova sonoridade. Depois de quase um ano no estúdio, que resultaram as famosas ‘80 demos’, temos colaborações de artistas e produtores consagrados, como Avicci, Diplo, Alicia Keys, Kayne West, Pharrell Williams, Nicki Minaj (na sua terceira colaboração com Madonna) e o rapper Nas. Das novatas, Natalia Kills conseguiu deixar o som da veterana mais obscuro, enquanto a ‘amiga’ Miley Cyrus ajudou na composição de Wash Over Me. No meio de tantos nomes, até o ex-boxeador Mike Tyson conseguiu participar de uma das faixas (!?).

O álbum já se tornou um marco na carreira da artista por ser o trabalho que mais tempo levou para ser produzido (cerca de nove meses) e ter a divulgação atrapalhada pelos constantes vazamento de materiais ilegais. Em novembro, enquanto o álbum ainda era finalizado, Madonna teve o primeiro baque com a liberação de duas faixas, que seriam só o começo de outros vazamentos, terminando em cerca de 30 canções divulgadas de forma ilegal. Quase um mês antes do lançamento oficial, o álbum já finalizado caiu na internet, quebrando de vez a surpresa dos ajustes. Depois de esbravejar nas redes sociais, Madonna tentou reverter os vazamentos disponibilizando seis faixas do trabalho para venda digital, quase como EP de antecipação, mas é inegável que Rebel Heart chega já prejudicado e sem grandes surpresas.

Bastaram as seis músicas disponibilizadas no iTunes para a crítica eleger Rebel Heart como o melhor álbum de Madonna desde o sucesso de Confessions on a Dancefloor (2005). Ouvindo o trabalho completo, não é difícil analisar que ele se encontra à frente de Hard Candy (2008), em que a cantora tentava seguir a ‘onda’ do hip-hop ou do próprio MDNA (2012), que oscilava entre canções ‘maduras’ sobre o divórcio (como as queridinhas dos fãs, Gang Bang e Love Spent) e outras músicas genéricas e impessoais, em que a cantora tentava emplacar uma imagem juvenil (Some Girls, Superstar). Longe de serem os lixos descartáveis que os delatores tentam pintar, os últimos projetos de Madonna pecavam justamente por não conseguirem marcar uma sonoridade e imagem para cada era, servindo de base apenas para a divulgação da turnê, real foco da cantora na última década.


Rebel Heart acerta justamente no ponto fraco dos últimos trabalhos ao manter uma unidade sonora, como um álbum consistente, o que deve ter sido complicado visto a quantidade de pessoas que trabalharam no projeto e a duração da produção. Dessa forma, é possível encontrar no trabalho o lado ‘rebelde’ da artista, aquele que aos cinquenta anos ainda deseja festejar, falar de sexo e curtir os sabores da fama, ao lado da parcela mais ‘romântica’, recheada de baladas sobre desilusões amorosas, vulnerabilidade e superação pessoal. Como um álbum de contrates, definido pela própria cantora como o encontro da antiga Madonna com uma nova Madonna, há espaços para reflexões pessoais, sendo o trabalho mais autobiográfico de Madonna desde do belo American Life (2003) e relembrando em alguns momentos a sonoridade refinada e obscura do subestimado Erotica (1993).  

As primeiras faixas estão entre as melhores do álbum, com o primeiro single Living for Love, seguido de Devil Pray (sobre uma tenebrosa relação com as drogas) e as mais agitadas do projeto: com pegada reggae, Unapolegic Bitch se torna um novo hino pessoal de Madonna ao decretar-se uma ‘vadia sem remorso’, enquanto Bitch I’m Madonna poderia soar como o cúmulo do egocentrismo, mas não passa de uma divertida brincadeira pop com pitada de Nicki Minaj, ideal para lotar as baladas com coreografias. Iluminatti aproveita os boatos da ‘sociedade secreta’ que dominaria os rumos mundais e rende uma das melhores músicas do álbum, com produção luxuosa de Kayne West e tratando do assunto com ironia, combinando o nome das celebridades que supostamente fazem parte desse grupo secreto.


O restante das músicas oscilam entre baladas românticas, área que Madonna andava um tanto afastada, como Joan D’Ark (que fala sobre vulnerabilidade, algo raro quando falamos da loira) e as dramáticas Heartbreak City e Ghosttown (que provavelmente será o próximo single), enquanto outras canções abordam o lado ‘rebelde’ da artista, como S.E.X, Best Night e Holly Water, que convocam as mulheres para falarem abertamente sobre sexo, posições sexuais e a liberação da ideia de pecado. A própria voz de Madonna ajuda a separar essas temáticas, aparecendo mais calma e suave nas músicas românticas, enquanto nas mais sensuais há sussurros e um tom mais grave, utilizado na época de Like a Prayer e Erotica.

Em Rebel Heart, há também reflexões sobre a própria carreira, como em Iconic, que contém uma mensagem que é pura Madonna, sobre não desistir e manter um discurso contestador. Veni Vidi Vici é outra faixa autoreferente, que rima os nomes e trechos de outros sucessos de Madonna para fazer uma recapitulação da carreira, enquanto a faixa homônima, Rebel Heart, relembra o começo da carreira e a tentativa de ser provocante para chamar atenção, mesmo com a desaprovação do pai. Apontando para um futuro musical, Body Shop, uma das menos querida pelos fãs, é uma daquelas faixas em que a cantora testa novas sonoridades, misturando o ritmo oriental com uma letra metafórica sobre ser ‘arrumada’ em uma oficina corporal. Já Inside Out é um daqueles momentos em que a boa produção encontra uma letra interessante que coloca o amor completo, que incluí defeitos, imperfeições e cicatrizes. Uma posição madura, que nada lembra o som dance que Madonna tentou emplacar nos últimos anos e pode ser um bom indicio do que poderemos ouvir num futuro musical da veterana.


Completamente retrabalhada e agora pouco lembrando a demo focada em baladas, Wash Over Me ganha maior profundidade, sendo uma das faixas que mais expõem os dilemas atuais da artista, que canta ‘Quem sou eu para decidir o que deve ser feito?’ e prefere deixar ‘a chuva cair sobre mim’. É Madonna se colocando como uma ‘estranha’ no cenário atual, vivendo em um mundo contraditório em que ela deseja ainda ser relevante. Comparando com as músicas vazadas ou rejeitadas, é curioso observar que Madonna acabou cortando as canções mais sociais (Freedon, Revolution) para optar pelas dúvidas e contradições de seu ‘coração rebelde’. 

Longe de ser um Confessions 2.0, como muitos fãs esperam há anos, Rebel Heart dá um tempo nas canções-dance-escapista de Madonna e soa mais maduro e até mais calmo que últimos trabalhos da artista. Querendo provar que ainda pode se reinventar e se reapresentar para uma nova geração de fãs, Rebel Heart pode não se tornar um sucesso comercial já que não tem apelo radiofônico, mas prova que Madonna ainda está interessada em produzir, dialogar e criticar convenções. Em um sociedade que ainda boicota as músicas dela pela questão da idade, faz piadinhas com sua queda ou que a critica por simplesmente ser sensual com mais de 50 anos, ainda será necessário que Madonna quebre muitas barreiras antes de poder sentar-se confortavelmente no trono e apenas observar seu legado inegável dentro da cultura pop.


Obs: Lançado em três versões diferentes, caso não seja tão fã da cantora, pode escolher a versão Deluxe, com 19 faixas e as melhores músicas dessa nova fase. Aproveite!



18 de fevereiro de 2015

Megapost: Entendendo Living For Love de Madonna


A crítica foi praticamente unânime em apontar ‘Living for Love’, produção dirigida por Julien Choquart e Camille Hirigoyen como o mais influente clipe de Madonna desde que a Rainha do Pop desfilou seu collant roxo em Hung Up e iniciou a onda do revival dance-disco-setentista. A cantora andava mesmo um tanto desleixada com as produções de videoclipes, área em que foi referência por anos e rendeu pérolas como Like a Prayer, Frozen, Bedtime Story, superproduções como Express Yourself, Die Another Day, além dos polêmicos e censurados Justify My Love e Erotica. Se na última era, Give me All Your Luving foi uma divertida crítica ao cenário pop atual, Girl Gone Wild e Turn Up the Radio passaram quase desapercebidas do grande público e não conseguiram marcar a identidade visual do álbum MDNA.  

Aparentemente uma produção simples, Living For Love acerta onde algumas das criações recentes de Madonna pecaram, criando imagens fortes, personagem marcante, além da referência ao passado da artista, ao mesmo tempo em que aponta para a vontade da cantora em dialogar com um novo público. O próprio lançamento do vídeo, o primeiro videoclipe lançado mundialmente pelo aplicativo Snapchat, já indica como Madonna está de olho em novos meios de divulgar seu nome para futuras gerações, especialmente os mais jovens que talvez ainda associem Madonna como a ‘rival de Lady Gaga’ e ainda não tiveram contato com o trabalho dela. 

Como todo lançamento de Madonna, mesmo um clipe aparentemente simples, revela significados e referências a outros trabalhos da artista, homenagens e marca uma mensagem de superação, como diz a letra da canção.

A LETRA


Living for Love foi definida pela própria Madonna como uma canção sobre triunfar logo após ter o coração partido, uma mensagem de superação. Não há espaço para martírios românticos ou vítimas: no novo single, Madonna adota uma postura de esperança quando as coisas não parecem tão bem e aposta no amor como o elemento motivador das grandes mudanças.

First you love me and I let you in
Made me feel like I was born again
You empowered me, you made me strong
Built me up and I can do no wrong
I let down my guard, I fell into your arms
Forgot who I was, I didn't hear the alarms
Now I'm down on my knees, alone in the dark
I was blind to your game
You fired a shot in my heart

No começo da música, Madonna descreve como deixou-se enganar por um relacionamento aparentemente perfeito, deixando de lado os próprios gostos e dependendo do outro para fortalecê-la, motivá-la. Com o rompimento dessa realidade, ela percebe que estava ‘cega para o jogo’ e agora terá que enfrentar sozinha o fim dessa relação e encontrar a automotivação para seguir em frente.  

Took me to heaven and let me fall down
Now that it's over
I'm gonna carry on
Lifted me up, and watched me stumble
After the heartache, I'm gonna carry on
Living for love
Living for love
I'm not giving up
I'm gonna carry on

No lugar de lamentar esse término ou se colocar como a vítima da situação, o refrão da canção revela a mensagem de superação, ao colocar o amor (próprio) como elemento motivador para não desistir e superar as adversidades. O amor que antes era dedicado para o outro, volta-se para si, sendo um elemento de mudança. 

I could get  caught up in bitterness
But I'm not dwelling on this crazy mess
I found freedom in the ugly truth
I deserve the best and it's not you
You broke my heart, but you can't bring me down
I was falling apart, what was lost, now I'm found
I picked up my crown, put it back on my head
I can forgive, but I will never forget

Já superado o fim desse relacionamento, há a libertação e a convicção de que ela merece 'o melhor', diferente da relação fracassada que estava vivendo. Encontrando a liberdade na 'feia verdade' e já fortalecida, ela não se deixa mais abalar por essa história, recolocando 'coroa em sua cabeça', encarando o problema de frente. Apesar de parecer uma história superada, há uma promessa: apesar de perdoar, ela ainda não é capaz de esquecer, aprendendo com essa situação.

As Touradas


Semanas antes do lançamento do clipe, quando ainda não havia a confirmação da temática, a cantora postou uma foto de toureiro em a conta do Instagram, com elogios a pose ‘sexy’ da imagem. Minutos depois, a enxurrada de críticas diziam que as touradas incentivavam a matança do touro por entretenimento e mesmo com a cantora tentando justificar que admirava a pose e figurino na foto, ela acabou deletando a imagem para não gerar ainda mais polêmica ou ter que ficar que justificando as postagens. 

Polêmicas, as touradas fazem parte da cultura espanhola e são recheadas de simbolismo, rituais e etapas. A tradicional imagem do homem duelando contra o touro com uma capa vermelha é apenas uma parte do espetáculo, que envolve riscos para todos os participantes. Nesse duelo tão próximo com o animal, os dribles com a capa servem justamente para o toureiro conseguir avaliar o porte, velocidade e força do touro, para decidir o momento ideal para desferir o golpe. A tourada espanhola, diferente de outras versões em países Latinos, termina com o animal morto, de preferência com uma morte rápida e com um golpe calculado. Se o toureiro der o golpe certeiro, o animal não permanecerá por mais alguns minutos vivos e será ovacionado pelo público presente. 

Além da polêmica dessa tradição aparentemente cruel, o meio ainda é dominado pelos homens, apesar de existirem mulheres que encarem uma arena. As reais toureiras ainda lidam com o preconceito de participarem de um ambiente predominante masculino e têm que viver de maneira centrada para serem bem-sucedidas e encarem os perigos da prática, como retratado em ‘Fale com Ela’, do diretor Almodóvar em que a personagem toureira é atropelada por um touro e entra em estado vegetativo.

Entre os significados que alguns adotam das touradas, está a luta entre o homem e o animal, a razão sobre o instinto e até o feminino contra o masculino. 

Madonna e os toureiros


Não é a primeira vez que Madonna se aproxima do universo das touradas: em 1994, com o belíssimo clipe de Take a Bow (que fez com que ela ganhasse o papel título em Evita), ela interpretava uma mulher apaixonada pelo toureiro, quase obcecada pela imagem viril que ele representa. Depois de finalmente seduzi-lo, ela era abandonada e terminava o vídeo sozinha, encarando que tinha sido usada pelo homem que tanto venerou. O clipe tornou-se uma referência na videografia da cantora, na época no auge da beleza e rendeu uma das baladas de maior sucesso da carreira, permanecendo no topo das paradas por semanas. 



O sucesso de Take a Bow fez com a cantora repetisse a dose e fizesse a primeira continuação de videoclipe da carreira com a balada You’ll See. Dessa vez, entretanto, a situação era inversa: o toureiro arrependido segue Madonna para pedir perdão, mas a cantora está decida em deixá-lo, viajando para longe. Na letra, ela insiste em que não perderá a fé no amor e irá encontrar forças para superar essa desilusão, sozinha. Quase em tom de ameaça, a faixa termina dizendo 'eu não preciso de ninguém dessa vez - você verá'. 


O Clipe

Décadas depois de deixar o toureiro no clipe de You'll See, é Madonna agora quem assume o papel de domadora. Se em Take a Bow e You'll See as touradas eram um ambiente viril e sedutor, dessa vez ela surge como um dramático palco de lutas, com status de libertação. Se no clipe clássico de 1994 ela se arrumava para seduzir o toureiro, dessa vez ela se apronta para a luta.


Com belos e detalhados figurinos criado sob coordenação de B. Åkerlund com a estilista alemã Verena Dietzel, conhecida por peças burlescas, Madonna surge sozinha no palco que simula uma arena de tourada cercada com cortinas vermelhas, treinado para a luta (espetáculo) que está para começar. Se antes ela sofreu de amor e prometeu que iria superar, em Living For Love ela retoma a mensagem de superação e força, dessa vez encarando de frente os 'minotauros' que adquirem o significado dos problemas passados, relacionamentos fracassados e até ex-amantes. 





Já fortalecida e confiante, acreditando no amor próprio como defesa, a cantora adota uma postura provocativa, encarando os minotauros e fazendo com que, um a um, eles a enfrentem e sejam domados na arena. Ao encarar os problemas 'de frente', ela prova que está além dessas adversidades e logo faz com que os minotauros sigam seu comando, seu ritmo, como se tomasse as rédeas da situação.






Depois de dominar seus problemas, Madonna aparece rapidamente com uma máscara de diamantes parecida com as dos minotauros, que por sua vez revelam seus rostos. Se antes eles eram intocáveis seres místicos, agora eles não passam de homens comuns. Abandonando o figurino de toureira, Madonna ressurge mais feminina, solta e vibrante, como se depois de controlar seus medos a cantora se libertasse e estivesse pronta para uma nova fase. Um dos minotauros até tenta seduzi-la (uma reconciliação?), mas logo é repelido pela cantora, que é elevada pelos seres como a vencedora da Arena. 




Como na tradição espanhola, os minotauros são mortos e Madonna surge vitoriosa no fim, sendo ovacionada pela platéia que acompanhava o espetáculo. Encarando os medos e acreditando no amor como o motivador de grandes mudanças (como diz a letra), o clipe traz elementos da carreira da artista e faz referência as coreografias e palco de Maurice Bejart, além de pequenas polêmicas como o incentivo as touradas ou aqueles que preferem acreditar que Madonna está enfrentando 'demônios' no clipe. Com uma produção aparentemente simples, mas repletas de detalhes, Living For Love marca o começo da era 'Rebel Heart' e prova que Madonna ainda está interessada em permanecer no imaginário popular com imagens impactantes e, como diz na canção: não irá desistir!    



10 de dezembro de 2012

Crítica - MDNA tour/Madonna (São Paulo 04/12/2012)



Em 2008 houve uma comoção para ver Madonna no Brasil: a venda de ingressos foi um tumulto, a chegada da estrela foi A sensação da mídia e a cantora ainda engatou o namoro com Jesus Luz, para delírio dos sites sensacionalistas. Para muitos, aquela seria, talvez, a única oportunidade de assistir a lenda do pop ao vivo, com a recordista e colorida turnê Stick & Sweet. Quatro anos depois, Madonna volta à São Paulo, com sua MDNA Tour, divulgando o novo álbum de inéditas homônimo. Se por um lado há menos histeria, por outro, a artista compensou seus súditos na terça-feira (4/12) com um show ainda mais teatral e que questiona os limites entre música, arte visual e cinema, transformando tudo em um verdadeiro musical impactante.

A Madonna que se apresentou em São Paulo dessa vez era bem diferente de 2008, assim como o show pouco lembrava as cores, puladas de corda e danças animadas da turnê anterior. Há mais trevas do que luz na nova turnê da loira, que revela-se uma releitura (potencializada) de vários momentos marcantes de Madonna no palco, com uma roupagem moderna e tão espetacular que ainda destaca-se e soa original. Se há quem critique as músicas e os novos álbuns de Madonna, no palco qualquer crítica pode ser questionada. Ela nunca foi uma brilhante dançarina, nem canta impecavelmente (em alguns momentos, prefere dublar os refrões para não desafinar), mas no quesito de performance e domínio de palco, ainda não há ninguém como ela. Você pode nem conhecer as músicas que tocaram, mas ficará com as imagens delas grudadas em sua mente: a bandida sexy do começo, a baliza que celebra a juventude e a musa da moda que posa para lentes imaginárias enquanto canta seu hino Vogue.

Madonna ensaiando no Morumbi
O diferencial da artista, entretanto, não é apenas o cuidado quase obsessivo com que cuida de seus shows, nem da tecnologia de última geração que permeia todo o espetáculo. Além de toda estrutura e recursos, há uma mensagem forte em cada um dos blocos. Nada está no palco para ser apenas um enfeite ou perfumaria, mas ajuda a contar uma história. Os gigantescos telões não servem apenas para transmissão de imagens coloridas ou frases, como em outros shows, mas são indispensáveis para criar um cenário e até reflexões que expandem o conceito das próprias músicas. Madonna é mestre na arte de casar músicas com imagens impactantes e aposta nessa combinação em grande parte do show. Nesse contexto, até o setlist é importante para ajudar a entender a jornada que Madonna propõe com MDNA. Se por lado ela abriu mão de clássicos-agita-estádio como Music, La Isla Bonita, Boderline ou Ray of Light, por outro ela conseguiu recuperar clássicos que andavam esquecidos em seu repertório, como Open Your Heart, Justify My Love e Papa Don’t Preach, além de apresentar músicas que nem foram singles ou grandes sucessos comerciais como Candy Shop, Nobody Knows Me e Human Nature. Uma ousadia que alguns artistas veteranos não teriam coragem.

O ensaio já mostrou um pouco do que veríamos. Pouco depois das 22h, a nave de uma igreja gótica é projetada, monges entoam um cântico gregoriano enquanto as gárgulas se posicionam no palco. Trovões, raios e a resposta do público. A evocação tem seu objetivo concretizado e surge um oratório carregando uma figura que reza nas sombras pela redenção dos pecados. Se na turnê anterior Madonna surgia como uma rainha devassa em seu trono estilizado, agora ela está interessada em algo ainda maior: ser um objeto de adoração, uma santa com manto e coroa, pronta para ser reverenciada. Não demora muito para ela se livrar desse “disfarce” e nos apresentar o primeiro personagem da noite: a assassina de preto, inspirada no filme Faster, Pussycat Kill Kill!, clássico trash referência de Tarantino. Os monges também retiram o manto e Girl Gone Wild é apresentada de maneira épica, com uma coreografia de tirar o fôlego na igreja em chamas e a comoção do público em perceber que o mito de Madonna é real e está ali, tão perto e tão longe, dentro de sua própria fantasia. O clima desse começo é pesado, com a sequência Revolver, música pouco conhecida da coletânia Celebration. O grupo de bandidas deixa a cantora sozinha no palco, para o auge da teatralidade e um dos momentos mais divertidos do show: Gang Bang, encenada em um cenário fuleiro de um quarto de motel. Em uma coreografia que simula lutas e assassinatos, Madonna ri enquanto canta “agora estamos no caminho do inferno e eu tenho muitos amigos por lá” e o sangue escorre no telão. Se nos filmes a Madonna atriz sempre foi um fracasso, nos palcos e clipes a cantora parece convincente nos papeis que interpreta, nesse caso, algum filme B.

Os primeiros trechos do sucesso Papa Don’t Preach são cantados e o público tem seu primeiro momento de comoção e não só de impacto. Mas, nessa turnê, a música não é mais uma queixa da menina grávida que enfrenta o pai, mas um pedido de ajuda, um clamor por perdão. Carregada por mascarados, Madonna atravessa as labaredas do inferno, se equilibrando no skaylaider enquanto Hung Up é tocada em uma versão bem diferente: time goes by, so slowly quando se equilibra para não cair. A cantora consegue superar essa provação e está novamente na igreja do começo do show, onde canta I Don’t Give A sozinha com guitarra, acompanhada pela freira Nicki Minaj nos telões. Quando a rapper avisa que só existe uma rainha, o público aplaude, enquanto Madonna é elevada por uma plataforma até a cruz de sangue. A mensagem é clara: apesar dos pecados e provações, Madonna conseguiu atingir seu objetivo e ascende aos céus, sendo reverenciada como Rainha. O primeiro interlúdio é com Best Friend, música que lamenta o fim do casamento com o diretor Guy Ritchie, expurgando de vez a frustração pelo fim do relacionamento.

Madonna celebra a juventude e música pop no segundo bloco
O segundo bloco tem início: o público ainda está com as imagens de sangue, cruzes e armas do segmento anterior na cabeça, quando as cores invadem o show, no momento mais animado da turnê. No mundo de Madonnna, entretanto, nem mesmo a diversão é inocente: no meio de tantas cores, a Rainha do Pop alfineta as novatas. Muitos nem percebem que enquanto a cantora, vestida de baliza de fanfarra (e não de líder de torcida como alguns jornais colocam), dança e canta, nos telões são exibidos ‘monstrinhos’ que comem enlatados com a imagem de Madonna. A crítica fica ainda mais evidente quando Madonna começa os versos de Born This Way mesclados com Express Yourself e prova que as músicas, realmente, são muito parecidas. A avaliação da veterana vem com uma frase de reprovação: “She’s not Me”, repete. A lavação de roupa suja continua com a próxima música, a deliciosa Give Me All Your LUV, primeiro single de MDNA e que continha uma crítica velada à música pop atual. Esse é um dos momentos mais incríveis, animados e impecáveis do show, com Minaj e M.I.A nos telões, líderes de torcida e bateristas flutuando sobre a platéia. O momento ‘auto-celebração” continua e temos uma pequena introdução com vários sucessos de Madonna que bombaram nas rádios, até que Turn Up the Radio começa em uma performance um tanto parada, mas que a cantora torna empolgante com muito esforço. Nesse momento, atingir as notas mais altas torna-se complicado e Madonna prefere desafinar que perder a empolgação. O momento acústico começa com Open Your Heart completamente transformada, de pop pegajoso à dança tribal com o trio Kalakan. Importante lembrar como Madonna sempre cedeu espaço em seu palco para novidades como Gogol Bordello, LMFAO, M.I.A, a trupe cigana da turnê anterior e até PSY, que demonstra sua vontade em dialogar com as novidades da música, principalmente do segmento ‘não-pop’. Com uma performance bonita, um arranjo mais latino e bons vocais, a vencedora do Globo de Ouro de Melhor Canção, Masterpiece, encerra o bloco.

Uma risada rompe a noite paulistana, nos telões, Madonna encarna seu sonho erótico em ‘tons de cinza’ enquanto foge de mascarados ao som de sua polêmica Justify My Love. Com inspiração no cinema clássico, o interlúdio marca a temática do próximo bloco: a celebração da moda, sexualidade, androgenia e liberdade de expressão. Vogue retorna às origens com o desfile de moda, flashes, coreografia com muitas poses e uma releitura do icônico sutiã cônico que Gaultier fez para ela na escandalosa Blond Ambition. Madonna paga a cafetina e entra no bordel decadente onde Candy Shop aparece em uma versão remodelada, misturada com Erotica. A platéia, que possivelmente nem reconheceu a música, só se anima nos momentos em que a cantora dança com o namorado, na parte mais sensual do show. A próxima música não poderia ser melhor que o “hino pessoal” de Madonna, Human Nature, que a cantora fez para rebater as críticas na época em que tirar roupas no palco era algo incomum. Entre espelhos, Madonna faz seu strip calculado, arrancando gritos da platéia a cada peça de roupa que cai. “Não me arrependo, é a natureza humana”, ela repete como se tentasse explicar a bela lingerie que está vestindo e o corpo ainda firme que exibe. Sabendo o quanto é bela e dona do palco, Madonna vira e sua bunda aparece em um close no telão. A plateia parece surpresa quando ela sai de cena sem cantar Like a Virgin, um dos momentos mais esperados do show. No palco, o video do último bloco começa antes que alguém questione a falta da canção mais famosa de Madonna.

A festa de encerramento com Celebration
No lugar de outras cantoras que fazem discursos demorados sobre preconceito e autoaceitação, Madonna prefere protestar por imagens. Nobody Knows Me, música do polêmico American Life, é exibido nos telões no “video-protesto” dessa turnê e nos lembra uma aparente contradição: muitos falam de preconceito, mas se esquecem que a própria Madonna sofre críticas pela idade. O clima pesado começa a mudar com os primeiros acordes de I’m Addicted, uma das melhores músicas do último álbum, que ao vivo ganha ainda mais força, apesar da performance um tanto confusa com Joana D’ark, artes marciais e meditação. Destaque para a iluminação, que deixa claro que poucas cantoras atualmente teriam um palco e equipamentos dessa magnititude. I'm a Sinner, entoa Madonna enquanto somos levados em uma viagem de trem pela Índia e todo o misticismo. O efeito visual nessa música é incrível e o palco da cantora parece um transformer, com diversas saídas, plataformas e telões. No fim, um mashup com Cyberaga (novamente com o trio Kalakan, que conseguem ter uma participação efetiva ao longo do show), anúncia o objetivo desse bloco: a elevação e encontro com a espiritualidade. Like a Prayer, hino máximo de Madonna, vira um coro gospel com todos os fãs cantando juntos. Lá está Madonna, cantando sua oração profana e se transformando, ela mesma, no objeto de adoração capaz de gerar uma catarse coletiva. O estádio está tão harmonia que não percebe que estamos na reta final do espetáculo (já??). Restam apenas as formas geométricas que parecem saídas de Tron. A cantora volta, pela última vez, com a apresentação do remix de Give it 2Me e Celebration em uma versão poderosa e animada, que fará o público sair do espetáculo convencido de que tudo foi uma grande festa, uma celebração da música pop e que, infelizmente, Madonna ainda consegue ser melhor no palco que qualquer outro artista da música pop atual. Ela parece realmente feliz nesse finalzinho, cantando e dançando sem se preocupar tanto com a atuação ou com os olhares de superioridade que mantém por todo espetáculo. Nesse hora, ela é a mulher sem idade, se divertindo e curtindo o momento, sem se preocupar com as críticas ou mesmo com a técnica. Celebration chega ao fim e Madonna se despede, feliz.

Para quem foi esperando ver Madonna cantar Holiday com roupas dos anos 80, o show pode ter sido uma grande decepção. A nova turnê de Madonna não tem o objetivo de fazer dançar ou cantar, mas ser impactado, seja pelos incríveis vídeos, as coreografias que desafiam a gravidade ou a própria Madonna, que consegue estar mais bonita e interessante que há quatro anos atrás. Agora resta a dúvida quais serão os próximos passos da veterana, o que ela está planejando para os próximos álbuns e turnês já que ainda estamos acostumados a esperar o melhor dela. Se seguir a cartilha de MDNA, podemos esperar shows cada vez mais teatrais e que demonstram que só há uma Rainha.


13 de agosto de 2012

Madonna - 54 Anos


Muito já foi falado, debatido...até mesmo aqui no blog.

Para não cansar ou repetir, quero só deixar registrado meu “parabéns” para essa mulher que continua relevante e trabalhando para conseguir um mundo mais livre, onde exista liberdade de opinião, religião e sexualidade. Muitos questionam se já não estava na hora de Madonna curtir a aposentadoria como ícone máximo do pop, aparecendo só em shows ocasionais, mas a verdade é que ainda precisamos dela, nem que seja para quebrar a última barreira do pop: o preconceito com a idade.

Para quem questiona a habilidade de Madonna em continuar na mídia, pesquise o nome dela e verá que só na etapa européia dessa turnê, tivemos polêmicas com mamilos em Human Nature, o choro emocionado em Like a Virgin, Elton John falando mal dela, polêmica com Born This Way, problemas com o partido de extrema direita francês, show em Paris vaiado por simpatizantes de Marine Le Pen e uma Rússia  em comoção com a suposta prisão da cantora depois de protestar contra a lei-anti gay e defender publicamente o grupo punk Pussy Riot, que está preso aguardando julgamento.

Nesse mesmo período, o que as outras cantoras andaram fazendo? 

Madonna chega aos 54 anos provando que pode não ser a melhor cantora, dançarina, compositora e nem a mais perfeita das celebridades, mas que ainda consegue gerar reações intensas e debates, como sempre quis.

L-U-V MADONNA!