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29 de junho de 2017

Por que gongar Katy Perry se tornou pop?


Você pode até não gostar dos videoclipes coloridos e dos refrões grudentos, mas é inegável que Katy Perry era uma hitmaker digna de figurar no Olimpo do Pop atual. A cantora acumulava sucessos nas paradas, visualizações no Youtube, mobiliza uma legião de fãs, os katycats, e ainda mantém o feito de ser a celebridade mais seguida no Twitter, com 100 milhões de fãs. Com o lançamento de Witness, porém, a invencibilidade da cantora pareceu sofrer pela primeira vez um certo descaso por parte da mídia e do público em geral, com os haters já anunciando precocemente o primeiro grande fracasso na carreira. Gongar Katy se tornou pop, mesmo que sem um motivo real.


De Pin-Up moderna à testemunha da geração: 

Pode até parecer um passado distante, mas em 2008 Katy Perry surgia na mídia como uma mistura de pin-up moderna com uma boa dose de humor que cantava sobre namorados metrossexuais, homens indecisos, desejos por outras mulheres e noites de bebedeira em Las Vegas. Não demorou para Madonna apontar a artista como uma das queridinhas do momento, posto que ocupa até hoje. A consagração como diva pop definitiva, porém, viria com o segundo trabalho, o bem sucedido Teenage Dream (2010) que conquistou o mérito de ser ter cinco singles no topo das paradas, marca anteriormente só atingida por Michael Jackson.

O aguardado próximo passo da artista veio com Prism (2013), que se afastava um pouco da estética pin-up para seguir o lado mais pop e colorido, mas sem quebrar os padrões dos trabalhos anteriores. Apesar de não ter o mesmo recorde nas paradas, Prism ainda conseguiu emplacar dois grandes hits, Roar e Dark Horse, com o feito do clipe bater o 1 bilhão de visualizações do Youtube. Ao mesmo tempo que seguia popular, entretanto, era inegável que a estética divertida da cantora precisa ser reciclada se quisesse evoluir artisticamente.

É curioso, portanto, que no momento que Katy assumiu o risco de explorar um novo visual e sonoridades parte dos fãs não compreendam essa nova abordagem e fiquem tão presos aos momentos anteriores. É a primeira vez que a cantora se despe da personagem, já que apesar de não se fantasiar explicitamente como Lady Gaga no começo da carreira, Katy com seu visual pin-up, roupas coloridas e acessórios espalhafatosos era também uma construção, uma máscara de escapismo pop. Não à toa Katy contou durante a divulgação que o cabelo loiro da nova fase é uma tentativa de se afastar da imagem áurea de Katy Perry e retomar a aparência que mantinha antes da fama mundial, quando ainda era conhecida como Katy Hudson.

Enquanto cantoras como Lady Gaga, Rihanna e Beyoncé foram recentemente celebradas justamente por apostarem em trabalhos mais pessoais e 'conceituais', longe de fórmulas comerciais e de personagens sensuais, Katy parece sofrer uma desconfiança, como se a questão de vendagem ainda fosse mais importante no fim das contas.

Witness é um flop? 

Apesar de já ser associado como um novo Bionic da geração, no geral, Witness conseguiu uma boa vendagem na primeira semana de lançamento e quebrou a marca de videoclipe mais visualizado no Youtube no primeiro dia de lançamento com os 14 milhões de acessos de Bon Appetit. Mesmo assim, para os haters o sinal de fracasso é evidente já que pela primeira vez o carro-chefe da cantora, Chained to the Rhythm não atingiu o topo das paradas, mesmo com a boa divulgação. Para quem já acredita no fim da carreira da cantora, porém, há ainda uma turnê mundial já marcada para começar em setembro, a Witness Tour, com etapas americanas e européia confirmadas, o que servirá de divulgação e consolidação dessa era como uma mudança passageira ou um novo posicionamento artístico real.
Retornando ao visual do começo da carreira
Quanto a questão musical, Witness não abandona os hits dançantes escapistas, como Bon Appetit, mas expõem questões mais pessoais, como a decepção com a própria geração alienada (Chained to the Rhythm), a famosa briga com Taylor Swift, o posicionamento como uma mulher madura e momentos românticos como a procura por uma 'testemunha' para fazer a vida valer. Sem pretensão de revolucionar ou ditar novos padrões na música, Witness ganha pontos justamente por não tentar simular os sucessos passados e mostrar uma evolução real de Katy Perry. Pode não ser uma obra-prima definitiva, mas indica que a cantora está livre para testar novos timbres, novas temáticas e possibilidades. O que não deixa de ser mais interessante do que lançar um Teenage Dream Parte II, como clamam alguns fãs.

Se a era Witness será marcada como um primeiro grande fracasso de Katy ou um amadurecimento necessário para os próximos trabalhos, ainda não há como afirmar. Por hora, só podemos testemunhar esse novo passo da cantora.

6 de março de 2016

Do fracasso de ArtPop ao sucesso no Oscar - como Lady Gaga alterou a imagem


A mídia e os fãs de pop adoram um renascimento. Ainda mais saboroso que acompanhar o declínio de grandes astros e ver quando eles tentam um novo posicionamento e pedem uma segunda chance para entreter as plateias globais. Esses recomeços marcam a história de quase todos os grandes nomes da música pop, como Justin Bieber que recentemente deixou a imagem de ‘garoto problema’ para cantar ‘Sorry’ e chorar no palco emocionado com a oportunidade de voltar a se apresentar em premiações. Como Lady Gaga criticou no seu vídeo Paparazzi de 2009, a ascensão, queda e ressurgimento de ícones pop é um ciclo comum na mídia. Utilizando ações e projetos estratégicos, a própria Gaga conseguiu uma segunda chance de se reposicionar no mercado musical, conquistando novos fãs e expandindo o nome para além do gueto pop que a transformou em um fenômeno na década passada. 

Por mais que os fãs batam na tecla de que o álbum seja bom ou tenha uma importância na carreira, é inegável que ArtPop resultou em uma era bagunçada, com mais promessas do que resultados concretos e uma queda de venda e popularidade nos padrões 'GAGA'. O que foi inicialmente anunciado como um álbum multimídia, com o lançamento de um aplicativo e até um possível disco duplo, por fim revelou-se um projeto com boas músicas pop, que pareciam fazer a ligação entre o pop descompromissado de The Fame com as canções de autoaceitação de Born This Way. Com evidentes problemas de planejamento e divulgação, inclusive com mudanças de membros da equipe e declarações de insatisfação da própria cantora, o que foi anunciado como uma revolução na carreira acabou passando quase desapercebido do público, com o cancelamento de clipes, singles com pouca divulgação e uma queda nas vendas: enquanto o antecessor quase bateu a marca de sete milhões de cópias, ArtPop não ultrapassou os dois milhões. Até mesmo a turnê ArtRAVE: The ArtPop Ball não foi estendida e conta com menor arrecadação que os shows anteriores da cantora. Só para comparação, no mesmo período Prism de Katy Perry vendeu mais de três milhões e meio de cópias e emplacou dois hits poderosos (Roar e Dark Horse), além de uma apresentação no Super Bowl e a turnê Prismatic.


Para diminuir essa imagem de decadência e evitar cair no ostracismo do Pop, a cantora atualizou sua equipe e investiu na construção de uma nova 'persona' artística, que culminaria na premiação da Billboard como 'Mulher do Ano' em 2015. Para conseguir essa façanha, Gaga deixou o pop de lado e abraçou a nova fase 'jazz'. Mal terminada a turnê ArtRave em novembro de 2014, Gaga já estava envolvida na divulgação do álbum Cheek to Cheek, parceria com Tony Bennett. Era o primeiro projeto musical no qual a cantora abandonaria a personagem extravagante e com discursos de aceitação para investir em uma imagem mais clássica e acessível para todos os estilos (e idades). Para isso, obviamente, ela não ousou em inovar e apostou em versões de canções clássicas, de Bang Bang, até I Won't Dance. e teve a figura icônica de Bennett como um 'padrinho', que atestava a qualidade do material e parecia garantir que possíveis críticas fossem apaziguadas. Com foco na voz e sem os dançarinos semi-nus que a cercavam, Gaga queria atrair novos fãs para os shows intimistas, que nada lembravam os littles monsters  fantasiados que lotam os shows da cantora no passado. O projeto garantiu boas vendas se considerado um projeto ‘paralelo’, uma turnê estendida e até ganhou um Grammy.

Para consolidar essa nova imagem, Gaga aproveitou a oportunidade de realizar uma apresentação no Oscar 2015, um tributo ao clássico A Noviça Rebelde, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 1966 e que completava 50 anos do lançamento. Com um treinamento vocal 'de dois meses', de acordo com a cantora, a elogiada apresentação de The Hills Are Alive serviu para demonstrar ao mundo interior essa nova fase, mesmo para aqueles que ainda não conhecessem o último projeto com Bennett ou a nova imagem elegante da cantora. O evento também marcaria a aproximação de Gaga com atores e produtores, o que ficaria ainda mais evidente com o teaser divulgado nos dias seguintes, com informações de um novo projeto da cantora.
 

Agora que apresentava uma nova faceta musical, a cantora explorava um novo desafio: Lady Gaga foi o primeiro nome confirmado no elenco da quinta temporada da série American Horror Story, antologia de terror criada por Ryan Murphy (de Glee e Scream Queens).  A ansiedade era grande, já que a anunciada saída de Jessica Lange, atriz que praticamente protagonizou as três temporadas, deixaria um grande buraco a ser preenchido e novidades seriam necessárias para atrair um novo público ao programa. Depois do teaser em preto e branco com a temática da temporada, poucos detalhes foram revelados até a estreia em setembro, em que tivemos a oportunidade de acompanhar Gaga como a protagonista da série no papel de uma excêntrica vampira, a 'Condessa', que vive em um hotel decadente e sinistro, uma trama claramente inspirada no clássico cult Fome de Viver. Apesar da queda de audiência ao longo da temporada, Gaga conquistou reconhecimento pela atuação, levando um Globo de Ouro e já está confirmada para próximos anos da série. Essa aproximação com as telonas não é novidade no meio musical e poderá render ainda mais oportunidades futuras, como tiveram Cher, Bette Midler e Barba Streisand.

Para fechar 2015, Gaga receberia o título de 'Mulher do Ano' pela revista Billboard, título que já foi de Taylor Swift, Beyoncé e Katy Perry em edições anteriores. Na entrevista, a cantora comentava da aproximação dos 30 anos, das exigências do mercado fonográfico atual e que não mais se preocupava em parecer uma pop star. Como resultado dessas ações, no começo de 2016 tivemos Gaga onipresente em todos os eventos e premiações possíveis, do Super Bowl com a execução do hino nacional, a premiação no Globo de Ouro, fazendo um tributo tecnológico ao Bowie no Grammy e a indicação de Til It Happens To You no Oscar, que levou ao palco vítimas de abusos sexuais, Em todos os eventos, do visual a postura, nada lembrava a Lady Gaga excêntrica e ousada de anos anteriores, mas um reforço dessa nova fase em que a cantora é associada com atitudes centradas e qualidade musical, uma nova Gaga 'para todas as idades'.

A 'nova' Gaga: longe do vestido de carne
Com ações estratégicas e projetos paralelos em quase dois anos, Gaga e sua equipe parecem ter deixado a mancha de ArtPop para trás, com um reposicionamento de imagem e estilo. A prova definitiva de se esse esforço valeu a pena será com o lançamento do aguardado quinto álbum da cantora, que está sendo produzido desde meados de 2015 com uma possível participação do produtor RedOne (responsável pelo sucesso Just Dance) e que ainda não tem uma data de lançamento definitiva. Para o público, será curioso ver como Gaga tentará conciliar essas duas novas personagens que se definiram nos últimos anos e se ela conseguirá agradar tanto os antigos fãs que adoravam os hits dançantes e a nova parcela que foi atraída pela associação com o jazz. Os próximos passos serão decisivos para a consolidação da carreira e, por enquanto, só resta torcer para que esses anos em projetos tão diversificados tenham servido como repertório e inspiração para novas mudanças e ousadias no próximo passo de Gaga!  

12 de setembro de 2015

5 Turnês Indispensáveis de Madonna


O título de Rainha do Pop e o trono que Madonna ocupa há mais de 30 anos de carreira está sempre sendo questionado, seja por aqueles que ainda dizem que ela não tem a melhor voz, os fãs das novas cantoras (que em sua maioria se apropriaram do legado da própria Material Girl), ou mesmo os fãs saudosistas da Madonna dos anos 80 ou das polêmicas da década de 90. Seja qual for o argumento, muitos deles caem por terra quando a senhora Ciccone começa uma nova turnê e prova que, definitivamente, o palco é o espaço em que seu talento e legado é inquestionável. Com o início de sua mais nova empreitada, a Rebel Heart Tour (que promete se tornar a turnê mais lucrativa de 2015-2016), Madonna deverá atrair novos admiradores e reconquistar muito dos antigos. 

Para você que justamente quer conhecer (ou relembrar) as turnês que tornaram Madonna o ícone de hoje, cinco shows te ajudarão a ver a diversidade, profissionalismo e dedicação da cantora nessa jornada rumo ao topo. 


Drowned World Tour (2001)

Frequentemente fora das listas das mais queridas dos fãs, a Drowned marca o retorno de Madonna aos palcos depois de um hiato de quase oito anos em decorrências da gravidez e projetos no cinema. Marcando o começo no uso de novas tecnologias no palco, para muitos o show é quase uma ‘anti-turnê’ de Madonna, com um setlist de poucos hits clássicos (com exceção das incríveis performances de La Isla Bonita e Holiday, que surge vigorosa) e blocos que passeiam por temas pesados, como violência urbana, artes marciais e submissão feminina. Na Drowned, Madonna se comporta mais como um rockstar do que uma diva pop purpurinada, com sobrancelhas descoloridas à Ziggy Stardust, incluindo performances com instrumentos (guitarra e violão) e sendo o único show em que ela não mostrou as belas pernas ou abusou das lingeries. Com impressionante teatralidade, Drowned é uma turnê escura, repleta de referências orientais e que marcaria os rumos das próximas empreitadas de Madonna. 


Blond Ambition (1990)

Praticamente um divisor na carreira da cantora e do próprio show business, a Blond Ambition em alguns momentos pode parecer um tanto ultrapassada com aquele charme brega dos anos 80, mas foi fundamental para criar a base que 90% das turnês atuais utilizam, ao aproximar a estrutura dos mega-espetáculos da música com a produção e figurinos dignos de espetáculos da Broadway. Foi a primeira grande turnê da cantora a utilizar cenários mega-produzidos, contar com figurinos criados por estilitas e aliar a polêmica e blasfêmia para se tornar capa de jornais do mundo inteiro. Com algumas das melhores coreografias e performances da carreira, a Blond transformaria Madonna em uma deusa da sensualidade, com os sutiãs cônicos explorados por Gaultier na polêmica simulação de masturbação em Like a Virgin ou na abertura em que a cantora domina os subalternos. Um marco da cultura pop, Blond ainda encanta com uma Madonna no auge da provocação. 


Confessions Tour (2006)

Uma das turnês mais memoráveis de Madonna, a Confessions Tour seguiu a boa recepção do álbum Confessions On a Dancefloor, serviu para reconquistar muitos fãs e atrair a atenção de novas gerações, provando sua capacidade de antecipar tendências em espetáculo pop impecável. Utilizando a década de 70 como base, o show passeia por momentos com estética Disco (com inspirações em Embalos de Sábado à Noite e Xanadu), até uma polêmica performance de crucificação em uma cruz de espelhos (homenagem à Jesus Cristo Superstar), passando pelo movimento glam rock e prestando as devidas homenagens à Donna Summer e o ABBA, mesclando os primórdios e futuro da própria Madonna. Com versões surpreendentes de antigos clássicos (como Like a Virgin em que a cantora exibe toda sua flexibilidade após, literalmente, cair do cavalo), a Confessions se tornou um cartão de visita para quem quer descobrir os talentos de Madonna. 


The Girlie Show (1993)

Se a Blond Ambion serviu para definir os parâmetros de um espetáculo pop nos anos 90, The Girlie Show se aprofundou ainda mais no lado teatral dos shows, com referências ao cinema e questões sociais, se mantendo relevante sem parecer datada. Com a proposta de ser quase um “circo sexual”, a Girlie celebra a vida e o sexo, passando pelo movimento do amor livre dos anos 70, os cabarés decadentes e terminando com a motivação de ‘everybody is a star’. As performances são recheadas de referências aos filmes e divas clássicas, especialmente Marlene Drietchi, o que em alguns momentos deixa o clima um pouco arrastado. Explorando o visual andrógeno dos dançarinos (que hoje ganha novamente as manchetes da moda com o gender-bender), a Girlie marcaria o ápice de Madonna como um ícone sexual, com cabelos curtos platinados, um corpo trincado e figurinos assinados por Dolce & Gabbana.


MDNA Tour (2012)

A MDNA merece destaque por ser a última turnê de Madonna (primeira na última década) e servir quase como uma demonstração de poder da cantora: o espetáculo é grandioso, com um palco gigantesco e uma equipe de dançarinos que se contorcem e desafiam a gravidade com a mesma facilidade. Apesar das frequentes reclamações quanto ao setlist que pouco prioriza os clássicos e deixa de lado as músicas ‘que levantam o público para cantar junto’ (como Music, Holiday, Into the Groove ou La Isla Bonita), a MDNA aposta nas tecnologias de ponta e rende algumas das performances mais impactantes da carreira da loira, como a entrada ao som de Girl Gone Wild em uma catedral gótica ou Vogue, em que os dançarinos fazem um verdadeiro desfile de moda. Nessa jornada ‘das trevas para a luz’, nas palavras da própria cantora, MDNA é eficiente em criar muitas imagens memoráveis, reinventar hits e demonstrar que no palco Madonna consegue se manter como uma referência e ícone indiscutível. 

10 de março de 2015

Crítica - Madonna expõem dilemas com 'Rebel Heart'

Poucas artistas tiveram tantos ‘retornos’ e recomeços como Madonna. Dentro da proposta de se reinventar a cada trabalho, a cantora soube como poucos usar as saídas estratégicas para manter-se constantemente sendo ‘redescoberta’ pelo grande público e a mídia. Se hoje ela já poderia desfrutar soberana em um almejado (e disputado) trono do pop, Madonna parece genuinamente interessada em, mais uma vez, descer do Olimpo e provar que não é reverenciada como ícone pop há três décadas apenas por legado. A cantora quer provar que ainda consegue ser a mulher que desperta o interesse do público, fazendo aquilo que melhor sabe: ser controversa. É com o objetivo de recomeçar (mais uma vez), que Madonna apresenta seu décimo terceiro trabalho em mais trinta anos de carreira: Rebel Heart.

Depois da recepção morna ao último trabalho, MDNA (2012), que foi realizado entre a filmagem do filme W.E e o lançamento de uma linha de roupas (o que gerou protesto até do produtor William Orbit), Madonna pareceu bem mais focada na produção do álbum sucessor e chamou um verdadeiro ‘time’ de talentos em busca de uma nova sonoridade. Depois de quase um ano no estúdio, que resultaram as famosas ‘80 demos’, temos colaborações de artistas e produtores consagrados, como Avicci, Diplo, Alicia Keys, Kayne West, Pharrell Williams, Nicki Minaj (na sua terceira colaboração com Madonna) e o rapper Nas. Das novatas, Natalia Kills conseguiu deixar o som da veterana mais obscuro, enquanto a ‘amiga’ Miley Cyrus ajudou na composição de Wash Over Me. No meio de tantos nomes, até o ex-boxeador Mike Tyson conseguiu participar de uma das faixas (!?).

O álbum já se tornou um marco na carreira da artista por ser o trabalho que mais tempo levou para ser produzido (cerca de nove meses) e ter a divulgação atrapalhada pelos constantes vazamento de materiais ilegais. Em novembro, enquanto o álbum ainda era finalizado, Madonna teve o primeiro baque com a liberação de duas faixas, que seriam só o começo de outros vazamentos, terminando em cerca de 30 canções divulgadas de forma ilegal. Quase um mês antes do lançamento oficial, o álbum já finalizado caiu na internet, quebrando de vez a surpresa dos ajustes. Depois de esbravejar nas redes sociais, Madonna tentou reverter os vazamentos disponibilizando seis faixas do trabalho para venda digital, quase como EP de antecipação, mas é inegável que Rebel Heart chega já prejudicado e sem grandes surpresas.

Bastaram as seis músicas disponibilizadas no iTunes para a crítica eleger Rebel Heart como o melhor álbum de Madonna desde o sucesso de Confessions on a Dancefloor (2005). Ouvindo o trabalho completo, não é difícil analisar que ele se encontra à frente de Hard Candy (2008), em que a cantora tentava seguir a ‘onda’ do hip-hop ou do próprio MDNA (2012), que oscilava entre canções ‘maduras’ sobre o divórcio (como as queridinhas dos fãs, Gang Bang e Love Spent) e outras músicas genéricas e impessoais, em que a cantora tentava emplacar uma imagem juvenil (Some Girls, Superstar). Longe de serem os lixos descartáveis que os delatores tentam pintar, os últimos projetos de Madonna pecavam justamente por não conseguirem marcar uma sonoridade e imagem para cada era, servindo de base apenas para a divulgação da turnê, real foco da cantora na última década.


Rebel Heart acerta justamente no ponto fraco dos últimos trabalhos ao manter uma unidade sonora, como um álbum consistente, o que deve ter sido complicado visto a quantidade de pessoas que trabalharam no projeto e a duração da produção. Dessa forma, é possível encontrar no trabalho o lado ‘rebelde’ da artista, aquele que aos cinquenta anos ainda deseja festejar, falar de sexo e curtir os sabores da fama, ao lado da parcela mais ‘romântica’, recheada de baladas sobre desilusões amorosas, vulnerabilidade e superação pessoal. Como um álbum de contrates, definido pela própria cantora como o encontro da antiga Madonna com uma nova Madonna, há espaços para reflexões pessoais, sendo o trabalho mais autobiográfico de Madonna desde do belo American Life (2003) e relembrando em alguns momentos a sonoridade refinada e obscura do subestimado Erotica (1993).  

As primeiras faixas estão entre as melhores do álbum, com o primeiro single Living for Love, seguido de Devil Pray (sobre uma tenebrosa relação com as drogas) e as mais agitadas do projeto: com pegada reggae, Unapolegic Bitch se torna um novo hino pessoal de Madonna ao decretar-se uma ‘vadia sem remorso’, enquanto Bitch I’m Madonna poderia soar como o cúmulo do egocentrismo, mas não passa de uma divertida brincadeira pop com pitada de Nicki Minaj, ideal para lotar as baladas com coreografias. Iluminatti aproveita os boatos da ‘sociedade secreta’ que dominaria os rumos mundais e rende uma das melhores músicas do álbum, com produção luxuosa de Kayne West e tratando do assunto com ironia, combinando o nome das celebridades que supostamente fazem parte desse grupo secreto.


O restante das músicas oscilam entre baladas românticas, área que Madonna andava um tanto afastada, como Joan D’Ark (que fala sobre vulnerabilidade, algo raro quando falamos da loira) e as dramáticas Heartbreak City e Ghosttown (que provavelmente será o próximo single), enquanto outras canções abordam o lado ‘rebelde’ da artista, como S.E.X, Best Night e Holly Water, que convocam as mulheres para falarem abertamente sobre sexo, posições sexuais e a liberação da ideia de pecado. A própria voz de Madonna ajuda a separar essas temáticas, aparecendo mais calma e suave nas músicas românticas, enquanto nas mais sensuais há sussurros e um tom mais grave, utilizado na época de Like a Prayer e Erotica.

Em Rebel Heart, há também reflexões sobre a própria carreira, como em Iconic, que contém uma mensagem que é pura Madonna, sobre não desistir e manter um discurso contestador. Veni Vidi Vici é outra faixa autoreferente, que rima os nomes e trechos de outros sucessos de Madonna para fazer uma recapitulação da carreira, enquanto a faixa homônima, Rebel Heart, relembra o começo da carreira e a tentativa de ser provocante para chamar atenção, mesmo com a desaprovação do pai. Apontando para um futuro musical, Body Shop, uma das menos querida pelos fãs, é uma daquelas faixas em que a cantora testa novas sonoridades, misturando o ritmo oriental com uma letra metafórica sobre ser ‘arrumada’ em uma oficina corporal. Já Inside Out é um daqueles momentos em que a boa produção encontra uma letra interessante que coloca o amor completo, que incluí defeitos, imperfeições e cicatrizes. Uma posição madura, que nada lembra o som dance que Madonna tentou emplacar nos últimos anos e pode ser um bom indicio do que poderemos ouvir num futuro musical da veterana.


Completamente retrabalhada e agora pouco lembrando a demo focada em baladas, Wash Over Me ganha maior profundidade, sendo uma das faixas que mais expõem os dilemas atuais da artista, que canta ‘Quem sou eu para decidir o que deve ser feito?’ e prefere deixar ‘a chuva cair sobre mim’. É Madonna se colocando como uma ‘estranha’ no cenário atual, vivendo em um mundo contraditório em que ela deseja ainda ser relevante. Comparando com as músicas vazadas ou rejeitadas, é curioso observar que Madonna acabou cortando as canções mais sociais (Freedon, Revolution) para optar pelas dúvidas e contradições de seu ‘coração rebelde’. 

Longe de ser um Confessions 2.0, como muitos fãs esperam há anos, Rebel Heart dá um tempo nas canções-dance-escapista de Madonna e soa mais maduro e até mais calmo que últimos trabalhos da artista. Querendo provar que ainda pode se reinventar e se reapresentar para uma nova geração de fãs, Rebel Heart pode não se tornar um sucesso comercial já que não tem apelo radiofônico, mas prova que Madonna ainda está interessada em produzir, dialogar e criticar convenções. Em um sociedade que ainda boicota as músicas dela pela questão da idade, faz piadinhas com sua queda ou que a critica por simplesmente ser sensual com mais de 50 anos, ainda será necessário que Madonna quebre muitas barreiras antes de poder sentar-se confortavelmente no trono e apenas observar seu legado inegável dentro da cultura pop.


Obs: Lançado em três versões diferentes, caso não seja tão fã da cantora, pode escolher a versão Deluxe, com 19 faixas e as melhores músicas dessa nova fase. Aproveite!



10 de agosto de 2014

Lançamentos Musicais - Primeiro Semestre 2014

Shakira - Shakira

No novo trabalho da cantora colombiana é fácil perceber os momentos de Shakira apaixonada e inspirada e aquelas faixas que parecem ter entrado só para cumprir tabela. Da parte mais pessoal, o relacionamento com Piqué é o tema central, como fica evidente nas boas 'Broken Record' e '23', em que é possível até ouvir o riso de Milan, filho do casal. Como não poderia faltar, ainda temos momentos mais agitados, com a ótima (e quase esquecida) Chasing Shadows e o primeiro single, o dueto sensual com Rihanna, Can't Remember to Forget You, que apesar de não ter feito o sucesso esperado, figura como um das melhores faixas do álbum. Como a própria cantora admitiu ter se envolvido menos na produção musical dessa vez, fica a impressão de que várias faixas poderiam estar na voz de qualquer pop-princess e alguns momentos parecem sobras de outros trabalhos. Menos redondinho que o álbum anterior, Shakira tem boas músicas encobertas por produções sem personalidade, um pecado quando se trata da cantora colombiana mais querida do pop. 

Fernanda Takai - Na Medida do Impossível 

O novo álbum de Fernanda Takai merece destaque por não se parecer com os trabalhos do Pato Fu nem com o projeto anterior da cantora, com a releitura da obra de Nara Leão. Na Medida do Impossível, entretanto, está longe de ser uma ruptura: o estilo doce de Takai está presente nas 13 faixas do novo projeto e serve de fio condutor do trabalho, em que a cantora visita diferente estilos musicais. Seu Tipo, parceira com Pitty, é charmosa, enquanto A Pobreza (Paixão Proibida) ganha ares dramáticos para contar sobre um amor proibido. Outras parcerias também rendem bons momentos, indo de  Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme com Zélia Duncan, passando pela bela Pra Curar Essa Dor com Samuel Rosa e até uma parceria inusitada com o Padre Fábio de Melo. Suave a agradável de escutar, Na Medida do Impossível, é um daqueles álbuns para deixar tocando e acompanhar a viagem musical de Takai, sem grandes variações ou surpresas. 

Silva - Vista Pro Mar

Depois de uma estreia aclamada, Silva passou rapidamente de 'relevação' para 'nova promessa da MPB'. Diante de tanta pressão, o cantor capixaba apresenta o segundo trabalho, Vista Pro Mar e firma seu posto na música brasileira, com canções 'ensolaradas' e bem produzidas. Menos variado que o ótimo Claridão, Vista Pro Mar é também e menos pop que o antecessor. A impressão que em busca de uma unidade sonora, algumas músicas acabam passando desapercebidas e demora para o álbum fixar na memória. O destaque continuam sendo as boas letras do cantor capixaba e a produção elaborada, longe do pop fácil das 'mais pedidas'. O destaque vai para o dueto com Fernanda Takai na ótima Okinawa.  

Lana del Rey - Ultraviolence

A musa dos clipes com filtros do Instagram passa pela prova do segundo álbum com seu Ultraviolence e prefere seguir a máxima de não mudar o time que está ganhando. Com um produção mais elaborada que Born to Die, o charme blasé de Lana, com sua voz sussurrada, continua sendo explorado ao máximo em músicas com sonoridade retrô como The Other Woman, Black Beautiful e o primeiro single West Coast, que já se afasta da imagem colorida de Katy Perry e demonstra essa evolução musical de Lana, contribuição de Dan Auerbach, do BlackKeys. Ultraviolence não mudará a opinião de quem acha Lana forçada ou tediosa, nem dos fãs que a veneram como uma musa, mas prova que a cantora encontrou seu nicho, estilo e sabe trabalhar muito bem dentro da sua proposta. 

11 de agosto de 2013

CDs do primeiro semestre de 2013

O primeiro semestre de 2013 não rendeu um hit-pop-arrasa quarteirão a nível de Call Me Maybe ou uma febre da internet como o Gangnam Style. Na falta de revelações, os destaques ficaram nas mãos de artistas consagrados, alguns que até andavam afastados da mídia e voltaram com material inédito após alguns anos. O hit do verão, por exemplo, ficou nas mãos da dupla francesa Daft Punk, com o sucesso de Get Lucky. No Brasil, depois de uma leva de cantoras que seguiam a cartilha Vanessa da Mata, cantores e bandas estão com mais oportunidade de divulgar seus (bons) trabalhos depois do sucesso e reconhecimento de Criolo, Cícero e Silva. A dica é filtrar um pouco o som de fora e abrir bem os ouvidos para o que está rolando por aqui! 

David Bowie - The Next Day


O sumiço de David Bowie ganhava cada vez versões mais mirabolantes: alguns diziam que o camaleão estava com uma doença terminal, outros afirmavam que o cantor só estava decepcionado com a repercussão do último trabalho, enquanto uma parcela acredita que, na verdade, Bowie estava cansado de produzir. Secretamente, entretanto, ele estava gravando e arquitetando seu retorno e deu uma rasteira em toda mídia. Quando achou que estava pronto, Bowie utilizou a internet para anunciar sua nova produção e entregou um álbum que resume várias sonoridades e estilos que ele já adotou ao longo da carreira. A própria capa do CD já indica essa visão saudosa do artista, com a reileitura de sua própria obra. Bowie critica o presente com canções que discutem o culto das celebridades, a velocidade das informações e sensação de estar cada vez mais perdido e um mundo superficial. Entre os destaques, os singles The Stars Are Out Tonight e The Next Day resumem bem esse retorno tão esperado pelos fãs da música. Pode não um trabalho brilhante, mas ouvir novidades de Bowie sempre vale a pena.

Justin Timberlake - 20/20 Experience

Depois de alguns anos dedicando-se a carreira de ator, Justin Timberlake decidiu “trazer a elegância de volta” com 20/20 Experience, projeto dividido em duas partes. Com um sonoridade retrô e mais sofisticada, Justin deixou um pouco de lado os batidões do hip-hop e passos de dança que o transformaram em uma das estrelas mais requisitadas da década passada. Em suas novas investidas, Justin investe mais em baladas do que em músicas dançantes, como Mirros, que faz a ponte entre o trabalho anterior e esse. As melhores faixas, porém, são aquelas em que Justin abandona de vez o personagem anterior, como Suit And Tie e abertura Pusher Love Girl. O problema é que essa sonoridade já não é mais novidade desde que Amy Winehouse estourou e trouxe uma leva de artistas que buscam no passado a inspiração para criar: o próprio Bruno Mars já faz um trabalho nesse sentido. Além disso, a longa duração das músicas chega a irritar em alguns momentos. Agora, resta esperar pela continuação do projeto, que será lançada ainda neste ano.  

Wado - Vazio Tropical

Menos diversificado que o álbum anterior, Vazio Tropical pega carona no sucesso de Silva e Cícero (com direito a dueto) e promete tornar Wado um nome mais familiar aos ouvintes de música-pop-nacional. A produção de Marcelo Camelo, ao mesmo tempo em que cria uma unidade entre as músicas, também deixa o som do cantor sem muita personalidade, como se fosse uma continuação dos trabalhos do próprio Camelo. Não é a toa que os melhores momentos são aqueles que lembram o trabalho anterior, como a belíssima e a delicada faixa Flores do Bem e o samba Quarto Sem Porta. As composições continuam como o diferencial do artista, com uma delicadeza mesmo em assuntos complexos, como a solidão na cidade grande, relacionamentos e a busca da própria identidade. Vazio Tropical pode render a popularidade dos colegas à Wado e fazer com que sua voz doce ganhe a divulgação que merece. 

She & Him - Vol.3 

A dupla despretensiosa, que começou como um projeto alternativo, chega ao seu terceiro volume com status cult e uma constante evolução e amadurecimento. Zooey Deschanel, agora já musa indie, pode não ter uma voz potente, mas compensa com interpretações competentes e o controle cada vez maior de sua habilidade vocal. Com uma sonoridade cada vez mais elaborada, a dupla não deixa de lado o charme retrô que a tornou famosa e não tem medo de evocar The Carpenters, com canções leves. Destaques para as regravações, como Sunday Girl de Blondie, que ganhou uma cativantes versão. Um álbum só com covers poderia render um ótimo Volume 4. Se falta uma canção mais pop, como In The Sun, o terceiro volume rende ótimos momentos, como I Got Your Number Son, a ótima  I Could've Been Your Girl e a baladinha Turn To White. Despretensioso, leve e demonstrando uma constante evolução, sem perder as características, She & Him anda melhor que muito cantor “sério”.

25 de maio de 2013

Crítica: Marisa Monte - Verdade Uma Ilusão



 
Quando foi lançado, O Que Você Quer Saber de Verdade dividiu opiniões, tanto da crítica quanto dos fãs da, até então, intocável Marisa Monte. Muitos não entenderam o repertório mais popular do álbum, que se distanciava dos últimos trabalhos da cantora, como Infinito Particular. Em entrevista para a Bravo!, Marisa falou sobre essa mudança: o objetivo de reconquistar o grande público e ser tão popular quanto as novas cantoras que surgiram nos últimos anos. A diva intocável no pedestal desceu do Olimpo e quis estar novamente na boca do povo, trilhas de novelas e entre as mais tocadas das rádios.  

Se o álbum tinha o objetivo de fazer as pazes da cantora com o grande público, a turnê Verdade, Uma Ilusão trilha o mesmo caminho, sendo o show mais acessível, colorido e agradável da artista nos últimos anos. Mesmo quem nem é fã de carteirinha ficará impressionado por saber cantar (ou só murmurar) grande parte das letras dos sucessos apresentados no repertório. Não que se trate de um daqueles shows que bandas ou artistas decadentes fazem para comover os fãs e levantar um dinheiro extra. Longe disso. Marisa não usa o passado como uma medalha piegas de que um dia fez sucesso, mas como uma bagagem de quem já tem clássico e soube, como poucas, controlar a direção de sua carreira e amadurecimento artístico. Além disso, o esmero na produção do show, com as projeções e iluminação, torna cada música (mesmo as antigas), uma nova descoberta.

Logo na abertura, com a música título, projeções fazem um jogo com as cores e formas que remetem a capa do álbum e estabelecem o tom do espetáculo. Nesse sentido, Marisa merece aplausos por não cair no problemas da maioria das produções nacionais que utilizam os recursos audiovisuais sem nenhum sentido pré-estabelecido, só para dar um "colorido" no show. Pontuando as músicas nos momentos certos, as projeções ajudam a expandir os sentidos das composições, sem nunca desviar a atenção da cantora, confundir ou cansar o público.   

Em cerca de uma hora e quarenta minutos de espetáculo, ouve-se sucessos mais antigos, como Na Mira (Eu Sei), Beija Eu e a belíssima De Mais Ninguém. Dos últimos anos, também estão lá A Sua, Gentileza, Não Vá Embora e Infinito Particular. Entre os hits, Marisa aproveita para mostrar também as músicas do último álbum, mas sem deixar os ânimos esfriarem. Depois e Ainda Bem são novidades que empolgam e são cantadas em alto e bom som pelo público, comprovando que o objetivo de se divulgar novamente em aberturas de novelas e rádios rendeu pelo menos dois novos sucessos para o repertório. Não deixando nenhuma fase de fora, incluiu-se também dois sucessos do Tribalistas: Velha Infância e Já Sei Namorar

Entre as surpresas da turnê, E.T.C, parceria de Marisa, Arnaldo e Brown, é apresentada pela primeira vez em um show da cantora e ganhou uma nova roupagem, mais próxima do tango. Nesse momento, ela aproveita para celebrar o talento de Cássia Eller. "Saudades não é sentir a ausência, mas a presença de alguém", diz. Outra homenagem acontece no momento mais sensual do show, com Sono Como Tu Mi Vuoi,em que Marisa declara a admiração por Mina Mazzini e o desejo de gravar um dueto, que acabou rendendo a regravação de Ainda Bem por Mina.
Se nos dvds e vídeos Marisa sempre parece um tanto fria, ao vivo ela se mostrou bem carismática, animada e até permitiu que um fã cantasse o trecho de Arnaldo Antunes em Amor I Love You, já no bis. "'É uma emoção quando vocês cantam comigo, mas é ainda melhor quando vocês fazem o backing vocal", disse rindo e pedindo para que a platéia cantasse novamente o refrão do sucesso de 2000, agora em uma versão "voz e violão". É a Marisa "novamente popular", querendo ouvir suas músicas sendo cantadas por todos e não apenas sendo idolatrada pelos críticos cults. 

Bem que se Quis, primeiro sucesso de Marisa, é cantado à cappella e a iluminação vai baixando. Quando o público está imerso na nostalgia da canção, ela sai do palco calmamente, sem se despedir, para não estragar o momento. No escuro, sem nenhuma projeção ou truque, Marisa prova que ainda é uma das cantoras mais interessantes e cativantes da MPB.