Mostrando postagens com marcador show. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador show. Mostrar todas as postagens

12 de setembro de 2015

5 Turnês Indispensáveis de Madonna


O título de Rainha do Pop e o trono que Madonna ocupa há mais de 30 anos de carreira está sempre sendo questionado, seja por aqueles que ainda dizem que ela não tem a melhor voz, os fãs das novas cantoras (que em sua maioria se apropriaram do legado da própria Material Girl), ou mesmo os fãs saudosistas da Madonna dos anos 80 ou das polêmicas da década de 90. Seja qual for o argumento, muitos deles caem por terra quando a senhora Ciccone começa uma nova turnê e prova que, definitivamente, o palco é o espaço em que seu talento e legado é inquestionável. Com o início de sua mais nova empreitada, a Rebel Heart Tour (que promete se tornar a turnê mais lucrativa de 2015-2016), Madonna deverá atrair novos admiradores e reconquistar muito dos antigos. 

Para você que justamente quer conhecer (ou relembrar) as turnês que tornaram Madonna o ícone de hoje, cinco shows te ajudarão a ver a diversidade, profissionalismo e dedicação da cantora nessa jornada rumo ao topo. 


Drowned World Tour (2001)

Frequentemente fora das listas das mais queridas dos fãs, a Drowned marca o retorno de Madonna aos palcos depois de um hiato de quase oito anos em decorrências da gravidez e projetos no cinema. Marcando o começo no uso de novas tecnologias no palco, para muitos o show é quase uma ‘anti-turnê’ de Madonna, com um setlist de poucos hits clássicos (com exceção das incríveis performances de La Isla Bonita e Holiday, que surge vigorosa) e blocos que passeiam por temas pesados, como violência urbana, artes marciais e submissão feminina. Na Drowned, Madonna se comporta mais como um rockstar do que uma diva pop purpurinada, com sobrancelhas descoloridas à Ziggy Stardust, incluindo performances com instrumentos (guitarra e violão) e sendo o único show em que ela não mostrou as belas pernas ou abusou das lingeries. Com impressionante teatralidade, Drowned é uma turnê escura, repleta de referências orientais e que marcaria os rumos das próximas empreitadas de Madonna. 


Blond Ambition (1990)

Praticamente um divisor na carreira da cantora e do próprio show business, a Blond Ambition em alguns momentos pode parecer um tanto ultrapassada com aquele charme brega dos anos 80, mas foi fundamental para criar a base que 90% das turnês atuais utilizam, ao aproximar a estrutura dos mega-espetáculos da música com a produção e figurinos dignos de espetáculos da Broadway. Foi a primeira grande turnê da cantora a utilizar cenários mega-produzidos, contar com figurinos criados por estilitas e aliar a polêmica e blasfêmia para se tornar capa de jornais do mundo inteiro. Com algumas das melhores coreografias e performances da carreira, a Blond transformaria Madonna em uma deusa da sensualidade, com os sutiãs cônicos explorados por Gaultier na polêmica simulação de masturbação em Like a Virgin ou na abertura em que a cantora domina os subalternos. Um marco da cultura pop, Blond ainda encanta com uma Madonna no auge da provocação. 


Confessions Tour (2006)

Uma das turnês mais memoráveis de Madonna, a Confessions Tour seguiu a boa recepção do álbum Confessions On a Dancefloor, serviu para reconquistar muitos fãs e atrair a atenção de novas gerações, provando sua capacidade de antecipar tendências em espetáculo pop impecável. Utilizando a década de 70 como base, o show passeia por momentos com estética Disco (com inspirações em Embalos de Sábado à Noite e Xanadu), até uma polêmica performance de crucificação em uma cruz de espelhos (homenagem à Jesus Cristo Superstar), passando pelo movimento glam rock e prestando as devidas homenagens à Donna Summer e o ABBA, mesclando os primórdios e futuro da própria Madonna. Com versões surpreendentes de antigos clássicos (como Like a Virgin em que a cantora exibe toda sua flexibilidade após, literalmente, cair do cavalo), a Confessions se tornou um cartão de visita para quem quer descobrir os talentos de Madonna. 


The Girlie Show (1993)

Se a Blond Ambion serviu para definir os parâmetros de um espetáculo pop nos anos 90, The Girlie Show se aprofundou ainda mais no lado teatral dos shows, com referências ao cinema e questões sociais, se mantendo relevante sem parecer datada. Com a proposta de ser quase um “circo sexual”, a Girlie celebra a vida e o sexo, passando pelo movimento do amor livre dos anos 70, os cabarés decadentes e terminando com a motivação de ‘everybody is a star’. As performances são recheadas de referências aos filmes e divas clássicas, especialmente Marlene Drietchi, o que em alguns momentos deixa o clima um pouco arrastado. Explorando o visual andrógeno dos dançarinos (que hoje ganha novamente as manchetes da moda com o gender-bender), a Girlie marcaria o ápice de Madonna como um ícone sexual, com cabelos curtos platinados, um corpo trincado e figurinos assinados por Dolce & Gabbana.


MDNA Tour (2012)

A MDNA merece destaque por ser a última turnê de Madonna (primeira na última década) e servir quase como uma demonstração de poder da cantora: o espetáculo é grandioso, com um palco gigantesco e uma equipe de dançarinos que se contorcem e desafiam a gravidade com a mesma facilidade. Apesar das frequentes reclamações quanto ao setlist que pouco prioriza os clássicos e deixa de lado as músicas ‘que levantam o público para cantar junto’ (como Music, Holiday, Into the Groove ou La Isla Bonita), a MDNA aposta nas tecnologias de ponta e rende algumas das performances mais impactantes da carreira da loira, como a entrada ao som de Girl Gone Wild em uma catedral gótica ou Vogue, em que os dançarinos fazem um verdadeiro desfile de moda. Nessa jornada ‘das trevas para a luz’, nas palavras da própria cantora, MDNA é eficiente em criar muitas imagens memoráveis, reinventar hits e demonstrar que no palco Madonna consegue se manter como uma referência e ícone indiscutível. 

10 de dezembro de 2012

Crítica - MDNA tour/Madonna (São Paulo 04/12/2012)



Em 2008 houve uma comoção para ver Madonna no Brasil: a venda de ingressos foi um tumulto, a chegada da estrela foi A sensação da mídia e a cantora ainda engatou o namoro com Jesus Luz, para delírio dos sites sensacionalistas. Para muitos, aquela seria, talvez, a única oportunidade de assistir a lenda do pop ao vivo, com a recordista e colorida turnê Stick & Sweet. Quatro anos depois, Madonna volta à São Paulo, com sua MDNA Tour, divulgando o novo álbum de inéditas homônimo. Se por um lado há menos histeria, por outro, a artista compensou seus súditos na terça-feira (4/12) com um show ainda mais teatral e que questiona os limites entre música, arte visual e cinema, transformando tudo em um verdadeiro musical impactante.

A Madonna que se apresentou em São Paulo dessa vez era bem diferente de 2008, assim como o show pouco lembrava as cores, puladas de corda e danças animadas da turnê anterior. Há mais trevas do que luz na nova turnê da loira, que revela-se uma releitura (potencializada) de vários momentos marcantes de Madonna no palco, com uma roupagem moderna e tão espetacular que ainda destaca-se e soa original. Se há quem critique as músicas e os novos álbuns de Madonna, no palco qualquer crítica pode ser questionada. Ela nunca foi uma brilhante dançarina, nem canta impecavelmente (em alguns momentos, prefere dublar os refrões para não desafinar), mas no quesito de performance e domínio de palco, ainda não há ninguém como ela. Você pode nem conhecer as músicas que tocaram, mas ficará com as imagens delas grudadas em sua mente: a bandida sexy do começo, a baliza que celebra a juventude e a musa da moda que posa para lentes imaginárias enquanto canta seu hino Vogue.

Madonna ensaiando no Morumbi
O diferencial da artista, entretanto, não é apenas o cuidado quase obsessivo com que cuida de seus shows, nem da tecnologia de última geração que permeia todo o espetáculo. Além de toda estrutura e recursos, há uma mensagem forte em cada um dos blocos. Nada está no palco para ser apenas um enfeite ou perfumaria, mas ajuda a contar uma história. Os gigantescos telões não servem apenas para transmissão de imagens coloridas ou frases, como em outros shows, mas são indispensáveis para criar um cenário e até reflexões que expandem o conceito das próprias músicas. Madonna é mestre na arte de casar músicas com imagens impactantes e aposta nessa combinação em grande parte do show. Nesse contexto, até o setlist é importante para ajudar a entender a jornada que Madonna propõe com MDNA. Se por lado ela abriu mão de clássicos-agita-estádio como Music, La Isla Bonita, Boderline ou Ray of Light, por outro ela conseguiu recuperar clássicos que andavam esquecidos em seu repertório, como Open Your Heart, Justify My Love e Papa Don’t Preach, além de apresentar músicas que nem foram singles ou grandes sucessos comerciais como Candy Shop, Nobody Knows Me e Human Nature. Uma ousadia que alguns artistas veteranos não teriam coragem.

O ensaio já mostrou um pouco do que veríamos. Pouco depois das 22h, a nave de uma igreja gótica é projetada, monges entoam um cântico gregoriano enquanto as gárgulas se posicionam no palco. Trovões, raios e a resposta do público. A evocação tem seu objetivo concretizado e surge um oratório carregando uma figura que reza nas sombras pela redenção dos pecados. Se na turnê anterior Madonna surgia como uma rainha devassa em seu trono estilizado, agora ela está interessada em algo ainda maior: ser um objeto de adoração, uma santa com manto e coroa, pronta para ser reverenciada. Não demora muito para ela se livrar desse “disfarce” e nos apresentar o primeiro personagem da noite: a assassina de preto, inspirada no filme Faster, Pussycat Kill Kill!, clássico trash referência de Tarantino. Os monges também retiram o manto e Girl Gone Wild é apresentada de maneira épica, com uma coreografia de tirar o fôlego na igreja em chamas e a comoção do público em perceber que o mito de Madonna é real e está ali, tão perto e tão longe, dentro de sua própria fantasia. O clima desse começo é pesado, com a sequência Revolver, música pouco conhecida da coletânia Celebration. O grupo de bandidas deixa a cantora sozinha no palco, para o auge da teatralidade e um dos momentos mais divertidos do show: Gang Bang, encenada em um cenário fuleiro de um quarto de motel. Em uma coreografia que simula lutas e assassinatos, Madonna ri enquanto canta “agora estamos no caminho do inferno e eu tenho muitos amigos por lá” e o sangue escorre no telão. Se nos filmes a Madonna atriz sempre foi um fracasso, nos palcos e clipes a cantora parece convincente nos papeis que interpreta, nesse caso, algum filme B.

Os primeiros trechos do sucesso Papa Don’t Preach são cantados e o público tem seu primeiro momento de comoção e não só de impacto. Mas, nessa turnê, a música não é mais uma queixa da menina grávida que enfrenta o pai, mas um pedido de ajuda, um clamor por perdão. Carregada por mascarados, Madonna atravessa as labaredas do inferno, se equilibrando no skaylaider enquanto Hung Up é tocada em uma versão bem diferente: time goes by, so slowly quando se equilibra para não cair. A cantora consegue superar essa provação e está novamente na igreja do começo do show, onde canta I Don’t Give A sozinha com guitarra, acompanhada pela freira Nicki Minaj nos telões. Quando a rapper avisa que só existe uma rainha, o público aplaude, enquanto Madonna é elevada por uma plataforma até a cruz de sangue. A mensagem é clara: apesar dos pecados e provações, Madonna conseguiu atingir seu objetivo e ascende aos céus, sendo reverenciada como Rainha. O primeiro interlúdio é com Best Friend, música que lamenta o fim do casamento com o diretor Guy Ritchie, expurgando de vez a frustração pelo fim do relacionamento.

Madonna celebra a juventude e música pop no segundo bloco
O segundo bloco tem início: o público ainda está com as imagens de sangue, cruzes e armas do segmento anterior na cabeça, quando as cores invadem o show, no momento mais animado da turnê. No mundo de Madonnna, entretanto, nem mesmo a diversão é inocente: no meio de tantas cores, a Rainha do Pop alfineta as novatas. Muitos nem percebem que enquanto a cantora, vestida de baliza de fanfarra (e não de líder de torcida como alguns jornais colocam), dança e canta, nos telões são exibidos ‘monstrinhos’ que comem enlatados com a imagem de Madonna. A crítica fica ainda mais evidente quando Madonna começa os versos de Born This Way mesclados com Express Yourself e prova que as músicas, realmente, são muito parecidas. A avaliação da veterana vem com uma frase de reprovação: “She’s not Me”, repete. A lavação de roupa suja continua com a próxima música, a deliciosa Give Me All Your LUV, primeiro single de MDNA e que continha uma crítica velada à música pop atual. Esse é um dos momentos mais incríveis, animados e impecáveis do show, com Minaj e M.I.A nos telões, líderes de torcida e bateristas flutuando sobre a platéia. O momento ‘auto-celebração” continua e temos uma pequena introdução com vários sucessos de Madonna que bombaram nas rádios, até que Turn Up the Radio começa em uma performance um tanto parada, mas que a cantora torna empolgante com muito esforço. Nesse momento, atingir as notas mais altas torna-se complicado e Madonna prefere desafinar que perder a empolgação. O momento acústico começa com Open Your Heart completamente transformada, de pop pegajoso à dança tribal com o trio Kalakan. Importante lembrar como Madonna sempre cedeu espaço em seu palco para novidades como Gogol Bordello, LMFAO, M.I.A, a trupe cigana da turnê anterior e até PSY, que demonstra sua vontade em dialogar com as novidades da música, principalmente do segmento ‘não-pop’. Com uma performance bonita, um arranjo mais latino e bons vocais, a vencedora do Globo de Ouro de Melhor Canção, Masterpiece, encerra o bloco.

Uma risada rompe a noite paulistana, nos telões, Madonna encarna seu sonho erótico em ‘tons de cinza’ enquanto foge de mascarados ao som de sua polêmica Justify My Love. Com inspiração no cinema clássico, o interlúdio marca a temática do próximo bloco: a celebração da moda, sexualidade, androgenia e liberdade de expressão. Vogue retorna às origens com o desfile de moda, flashes, coreografia com muitas poses e uma releitura do icônico sutiã cônico que Gaultier fez para ela na escandalosa Blond Ambition. Madonna paga a cafetina e entra no bordel decadente onde Candy Shop aparece em uma versão remodelada, misturada com Erotica. A platéia, que possivelmente nem reconheceu a música, só se anima nos momentos em que a cantora dança com o namorado, na parte mais sensual do show. A próxima música não poderia ser melhor que o “hino pessoal” de Madonna, Human Nature, que a cantora fez para rebater as críticas na época em que tirar roupas no palco era algo incomum. Entre espelhos, Madonna faz seu strip calculado, arrancando gritos da platéia a cada peça de roupa que cai. “Não me arrependo, é a natureza humana”, ela repete como se tentasse explicar a bela lingerie que está vestindo e o corpo ainda firme que exibe. Sabendo o quanto é bela e dona do palco, Madonna vira e sua bunda aparece em um close no telão. A plateia parece surpresa quando ela sai de cena sem cantar Like a Virgin, um dos momentos mais esperados do show. No palco, o video do último bloco começa antes que alguém questione a falta da canção mais famosa de Madonna.

A festa de encerramento com Celebration
No lugar de outras cantoras que fazem discursos demorados sobre preconceito e autoaceitação, Madonna prefere protestar por imagens. Nobody Knows Me, música do polêmico American Life, é exibido nos telões no “video-protesto” dessa turnê e nos lembra uma aparente contradição: muitos falam de preconceito, mas se esquecem que a própria Madonna sofre críticas pela idade. O clima pesado começa a mudar com os primeiros acordes de I’m Addicted, uma das melhores músicas do último álbum, que ao vivo ganha ainda mais força, apesar da performance um tanto confusa com Joana D’ark, artes marciais e meditação. Destaque para a iluminação, que deixa claro que poucas cantoras atualmente teriam um palco e equipamentos dessa magnititude. I'm a Sinner, entoa Madonna enquanto somos levados em uma viagem de trem pela Índia e todo o misticismo. O efeito visual nessa música é incrível e o palco da cantora parece um transformer, com diversas saídas, plataformas e telões. No fim, um mashup com Cyberaga (novamente com o trio Kalakan, que conseguem ter uma participação efetiva ao longo do show), anúncia o objetivo desse bloco: a elevação e encontro com a espiritualidade. Like a Prayer, hino máximo de Madonna, vira um coro gospel com todos os fãs cantando juntos. Lá está Madonna, cantando sua oração profana e se transformando, ela mesma, no objeto de adoração capaz de gerar uma catarse coletiva. O estádio está tão harmonia que não percebe que estamos na reta final do espetáculo (já??). Restam apenas as formas geométricas que parecem saídas de Tron. A cantora volta, pela última vez, com a apresentação do remix de Give it 2Me e Celebration em uma versão poderosa e animada, que fará o público sair do espetáculo convencido de que tudo foi uma grande festa, uma celebração da música pop e que, infelizmente, Madonna ainda consegue ser melhor no palco que qualquer outro artista da música pop atual. Ela parece realmente feliz nesse finalzinho, cantando e dançando sem se preocupar tanto com a atuação ou com os olhares de superioridade que mantém por todo espetáculo. Nesse hora, ela é a mulher sem idade, se divertindo e curtindo o momento, sem se preocupar com as críticas ou mesmo com a técnica. Celebration chega ao fim e Madonna se despede, feliz.

Para quem foi esperando ver Madonna cantar Holiday com roupas dos anos 80, o show pode ter sido uma grande decepção. A nova turnê de Madonna não tem o objetivo de fazer dançar ou cantar, mas ser impactado, seja pelos incríveis vídeos, as coreografias que desafiam a gravidade ou a própria Madonna, que consegue estar mais bonita e interessante que há quatro anos atrás. Agora resta a dúvida quais serão os próximos passos da veterana, o que ela está planejando para os próximos álbuns e turnês já que ainda estamos acostumados a esperar o melhor dela. Se seguir a cartilha de MDNA, podemos esperar shows cada vez mais teatrais e que demonstram que só há uma Rainha.


14 de novembro de 2012

Comentário: Lady Gaga em São Paulo (11-11-2012)


Depois de muita polêmica sobre o “fracasso de vendas”, os ânimos pareceram se acalmar e, pouco a pouco, o estádio do Morumbi se encheu para assistir ao primeiro show de Lady Gaga na capital paulista nesse domingo, 11 de novembro. Apesar das anunciadas 50 mil pessoas, a pista normal parecia bem tranquila e o público bem variado: little monsters vestidos com roupas do bizarro mundo de Gaga, “caça-shows” com fotos para Instagram, casal de namorados mais tradicionais e muitos grupos de amigos que foram curtir, sem nenhuma expectativa. As críticas do Rio de Janeiro já anunciavam que o espetáculo seguia a cartilha das turnês pop, com boa produção e entretenimento de primeira linha.

Ouve-se um barulho na platéia e logo surge Lady Starlight mascarada dançando. Sua performance, entretanto, pouco agrada ao público e ela sai carregada do palco, depois de beber meia garrafa de uísque na “”performance””. As primeiras gotas de chuva caem no show de abertura do The Darkness, que conseguiu animar, apesar da curta duração do show. Alguns veículos noticiaram que o público da pista VIP chegou a vaiar e chamar por Gaga durante a apresentação, mas a sensação foi que a maiora das pessoas curtiram.

Quase às 21h, o estádio finalmente tem a visão do castelo medieval onde Gaga irá apresentar sua Born This Way Ball. O público se manifesta de verdade quando a cantora, montada em um cavalo cenográfico (surpreendentemente realístico) e cercada por bandeiras começa a cantar os primeiros trechos de Highway Unicorn/Road to Love. A rápida introdução é precedida por uma projeção com a cabeça, a “mãe alienígena”, que avisa que Lady Gaga é uma fugitiva e que a operação ‘mate a vadia’ terá início. Esse é o ponto de partida da trama que conduz o show, uma mistura de dominação alienígena, renascimento, novas gerações e muitos discursos de auto ajuda. Com um figurino inspirado no filme Alien e ainda mascarada, Gaga canta Government Hooker enquanto simula sexo com um dançarino, que depois é executado no fim do número.


A próxima música, Born This Way, é a primeira a agitar os fãs, que cantam cada trecho em alto e bsom. No palco, um dos momentos mais divulgados do show: com uma vagina inflável gigante, a cantora simula o parto de uma nova geração. O que soa um tanto ridículo, ao vivo ficou até simpático e, pela primeira vez, podemos ver o rosto de Gaga descoberto. Apesar de cantar com bases pré-gravadas (especialmente os refrões das músicas que exigem mais fôlego ou dança), a cantora faz questão de tentar animar o público e evita o playback o quanto pode. Enquanto simula seu próprio parto, Gaga também falou pela primeira vez sobre a relação com o Brasil: “Vocês são o futuro!”, gritou. O discurso emocionado sobre a recepção brasileira continuaria por todo o show, em alguns momentos até atrapalhando o andamento das músicas e deixando o clima um pouco cansativo. A cantora não perdia uma oportunidade de dizer o quanto estava surpresa com os brasileiros e como tinha se identificado profundamente com nosso povo e cultura. “Você são os fãs mais apaixonados”, disse ao explicar que também gosta de demonstrar as emoções, mas que não era compreendida em outros lugares do mundo.

Black Jesus/Amen Fashion começa a tocar e poucos parecem conhecer a faixa que faz parte da versão especial do último álbum, a coreografia interessante, entretanto, consegue contornar o problema. Nesse momento, fica óbvio que a cantora prefere deixar os passos mais difíceis para os dançarinos, acompanhando os refrões ou até deixando o palco para que eles brilhem. O clima muda, com muita fumaça e uma iluminação mais baixa: em Bloody Mary o longo vestido branco faz a cantora “flutuar” pela passarela enquanto celebra um “Jesus Cristo Brasileiro”. Um ovo similar ao que ela usou no Grammy do ano passado entra no palco e Gaga sai com uma “roupa-armadura” e máscara. As troca de roupas são rápidas, entre uma música e outra, mas, pela primeira vez, o figurino parece atrapalhar sua movimentação no palco. Bad Romance começa a tocar e o público novamente se empolga e canta junto o refrão do hit.

No alto da torre para onde foi carregada, Gaga pede “mãos para o alto” e emenda uma versão mais curtinha do segundo single de Born This Way, Judas. Não há referências religiosas ou nada que possa chocar na performance, que acaba sendo um pouco apressada e esquecível. Nesse aspecto, a cantora parece se afastar muito da tradição de Madonna e prefere não impactar o público, apenas entretê-lo. Fashion of His Love também é cantada rapidamente, enquanto alguns dos figurinos mais conhecidos da cantora passam em cabides. É um momento mais despretensioso e colorido do show, que termina com Just Dance, que novamente anima o público em geral. “Nunca esquecerei quando me disseram que essa música estava em primeiro lugar no Brasil”, diz. Love Game começa e muitos nem sabem onde Gaga está, já que ainda olham para o castelo. Na ponta da passarela, a cantora canta em uma “banheira-taça” com uma roupa ‘estátua da liberdade’. Aqui, a trama inicial dos alienígenas já está praticamente esquecida, mas o importante é que Telephone, sucesso com a participação de Beyoncé, está tocando!

Um bloco com estética rock tem início, com a cantora transformada em uma motocicleta, como na capa (horrível) do cd. A performance de Heavy Metal Lover é um tanto parada, mesmo com uma dançarina seminua pilotando a moto-Gaga. Bad Kids mantém esse clima de pouca interação, até que Gaga senta-se nas escadas para receber os presentes dos fãs. Emocionada, lê em voz alta uma cartinha quando acertam um dos presentes em sua cabeça. O público ensaia uma vaia para quem jogou, mas Gaga acalma os ânimos: “Estou bem, ok?”, diz rapidamente. Ao sentar-se ao piano com três fãs ao lado, Gaga diz mais uma vez o quanto está feliz em fazer esse show e é interrompida pelos little monsters que estão no palco, “sim, eu sou real”, ela responde a menina que não parava de chorar e abraça-la. Nesse momento, as interrupções começam a soar cansativas, principalmente para quem não é tão fã de Gaga. Na arquibancada, muito se sentaram. “Eu não sabia, mas escrevi essa música pensando nesse momento”, diz ao começar Hair, no momento acústico do show. Na escola Mariah Carrey, Gaga prolonga as notas e canta visivelmente emocionada uma música sobre... o cabelo (?).


A primeira surpresa da noite veio as primeiras notas de Princess Die, baladinha que poderá estar no novo álbum de Gaga, um pedido dos fãs. Os little monsters gritam por The Queen, música quase desconhecida e que nunca tinha sido cantada ao vivo pela cantora (uma das minhas preferidas). Gaga tira sarro com a situação e insinua que os fãs brasileiros só disseram amá-la só para pedir músicas ou fotos. No improviso, Gaga começa a cantar e, nesse momento, a letra nunca pareceu tão apropriada: “Eu posso ser a rainha que há dentro de mim/ é minha chance de mostrar isso/.../posso ser a rainha que você precisa de mim”, diz a canção. Se em outros shows da turnê Gaga parecia frágil, insegura ou até mesmo pouco inspirada, nesse momento ela está empenhada em mostrar aos fãs que poderá ser mais que uma cantora pop qualquer. You & I começa e o público novamente se empolga com a balada à Shania Twain, mas leva um balde de água fria com a performance chata de Eletric Chapel, apesar da iluminação colorida do castelo.

Entramos no último bloco do show, com uma introdução longa de Americano, uma das canções mais divertidas do último trabalho. Com uma roupa de carne e pendurada entre peças de açougue, a cantora canta e faz uma coreografia que beira o ridiculo, mas consegue divertir. Poker Face e Alejandro seguem a mesma linha, com recriação dos passos e roupas dos clipes, entre moedores de carne, sutiãs de armas e dançarinos apenas de sunga. “Aqui Born This Way Ball é real!”, ela diz quase no fim do show. Paparazzi é cantando em grande parte pela “mãe alienígena” do começo do show, que finalmente é destruída por Gaga, que dança em Sheibe para celebrar seu novo “território”, livre de preconceitos ou tristezas e marca a saída de Gaga do palco. Muitos já estavam saindo do estádio quando a cantora voltou para The Edge of Glory (cantada em coro pelo estádio) e o final com Marry the Night, último single lançado, que contou com a presença de vários fãs no palco.

No fim, little monsters e pessoas que foram apenas para conferir a “cantora louca” ao vivo, comentavam como Gaga tinha sido simpática durante todo o espetáculo. No fundo, Gaga é mais fofa do que bizarra. Apesar de tudo, a sensação é que a turnê anterior era ainda mais divertida, justamente por não ser tão pretensiosa. Além disso, a sequência de algumas músicas esfriavam muito os ânimos, aliado aos discursos frequentes que atrapalharam o andamento até das músicas. No quesito produção, tanto o cenário, trama e figurinos podem parecer um tanto cafonas nas fotos, mas ao vivo combinam com o estilo da cantora.

Alguns críticos comentaram a falta de ousadia e renovação em alguns momentos. É inegável que tanto as coreografias quanto os arranjos pouco mudaram desde 2008, com repetição até de figurinos em alguns casos. Não que seja indispensável reinventar-se toda vez, Michael Jackson, por exemplo, tinha orgulho de dançar e cantar da mesma maneira em todas as turnês, mas para artista que sempre levantou a bandeira da renovação, soa um pouco estranho mesmo. Além disso, qualquer comparação com Madonna termina ao ver Lady Gaga ao vivo: são propostas muito distintas de músicas, shows e posturas. Os fãs de Gaga querem uma amiga enquanto os de Madonna querem um ícone.

Gaga brilha quando faz o que sabe de melhor: cantar e entreter. Os melhores momentos foram, justamente, aqueles em que ela deixou de lado o personagem, as preocupações com as coreografias ou os discursos clichês e se divertiu de verdade. Foi bacana ver uma artista se esforçando para compensar os “ingressos caros” (como ela mesmo frisou) e com vontade de que todos estivessem aproveitando aquele momento. Para os próximos projetos, Gaga poderia levar essa lição: menos preocupação e mais diversão! Agora é esperar ArtPop e relembrar esse show que pode ter modificado, quem sabe, os rumos da carreira de Gaga e de muitos fãs que tiveram por algumas horas o contato com seu objeto de adoração.