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7 de julho de 2016

Coleção Graphics Novels da Marvel (Salvat) - Vale colecionar?



Com o (re) relançamento da coleção de Graphics Novels Marvel pela editora Salvat e a possibilidade de realizar uma assinatura dos encadernados, é normal que muitos fãs ou curiosos tenham dúvida do quanto vale começar a coleção, afinal, estamos falando de 60 edições iniciais com personagens e histórias que nem sempre são tão conhecidos do grande público. Especialmente agora que a Marvel vive um ótimo período de popularidade, com uma série de filmes, produtos e jogos, há ainda mais interessados em conhecer as histórias originais dos quadrinhos que tornaram esses personagens tão icônicos.

Como é a coleção? 

A coleção Graphics Novels Marvel contém inicialmente 60 edições que apresentam histórias e arcos fechados com clássicos da 'Casa das Ideias'. Além da trama, há algumas informações adicionais, normalmente sobre os escritores e artistas que colaboraram, ou mesmo curiosidades sobre a trajetória de cada herói. Posteriormente, a Salvat anunciou uma expansão com mais 40 histórias clássicas (com marcos dos anos 60 aos 80) e mais 20 edições contemporâneas que fizeram sucesso, como a batalha entre os Vingadores e os X-men, totalizando 120 edições que quando colocadas juntas formam uma arte de Gabriele Dell' Otto (o que por si só é um dos motivos que estimulam os fãs a não perderem um fascículo). 

Apesar de uma distribuição quinzenal em bancas e livrarias nem sempre elogiada, especialmente fora do eixo de SP, um detalhe importante é que os encadernados não são lançados em ordem numérica, começando na edição 21, o que não chega a prejudicar o entendimento das histórias, só exigindo um cuidado maior dos colecionadores para não pularem edições. A quantidade de páginas nos livros também oscila bastante, com algumas edições separadas em Parte 1 e Parte 2, por exemplo.


Vale a pena colecionar?  


Acho importante ser sincero: nunca fui colecionador de quadrinhos como amigos que praticamente catalogaram suas coleções entre pastas e gavetas repletas de edições. Apesar de já ter lido e comprado eventualmente algumas graphic novels e conhecer os trabalhos mais marcantes de Alan Moore, Frank Miller e Neil Gaiman, nunca tive o comprometimento de seguir as novidades da Marvel ou da DC e, sinceramente, acreditava ser impossível conseguir entender e seguir a cronologia de quadrinhos com tantas décadas de histórias, personagens que morrem e ressurgem ou mesmo das inúmeras realidades paralelas e reinterpretações dos heróis ao longo do tempo. 

Foi esse um dos motivos que despertou meu interesse pela  coleção Graphics Novels Marvel, já que teria a oportunidade de conhecer em um encadernado de qualidade algumas das histórias que inspiraram filmes e outras adaptações, como o recentemente Guerra Civil, ou mesmo clássicos como a Saga da Fênix Negra e A Caçada de Kraven. Outro fator crucial é ter a oportunidade de ler histórias de heróis que (ainda) não são tão conhecidos, como o Doutor Estranho, Mulher-Hulk, Motoqueiro Fantasma e Pantera Negra e sair completamente do esteriótipo de que a Marvel só tem personagens coloridos, divertidos e tramas infanto-juvenil, bem longe da 'fórmula Disney' que os haters adoram apontar nos filmes. 

Mesmo com aspetos positivos há alguns pontos que poderiam ser ainda melhor na coleção, com alguns personagens que ganham mais destaque que outros, como o Capitão América, que mesmo com ótimas histórias acaba tirando a oportunidade de conhecer outros personagens. Além disso, nem sempre a introdução da trama realizada em uma página é suficiente para acompanhar a situação de todos os personagens, especialmente no complexo universo Marvel, com suas reinterpretações e reviravoltas. Outro motivo frequente de crítica e que fez algumas pessoas largarem a coleção são os eventuais reajustes de preços que nem sempre são bem explicados pela editora. Portanto, caso comece a coleção, esteja ciente que possíveis ajustes e aumento no preço poderão acontecer a qualquer momento, o que é uma vantagem da assinatura.

Dessa maneira, com pontos positivos e outros que poderiam ser ajustados, a coleção Graphics Novels Marvel é indicada especialmente para quem gostaria de conhecer as histórias marcantes da Marvel em um material de qualidade e um preço 'mais acessível'.

E a Coleção  da Capa Vermelha? 


Apesar de serem da mesma editora e lançadas quase na mesma época, as duas coleções são diferentes e, de forma geral, se complementam. A coleção da "capa preta" (Graphics Novels Marvel) apresenta histórias com arcos fechados, enquanto a da "capa vermelha" tem o foco de apresentar um personagem da Marvel em cada edição, muitas vezes combinando histórias clássicas de origem com tramas contemporâneas que mostrem a evolução dos heróis. Caso tenha possibilidade e interesse, fazer as duas coleções dará um panorama ainda melhor da editora, especialmente que na coleção "capa vermelha" há o destaque de heróis menos populares no grande público e revela surpresas nem sempre conhecidas da editora.


5 de abril de 2014

Comentário - Morte Súbita de J.K Rowling

Demorei para finalmente ler Morte Súbita. Tinha medo que o primeiro romance adulto da escritora de Harry Potter nos fizesse pensar que a saga do bruxo tinha sido mais um golpe de sorte do que talento. Besteira. Se o livro não é uma obra-prima avassaladora, ao menos comprova o talento de Rowling em criar histórias envolventes, universais e entreter o leitor. 

As diversas tramas se passam em uma pacata vila inglesa, em que os tradicionais moradores vivem uma aparente imutável rotina há décadas. Quando um dos membros mais carismáticos do local morre inesperadamente (como já anuncia o título), os segredos e mentiras construídos por anos começam a ruir e, pouco a pouco, os aparentemente impecáveis moradores do local começam a mostrar o lado mais…. ‘humano’. 

Como toda obra com várias histórias paralelas e diversos personagens, nem sempre há espaço para um bom desenvolvimento e algumas boas histórias acabam apressadas, desperdiçadas no meio do caminho para dar espaço para acontecimentos sem muita importância. Nesse sentindo, Rowling prefere criar dezenas de personagens típicos como a ‘dona de casa entediada’, ‘a vítima de preconceito’ ou ‘a adolescente problemática’ do que focar e desenvolver com complexidade alguma das histórias que montam seu quebra-cabeça. 


Da série que a tornou famosa no mundo inteiro, Rowling continua dando um destaque especial para os adolescentes e parece bem mais familiarizada a escrever sobre as angústias de jovens que querem sair da cidade pequena do que a crise de meia idade por que passam os personagens ‘maduros’. Os jovens, inclusive, protagonizam os principais momentos da trama e são responsáveis pelas grandes revelações. Os adultos, em geral, só reagem a esse acontecimentos.

Para certificar-se de que a história não seria confundida com seus livros anteriores, Rowling também parece ter passado por uma listinha de temas ‘adultos’ em cada capítulo, algumas vezes até forçando a mão em revelações e acontecimentos que parecem não levar a nada, como um estupro que pouco é comentado nas páginas seguintes.  

Com um ritmo lento no começo, em que cada personagem é apresentado dentro da rotina da cidade, Morte Súbita engrena mesmo quando os segredos começam a aparecer. Pena que quando já estamos íntimos daqueles personagens, com seus defeitos e características, a história termina um tanto apressada, principalmente diante dos acontecimentos finais. Para os que ainda estão em dúvida sobre Morta Súbita, pode ler sem medo e escolher dentre as diversas tramas, aqueles que você mais gosta ou se identifica. 

21 de fevereiro de 2012

O Estranho Mundo de Tim Burton

O Estranho Mundo de Tim Burton não é uma biografia convencional, até porque Tim Burton não é um diretor ou homem muito convencional. O livro, na verdade, é uma reunião de análises, críticas, entrevistas e depoimentos sobre os mais de 20 projetos que ele esteve envolvido (como diretor ou produtor) desde que começou a carreira com curtas-metragens na Disney. Alguns detalhes da vida pessoal de Tim são abordados, como o relacionamento complicado com os pais, alguns namoros e, principalmente, a infância do diretor. Esses detalhes ajudam a desvendar alguns aspectos dos filmes, como os temas sombrios e os personagens estranhos que ele tanto gosta.  


Como um livro de vários autores, algumas análises são ricas em detalhes e nos oferecem curiosidades dos bastidores, aspectos da vida pessoal do diretor e entrevistas bem esclarecedoras. Outras, entretanto, são mais superficiais, basicamente com a sinopse do filme e algum cometário rápido. De maneira geral, com essas análises podemos ver como Burton conseguiu manter o estilo pessoal e desafiou padrões de Hollywood ao ter sucesso de público e crítica com obras consideradas estranhas ou de difícil realização.   
Burton e Depp: amigos e parceiros
O livro esclarece algumas questões frequentes sobre as obras de Burton. Os visuais de seus filmes são tão carregados e únicos porque ele é um ex-desenhista: cada frame deve ter a beleza e estética de uma pintura ou animação. Há uma maior preocupação com a estética do que com o roteiro, por exemplo. A dificuldade em se adaptar ao meio social, tema frequente das suas obras, é reflexo do próprio diretor, que se considera uma pessoa socialmente deslocada. Além disso, todos os filmes remetem a elementos que fizeram parte de uma infância recheada de filmes de monstros, quadrinhos e ídolos do terror como Vincent Price e Christopher Lee. Os protagonistas dos seus filmes, como o bizarro Edward, o sombrio Batman ou o diretor menosprezado Ed Wood, representam partes da personalidade e biografia do próprio Burton.

O livro ajuda a compreender como Burton foi recebido pela crítica e público ao longo do tempo. Os filmes do diretor sempre foram muito reconhecidos pelos aspectos técnicos e visuais, mas não são unanimidades entre os críticos, muito menos nas premiações, que sempre o esnobaram o trabalho do diretor. Já o público normalmente comparece em peso nos cinemas, mesmo que depois critique, como aconteceu com o recente Alice no País das Maravilhas, que se tornou uma das maiores bilheterias de todos os tempos. 

No fim, fica a sensação de que Burton está tentando, a cada filme, resgatar pedaços da infância e oferecer ao público pequenos fragmentos de sua personalidade e vivência. Com personagens bizarros, visuais únicos e histórias estranhas, o diretor oferece ao público uma chance de sair da realidade e questionar o que é ser "normal". Indicado especialmente para fãs, o livro nos faz entender e admirar, ainda mais, o trabalho e vida desse homem que é um dos artistas contemporâneos mais expressivos e criativos. Com dois projetos para esse ano, o diretor ainda tem muito para oferecer e encantar platéias do mundo inteiro. 


19 de janeiro de 2012

Comentário - Trilogia Millenium de Stieg Larsson

O escritor sueco Stieg Larsson conquistou fama mundial pela trilogia Millenium, sucesso editorial que narra as histórias da hacker Lisbeth Salander e o jornalista Mikael Blomkvist. Tamanha popularidade pode até ser surpreendente, já que os livros abordam questões polêmicas como segredos políticos, espionagem, crimes digitais, bastidores mídia, abusos sexuais e o tráfico de mulheres. O autor, entretanto, pouco aproveitou da fama, já que morreu logo após a publicação dos livros, gerando boatos e conspirações sobre o ocorrido. Agora, com a adaptaçao hollywoodiana do primeiro livro, Os Homens que Não Amavam as Mulheres, com direção de David Fincher (Clube da Luta, Seven, O Quarto do Pânico), o interesse de público deverá ser renovado.

Os três livros focam na trajetória de Lisbeth Salander, uma hacker antisocial, anoréxica, violenta,  com um passado de agressões físicas e psicológicas e uma trama que envolve as altas cúpulas do governo sueco. No primeiro livro, Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, a hacker auxilia o famoso jornalista Mikael Blomkvist na investigação de um desaparecimento e os dois começam uma inusitada amizade que servirá como base dos outros dois livros.  O primeiro livro é eletrizante, com suspense gradual. Serve muito bem como introdução dos personagens e nos faz até ter simpatia pela figura de Lisbeth, a anti-heroína que no fundo tem medo de confiar nas pessoas pelos traumas do passado, explorados no segundo livro da trilogia, A Menina que Brincava com Fogo.

Lisbeth nos cinemas, na Suécia e Hollywood
Pena que com tantos aspectos positivos e originais, a trilogia termina com o decepcionante  A Rainha do Castelo de Ar, no qual a narrativa instigante de Larsson fica repleta de passagens desnecessárias. A mudança de emprego da editora Erica, por exemplo, não ajuda em nada a história principal e parece ter sido colocada só para aumentar a espera pelo clímax. A quantidade de personagens torna-se tão grande nesse terceiro volume que fica difícil acompanhar a história, alguns são até esquecidos no meio do caminho. Fora a tendência do autor em recapitular a história de Lisbeth em todo capítulo.  Ainda há bons momentos, que lembram o livro original, como o ataque ao hospital e o julgamento de Lisbeth, um dos melhores momentos da série e um clímax emocionante. 

No final do livro é impossível não entender e torcer por Lisbeth, que perdeu a confiança nas autoridades e age por seu próprio código moral. Com uma narrativa direta, Larsson conseguiu criar uma personagem diferente, fascinante e surpreendente, que mistura agressividade e inteligência na medida certa.  Há boatos de que o autor deixou um quarto livro da Millenium pronto antes de morrer, e tinha objetivo de transformar a trilogia em uma serie. Se for para continuar enchendo a história com passagens inúteis e deixar Lisbeth como coadjuvante da própria história, é melhor que o quarto livro não seja publicado e deixe a personagem na memória do leitor e na tela do cinema.

24 de julho de 2011

Comentário - A Sangue Frio de Truman


Com A Sangue Frio, Truman Capote inaugurou um novo estilo na literatura e no jornalismo: uma mescla até então inédita do espírito ivestigativo do jornalismo com a análise psicológica dos personagens, definido pelo autor como um “romance de não ficção”. Na trama, vamos acompanhando, detalhadamente, os diversos aspectos e repercussões do assassinato de quatro membros de uma família, numa cidadezinha do Kansas, Estados Unidos. O livro também traça um perfil detalhado dos assassinos: desde problemas na infância, até os desejos mais íntimos que os motivaram a cometer esse crime que chocou a sociedade na época.

Alguns anos atrás, Capote tornou-se figura celebrada, principalmente pelo lançamento da cinebiografia do autor, Capote (2006), que concorreu a diversos prêmios, incluindo o Oscar. Até A Sangue Frio, o autor era mais conhecido por livros de ficção, como Bonequinha de Luxo, participações em roteiros de filmes e pelo convívio direto com a alta sociedade nova-iorquina, incluindo as estrelas da música e do cinema da época. Foi folheando o jornal que Capote deparou-se com a notícia do assassinato da família Clutter, que serviria de embrião para seu livro mais famoso. A idéia inicial do escritor era escrever um artigo sobre como uma cidadezinha se comportaria diante de tal chacina e como as relações na comunidade seriam afetadas pela suspeita, uma vez que o paradeiro dos assassinos ainda era desconhecido. Com a prisão dos criminosos, o texto tomou novos rumos e passou a abordar, paralelamente, os aspectos psicológicos dos assassinos. 

Ao todo, o livro levou cerca de seis anos para ser escrito e, apesar de atualmente questionarem até que ponto Capote não teria “alterado” alguns depoimentos e passagens, o que se tem, no geral, é uma grande reportagem, escrita com a fluência de um romance. Capote consegue narrar de maneira detalhada, mas sem ser cansativa, os ambientes, personagens e situações. 

O destaque da trama não é mais o assassinato em si, o factual, mas o perfil psicológico dos personagens, principalmente dos assassinos: dois ex-presidiários que bolaram um golpe para recomeçar a vida no México. Capote é habilidoso em marcar a personalidade de cada um, dessa forma, Richard Hickicok, o Dick, surge inescrupuloso, grosseiro, extremamente calculista, enquanto Perry Smith revela-se dono de uma alma sensível e ao mesmo tempo capaz de matar uma família inteira por dinheiro.  Essa descrição é capaz de levar o leitor em uma jornada e uma confusão de sentimentos: ao mesmo tempo que percebemos a brutalidade do crime cometido, à sangue frio, vamos, pouco a pouco,  compartilhando os dilemas de culpa e arrependimento dos assassinos. Há também uma aparente imparcialidade na trama, já que nenhum julgamento é feito explicitamente, apenas a narrativa dos fatos como aconteceram, sem opiniões ou criticas por parte do autor. A imparcialidade também é atingida com o relato dos próprios assassinos, uma vez que dá voz para os dois lados envolvidos no fato. Até o titulo “A Sangue Frio” pode ser relacionado com o crime em si, ou à execução dos dois criminosos.

Capote conseguiu transformar uma noticia de jornal em uma analise profunda de seus personagens, narrando de forma continua e estimulante, os diversos aspectos que cercam o fato. Independente se é jornalismo ou literatura, não há como negar que estamos diante de uma grande obra.

7 de fevereiro de 2011

Comentário - Uma Crença Silenciosa em Anjos

Um assassinato pode abalar a vida de uma cidadezinha. Quando uma série de meninas são encontradas mortas em uma cidade no interior dos EUA,  durante a Segunda Guerra Mundial, o dia-a-dia de todos fica para sempre alterado. Uma Crença Silenciosa em Anjos parte dessa premissa para analisar como um mistério pode abalar irremediavelmente a confiança entre as pessoas e as medidas desesperadas que elas tomam para tentar retornar a normalidade.

Nosso narrador é um menino que perdeu o pai e descreve o pacato cotidiano de sua cidadezinha, até que algumas de suas colegas de classe são encontradas mortas, abusadas sexualmente e mutiladas. Aos poucos, toda cidade, inclusive as crianças, começa a procurar indícios sobre a identidade do serial killer. Nesse momento, vemos o ambiente seguro e tradicional ruir e as desavenças e mistérios dos moradores começam a surgir. Esse é só o início da trama, que acompanha nosso narrador até a fase adulta e guarda ainda algumas surpresas e reviravoltas.

Com uma narrativa que oscila entre fatos do passado e do presente do narrador, o livro tem uma narrativa interessante e consegue manter o suspense do começo ao fim.  O único problema do livro é que alguns pensamentos e descrições são muito cansativas e algumas situações ficam mal explicadas ou resolvidas.

Apesar desses pontos fracos, o livro é um bom suspense, que cumpre seu principal objetivo: manter o leitor instigado e curioso até seu fim. Recomendado!

5 de julho de 2010

O Mago de Fernando Morais

Para compreender plenamente uma obra, é necessário conhecer a história, influências e contexto de seu criador. Desta forma, a biografia do escritor Paulo Coelho, O Mago do jornalista Fernando Morais (lançado em 2008), oferece uma oportunidade para fãs ou delatores, de conhecer diversos detalhes da vida do escritor brasileiro que se transformou em um verdadeiro fenômeno de vendas no mundo inteiro.

Adorado pelos fãs e odiado pela crítica, Paulo Coelho sempre sonhou em ser um escritor famoso, mesmo quando fazia trabalhos em outras áreas, como a parceria musical com o roqueiro Raul Seixas. Com acesso aos diários que Paulo manteve por grande parte da vida e com depoimentos de dezenas de pessoas que participaram da vida do escritor, Morais narra a tragetória de Paulo de forma cronológia, desta forma, acompanha-se a infância (um péssimo aluno), a rebeldia da adolescência, a internação em clínicas psiquiátricas, o envolvimento com o teatro, as experiências como jornalista, a inclusão em uma seita satânica, a amizade com Raul Seixas, os diversos amores, a iniciação na magia e finalmente, o sucesso internacional como escritor.

Na tentativa de oferecer um panorama abrangente e completo sobre Paulo Coelho, Fernando Morais, autor de outras biografias como Olga e Chatô, criou um livro que não procura colocar o escritor como um herói, mas uma pessoa repleta de defeitos, manias, com momentos de covardia e até falta de caráter, como inventar matérias para um jornal ou se apropriar de textos de outros autores. Também fica evidente a obsessão de ser um escritor famoso.

O embate constante entre o Mago e a crítica também ganha destaque na obra. Neste quesito, Morais parece estar do lado de Paulo, já que chega a comparar os comentários da crítica brasileira, que sempre coloca as obras do escritor como livros de auto-ajuda sem valor literário, com os inúmeros elogios que a imprensa internacional faz de suas obras.

Livros de Paulo Coelho: sucessos de vendas
Apesar de bem escrito e com bom ritmo, há muitos detalhes desnecessários que acabam “travando” a história. A descrição minuciosa de Morais, ao mesmo tempo que ajuda na contextualização, acaba soando cansativa e sem utilidade em alguns momentos, principalmente nas descrições das viagens e romances que o autor teve ao longo da vida. Além disso, muitos livros do escritor, como O Diário de um Mago e As Valkírias, já relatam momentos da vida do autor, que poderiam ser menos detalhados na biografia “oficial”.

Assunto frequente nos livros de Paulo Coelho, a luta por um sonho é o tema central de O Mago, que de maneira geral, vale a pena ser lido por se tratar da biografia do autor brasileiro que tornou-se uma celebridade internacional, amado por milhares de fãs e sem o apoio da crítica brasileira.

2 de junho de 2010

Agualusa nos faz viajar pela África

José Eduardo Agualusa, autor angolano que já viveu no Brasil e em Portugal, se preocupa com a expansão da literatura africana, principalmente entre os países de língua portuguesa. Em seu livro As Mulheres do Meu Pai, lançado em 2007, é nítida a tentativa de estabelecer um diálogo com o Brasil e Portugal, mas sem esquecer as raízes e a temática africana da obra.

No livro, Laurentina após a morte da mãe, descobre que foi adotada e que, na realidade, é a filha do popular músico angolano Faustino Manso. Acompanhada pelo namorado Mandume, português que renega suas origens africanas, a jovem quer conhecer seu pai e sua família em Angola. Logo que chega ao aeroporto, Laurentina é informada da morte de Faustino e decide ir até ao velório e encontrar com seus parentes. Ao aceitar a proposta de seu primo Bartolomeu, de filmar um documentário sobre a vida de Faustino, acompanhando os lugares em que viveu e as mulheres que amou, Laurentina vai, ao longo da viagem, descobrir mais sobre seu pai e sobre si mesma.

Com uma estrutura basicamente de um “road movie”, na qual as principais passagens ocorrem durante uma viagem, a narrativa principal do livro é contada pelos três protagonistas: Mandume, Laurentina e Bartolomeu. Desta forma, acompanha-se como cada personagem reage e o que sente durante as filmagens do documentário, principalmente quando um triangulo amoroso se forma entre eles.

A trama “recortada”, com uma grande quantidade de personagens e locais, é uma das maiores dificuldades do livro, que em alguns pontos pode até se tornar confuso para o leitor. Além disso, o livro não apresenta os fatos em uma ordem totalmente cronológica, radicalizando este conceito de narrativa “fragmentada/recortada”, na qual diferentes eventos vão formando um quebra-cabeça, em que o leitor deverá juntar algumas peças. Outro fator que ajuda nesta sensação de fragmentação é que diversos gêneros literários surgem ao longo do livro, dessa forma, temos cartas, entrevistas (representando os trechos do documentário), fragmentos de jornais e as próprias anotações dos protagonistas.

A questão da diferença entre o que é ser negro e o que é ser branco permeia por toda trama, especialmente quando se trata de Mandume, o negro que quer ser branco, que tem verdadeira aversão pela África e seus costumes. Além disso, Agualusa constantemente introduz situações em que a questão racial é debatida, principalmente na África do Sul. Além disso, os personagens fogem do típico maniqueísmo, tornando-se figuras complexas, com dilemas bem trabalhados ao longo de toda trama: Laurentina busca sua identidade, Mandume questiona suas origens e Bartolomeu vai descobrir as dificuldades de um relacionamento.

Com uma linguagem simples e repleta de comparações, o autor revela um pouco de sua visão de mundo, principalmente nas questões sociais e raciais. Agualusa, mesmo quando aborda as dificuldades sociais africanas, faz uma descrição tão apaixonada e apaixonante da África e de seus personagens, que dá vontade de conhecer aquele continente, ao mesmo tempo diferente e incrivelmente próximo da realidade brasileira. As Mulheres do Meu Pai é caso em que conteúdo abordado e a forma utilizada mostram-se em sintonia e revelam-se igualmente interessantes e bem trabalhados. Na busca pela afirmação e divulgação da literatura africana, Agualusa acabou criando uma história universal sobre a importância das origens na construção da própria identidade.

4 de maio de 2010

Vampiros na Cultura - Parte IV (Crepúsculo)

Goste ou não, Crepúsculo é um sucesso. A trama escrita por Stephennie Meyer gerou 4 livros, uma série de filmes e dezenas de produtos relacionados. Parece que tudo que tenha o nome “Crepúsculo” é sinônimo de vendas e desejo de consumo de inúmeros fãs pelo mundo. A saga segue o rastro de outra série de livros que abordava universos sobrenaturais paralelos a realidade: Harry Potter.
Na história, a adolescente Bella se apaixona perdidamente pelo vampiro centenário Edward Cullen. Esse relacionamento terá várias dificuldades, principalmente pelo perigo constante que Bella corre ao se relacionar com um sugador de sangue. Narrado em primeira pessoa pela protagonista, vamos aos poucos conhecendo mais sobre os vampiros criados por Stefanny.

A autora tenta seguir a linha de Anne Rice, colocando os vampiros como seres belos e sábios, que mais seduzem do que amedrontam. Stephenie também tenta dar maior complexidade aos seus vampiros, com discussões sobre a alma, morte de inocentes, etc. Entretanto, tudo em Crepúsculo parece terminar em romance. Há muito choro, declarações de amor eterno e dramas adolescentes sobre a família, relacionamentos e amizade. Além disso, os vampiros da família Cullen fogem de várias “regras” vampirescas estabelecidas desde Drácula, parecendo uma família "vegetariana" cercada por vampiros malignos que se comportam como... vampiros?!

Romance Proibido: a humana Bella e o vampiro Edward
Os filmes da “Saga Crepúsculo” foram fundamentais para a consolidação desse fenônemo de vendas, que levou o casal protagonista para as capas de dezenas revistas adolescentes. Não que os filmes sejam perfeitos, mas nota-se uma evolução nos longas da série. Com a estréia do terceiro filme da saga, Eclipse, marcada para o meio desse ano, Crepúsculo não deve cair tão cedo no esquecimento.

Stephennie declarou que um sonho a inspirou a escrever o livro (assim como Bram Stocker) que tornou-se sucesso e trouxe os vampiros de volta aos centros de discussões. Há ainda muito o que se sonhar e escrever sobre os vampiros, que fizeram, fazem e farão parte da cultura por muitos anos.

Afinal, vampiros são imortais...  

1 de maio de 2010

Vampiros na Cultura - Parte III (Entrevista com o Vampiro)

Se Drácula envolveu os vampiros no clima de suspense, Entrevista com o Vampiro injetou “alma” nos sugadores de sangue. Ao invés de criaturas asquerosas ou malignas, Anne Rice explorou o conceito do vampiro belo, sedutor e recheado de questionamentos existenciais.

No livro, Louis cede uma entrevista em que conta toda sua trajetória como vampiro. Depois de ser atacado e transformado pelo vampiro bon vivant Lestat (o personagem mais famoso de Rice), Louis começa a procurar explicações sobre sua nova condição, entender em que se tornou. A trama acompanha essa obsessão de Louis através das décadas, dessa forma, vamos acompanhando a evolução do tempo do século XVIII até a década de 70.

Entrevista com o Vampiro, lançado em 1976, foi só o primeiro livro das “Crônicas Vampirescas” da autora. Nas “crônicas”, diversos vampiros e histórias fascinantes vão surgindo, formando um intrigante mosaico vampiresco. As descrições de cada época/local são muito bem feitas pela autora, conferindo verossimilhança nas tramas. Além disso, os vampiros de Anne são criaturas complexas, repletas de defeitos e qualidades. Outra característica marcante é a bissexualidade de muitos personagens, como se fossem guiados pelo desejo, não importando o sexo de suas vítimas ou companheiros.
A vampira Claudia: eternamente criança
É em Entrevista com o Vampiro que a escritora apresenta uma de suas personagens mais fascinante: a vampirinha Claudia. Transformada ainda quando criança, seu corpo permanece intacto com o passar dos anos, transtornando a personalidade da jovem. A menininha, apesar de sua crueldade e malícia, torna-se uma das personagens mais complexas de todo livro, por apresentar esse paradoxo da mulher poderosa e imortal, presa no corpo de uma criança por toda eternidade. O desfecho de Cláudia também é um dos momentos mais dramáticos da história, relacionando-se com morte da filha de Anne Rice.
A versão cinematográfica (1994) tem Brad Pitt no papel do questionador Louis e Tom Cruise como Lestat. No início, a escritora desaprovou a escalação do ator, mas depois cedeu elogios a atuação de Cruise. Kirsten Dunst, que posteriormente faria a namorada do Homem Aranha no cinema, ganhou até uma indicação ao Globo de Ouro por sua interpretação de Cláudia. O filme é fiel a trama do livro e rendeu boas interpretações do trio de protagonistas. Entrevista com o Vampiro é considerados por muitos como um dos melhores filmes sobre vampiro já realizado, pena que sua continuação A Rainha dos Condenados não manteve a qualidade.

25 de abril de 2010

Vampiros na Cultura - Parte II (Drácula de Bram Stoker)

Nenhum vampiro é mais famoso que o Conde Drácula. O personagem, que tornou-se sinônimo de vampiro, já apareceu em tantos filmes e produtos que muitas pessoas não conhecem a história original escrita por Stoker.

Clássico do Terror:
Criado por Bram Stoker, autor irlandês nascido em 1847, este clássico da literatura é um marco nas histórias de vampiros.Logo, Drácula tornou-se a obra mais conhecida e admirada do autor, que teve a ideia de escrever sobre vampiros após um pesadelo.

No livro, acompanhamos os relatos de Jonathan Harker, que viaja até a Transilvânia para tratar de negócios com o excêntrico Conde Drácula em seu castelo. Logo, o inglês percebe que seu anfitrião esconde segredos assustadores e pode nem ser humano. Este é só o início de uma história envolvente que terá muitas reviravoltas e suspense até o derradeiro confronto com o vampiro.

O livro trabalha a descoberta da verdadeira identidade do Conde de maneira gradual e aposta no clima de suspense. Dessa forma, pequenos indícios como a excessiva palidez, os dentes caninos afiados, os hábitos noturnos, entre outros, vão aparecendo ao longo da historia até que tenhamos certeza que Drácula não é humano, mas uma criatura maligna.

Drácula fora das páginas:
Bram Stocker se inspirou em um personagem real para criar sua história: o monarca Vlad Drácula. O governante da Transilvânia era conhecido pela crueldade, principalmente por empalar seus inimigos. Atualmente, o castelo do Drácula tornou-se um ponto turístico muito visitado e desperta a imaginação dos turistas.

Vlad Drácula original e Gary Oldman no papel do vampiro.
Drácula já protagonizou inúmeros filmes de terror, ação (como Blade III) e até comédias que satirizavam o personagem, como em “Drácula – Morto, mas feliz” com Leslie Nielsen no papel principal. Entre todas as versões, a mais fiel ao livro é Drácula de Bram Stoker dirigido por Francis For Coppola e com Gary Oldman no papel do vampiro que aterroriza Londres. Destaque para o visual deslumbrante do filme, que trabalha muito bem o clima de suspense presente em todo o livro.

* Alguns dados presentes no texto foram retirados do livro Drácula – O Vampiro da Noite de Bram Stoker - editora Martin Claret.

21 de abril de 2010

Vampiros na Cultura - Parte I (O Mito)

A Lua está cheia e ilumina os vultos que se movem rapidamente na noite. A cortina balança lentamente com uma brisa que vem de fora da janela. Das sombras do quarto, surge uma criatura pálida e silenciosa. Ele caminha lentamente até se aproximar de sua vítima, uma jovem que está dormindo tranqüilamente. Ao tocar no pescoço da vítima, os afiados dentes ficam expostos e uma expressão de desejo e maldade surge em sua pálida face de vampiro. Ele finca seus dentes no pescoço da bela mulher. Um grito de dor ecoa pela noite...

Essa cena pode ser presenciada em diversos filmes que abordaram o mito dos vampiros. Tema dos mais variados filmes, livros, músicas (como Doce Vampiro de Rita Lee), videogames e até mesmo novelas (Vamp e O Beijo do Vampiro, exibidas pela Globo), os vampiros estão moda nesses últimos anos, graças a série de livros e filmes da saga Crepúsculo e a série de televisão True Blood. Principalmente entre os adolescentes, os vampiros vivem um momento de popularidade, com diversos produtos sendo lançados.

Engana-se quem pensa que os vampiros são criações recentes da cultura popular. Na verdade, o mito do morto que levanta da tumba para aterrorizar e beber sangue dos vivos é muito antiga e aparece nas culturas de diversos locais diferentes como na Índia, Grécia e no Leste Europeu, com algumas diferenças entre elas. No geral, o vampiro é um morto que sai de sua tumba durante a noite para se alimentar de sangue. Segundo as lendas, as maneiras mais eficientes de se matar um vampiro é cortando sua cabeça ou arrancando seu coração. 

Três obras literárias refletem a evolução do mito do vampiro através dos tempos: Drácula de Bram Stoker (de 1897), Entrevista com o Vampiro de Anne Rice (de 1976) e o recente Crepúsculo (de 2005). Nas próximas postagens, mais análises sobre cada uma dessas obras.