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31 de agosto de 2013

Leave Miley Cyrus alone! - O "desastre" no VMA?


A platéia estava visivelmente constrangida com a apresentação de Miley Cyrus no VMA. Instantaneamente, o assunto dominou as redes sociais e se tornou o momento mais comentado da noite, mesmo com apresentações aguardadas de Katy Perry, Lady Gaga, Justin Timberlake e o retorno de N Sync. Durante a semana, a polêmica sobre a performance que misturava elementos infantis com sexo tomou proporções ainda maiores: não faltaram críticas, piadas e comentários de famosos sobre o caso, defendendo ou crucifixando Miley. A Parents Television Council, conselho de pais para televisão americana, chegou a afirmar que a cantora estava substituindo talento musical por sexo e que a classificação do VMA deveria aumentar. Se por um lado é inegável que a apresentação soou forçada, por outro, Miley conseguiu chamar a atenção necessária e atingiu o objetivo: deixar, de uma vez por todas, a imagem de boa moça que a tornou famosa. 

Ver a até então menininha da Disney seminua no palco lambendo Robin Thicke não seria algo que o público esperaria ver da interprete da Hanna Montana até o começo do ano passado, por exemplo. O comportamento um tanto desequilibrado de Miley nos últimos tempos, na realidade, é o ápice de uma série de mudanças que a cantora passou para enterrar o passado. O processo foi gradual e começou no ano passado, quando ela abandou o longo cabelo ondulado e adotou um corte platinado e raspado nas laterais. Ao receber centenas de críticas pelo novo visual, a cantora postou que se sentia livre e que não cederia as pressões e comentários. Defender seu ponto de vista e visual, diferente de Beyoncé que colocou apliques uma semana depois de cortar o cabelo, revelava uma Miley diferente, disposta a lutar pela opinião. Dali em diante, a cantora aproveitou os eventos e editorais para marcar essa transição e explorar a imagem de uma mulher firme, de opinião. 


Com o novo estilo já definido, Miley encontrou em We Can't Stop, oferecida primeiramente a Rihanna como uma Party in the USA para adultos, o single que marcaria essa re-invenção também na carreira musical. Em uma letra que exalta as celebrações sem limites, Miley achou a forma de dizer que não se importa mais para as críticas e que em "sua festa" é livre para fazer o que desejar. É como se a cantora tentasse zerar sua trajetória musical e conquistar os mesmos fãs de Rihanna, Ke$ha, Lady Gaga... Em uma recente entrevista para a Bilboard, inclusive, Miley disse que todo o trabalho antes do próximo álbum não mais a representa e deveria ser desconsiderado pelos novos fãs. Nesse contexto, a apresentação do VMA simboliza a tentativa, um tanto forçada, de ser o "marco zero" nessa nova fase de Miley.  

Não que a apresentação tenha sido um primor, longe disso. Haveria maneiras muito mais sutis e inteligentes de se impor como uma artista madura do que aparecer com uma lingerie feia e mostrar a língua, para “ter atitude”. Do jeito que foi realizada, faltou sensualidade e sobrou mal gosto. Por outro lado, é chocante constatar que o público que tanto critica Miley continua sendo praticamente o mesmo que criticava Madonna por falar de sexo há mais de 20 atrás. A mesma geração que se orgulha tanto de uma “aparente” liberdade sexual e da troca instantânea de informação, ainda se choca ao ver uma mulher de lingerie na televisão (nesse contexto, inclui-se a reação da família Smith ao ver Lady Gaga no palco, na mesma noite). Será que essa platéia apática de 2013 não acharia a apresentação de Prince em 1991 “muito ousada” e “apelativa”? Será que o antológico beijo lésbico do VMA de 2003 hoje em dia seria considerado uma “tentativa desesperada de chamar atenção?


Além disso, não deixa de ser curioso que outra “cantora Disney” também tenha passado pelos mesmos momentos em busca de maturidade: Britney Spears, após anos como a queridinha do público também quis alterar sua imagem de boa moça, até a sucessão de vexames públicos que culminaram na desastrosa apresentação no VMA 2007, visivelmente alterada, acima do peso e mal conseguindo dublar a própria música. A comparação com Britney pode nem ser tão coincidência, uma vez que Miley conta com a orientação do empresário Larry Rodoph, o mesmo que cuidou da "Princesa do Pop" no auge de sua carreira e teve a direção de Diane Martel, a mesma do clipe 3. Miley percebeu que o público não resiste à  uma "good girl gone bad". 

A atriz Brooke Shields afirmou que Miley deveria repensar as atitudes “desesperadas”. Não seria igualmente desespero se ela continuasse a posar de boa moça e nunca saísse da zona de conforto? Talvez, a apresentação de Miley tenha sido propositalmente ruim para que, pela primeira vez, seu nome não estivesse atrelado ao seriado que a tornou famosa. Além disso, a "má publicidade" parece ter funcionado e Miley está no centro do mundo pop, sendo debatida com um fervor que não se via desde que Lady Gaga usou o vestido de carne. Nos resta torcer que Miley amadureça e perceba que sem talento e inteligência, nenhuma polêmica ou hit se sustentam por muito tempo e que há formas bem mais originais de chocar que mostrar a língua. No fim, infinitamente melhor ter uma apresentação ruim do que uma apática. Ponto para a "nova" Miley.


27 de janeiro de 2013

Cultura pop em 2012



2012 prometia ser um ano de grandes retornos e acontecimentos marcantes na cultura pop, entretanto, a sensação é de uma promessa não muito realizada. No geral, as grandes apostas se mostraram um tanto fracas e mesmo as revelações do ano soaram um tanto sem personalidade ou diferenciais. Prova disso foram as premiações, tanto da música quanto do cinema, que nunca foram tão esquecíveis e irrelevantes. O que mais marcou 2012 foram as disputas (chatas) dos fãs, que com o poder da internet passam o dia brigando por seu ídolo ou objeto de adoração: não faltaram farpas nas disputas “Madonna X Lady Gaga”, “Vingadores X Batman” ou “Minaj X Mariah”. Muito barulho para pouco conteúdo. 


- Música de 2012
De acordo com a lista da Billboard, o cd que mais vendeu em 2012 foi, novamente, 21 de Adele. A cantora, que passou a maior parte do ano sem lançar nada além da apática música-tema de Skyfall (que provavelmente ganhará o Oscar), prevalece como a queridinha do grande público. 2012 também marcou a popularização do indie com Somebody That I Used to Know do Gotye tocando entre as 10+ das rádios e a volta das boys-bands com suas fãs histéricas, graças ao sucesso do One Direction e The Wanted. 

Nicki Minaj, Maroon 5, Bruno Mars, Coldplay, Florida e Justin Bieber colheram os frutos do sucesso dos anos anteriores, lançando músicas que já se tornaram hits rapidamente. Entre as novidades do ano, Carly Rar Jepsen se deu bem e teve um dos maiores sucessos do ano com Call Me Maybe, a notícia ruim é que a cantora tem potencial para se tornar uma one-hit wonder. Rita Ora, Marina and the diamonds e Lana Del Rey também conseguiram dar as caras nesse ano, mas sem o sucesso de uma Katy Perry ou Rihanna. Falando na cantora de Barbados, ela honrou a tradição e lançou mais um cd recheado de hits em 2012. Ke$ha também deu as caras com Die Young, apesar da promessa de revolução não cumprida. LMFAO apareceu como um furacão e já terminou, deixando dois hits divertidos como lembrança. A novidade também apareceu fora do eixo EUA-Inglaterra, com o sucesso internacional de Michel Teló (não adianta falar mal) e o coreano Psy, que bombou na internet e baladas com Gangnam Style (e terá que ralar para continuar na mídia).

22 de abril de 2012

Comentário - W.E. O Romance do Século de Madonna


Se no campo da música pop Madonna mantém uma carreira icônica, no cinema a história sempre foi bem diferente. Ela desejava ser uma atriz premiada e reconhecida pela crítica (até se casou com um ator talentoso e um diretor respeitado para lhe dar um suporte), mas sempre foi motivo de chacota pelos colegas e detonada pela crítica. Suas melhores interpretações são aquelas em que pode injetar um pouco do seu próprio jeito e personalidade, como Procurando Susan Desesperadamente, Dick Tracy e Evita. Depois de abandonar a carreira de atriz, Madonna não desistiu do cinema e agora dirige filmes, ainda sem o sucesso e reconhecimento esperado.

Chegamos então a W.E – O Romance do Século, o segundo longa-metragem da cantora que foi lançado ano passado em festivais. Madonna mostrou-se tão obsessiva por esse projeto quanto na época de Evita, chegando a abandonar a música por alguns anos para escrever o roteiro e dar atenção a cada detalhe, da escalação do elenco até os figurinos que seriam utilizados em cada cena. Lançando com fracasso no mercado internacional e avacalhado pela crítica, o filme chegou ao Brasil nesse ano, em poucas salas, em geral no circuito alternativo. Depois de conferir W.E, entretanto, podemos comprovar que entre erros e acertos, há uma bela história.

Madonna como diretora: atenção aos detalhes
Para o bem ou para o mal, o nome Madonna é mais forte que qualquer coisa que ela faça. Fãs irão assistir e comprar o que ela fizer, preparados para amar, enquanto quem não gosta ou vai se recusar a assistir ou vai assistir apenas para apontar os defeitos. Aposto que muitos críticos já tinha a resenha pronta antes mesmo de irem à première. A mídia brasileira, entretanto, foi mais branda e menos afetada que os comentários dos festivais e apontou o óbvio: Madonna não é um Woody Allen, mas faz um filme com atenção aos detalhes, imagens fortes e boas atuações.

A trama é quase um Julia e Julie com toques mais dramáticos: acompanhamos a história real de Wallis Simpson, plebéia e divorciada por quem o rei Edward VIII abdicou o trono. O romance se tornaria um dos casos mais polêmicos e famosos da história (parte dessa trama é vista do premiado O Discurso do Rei). No presente, acompanhamos a jovem Wally, que sofre por estar em um casamento fracassado até que fica fascinada pela história de Wallis e busca nela o exemplo para mudar de vida. Madonna, então, recheia sua trama com alguns clichês e situações forçadas, como o guarda-costa russo, culto e sensível, por quem Wally se apaixona ou o marido insensível e unilateral, que aparece na trama apenas para humilhar nossa protagonista. No fundo, W.E só ganha força com a história de Wallis e Edward, ao mostrar o outro lado e contar um belo caso de amor, capaz de alterar os rumos de uma nação.

W.E ganha força com a história real
As protagonistas, no fundo, possuem muito da própria Madonna. A cantora escreveu o roteiro quando estava no fim do casamento com o diretor Guy Ritchie, momento em que pipocavam na mídia boatos sobre as adoções feitas pelo casal e brigas constantes. Assim como Wally, Madonna se apegou desesperadamente na história de Wallis em busca da fórmula de um grande amor, tendo acesso as cartas que eles trocavam e estudando tudo sobre o casal. Foi então que ela percebeu que mesmo eles tiveram que aguentar o peso das escolhas e que não havia um final feliz. Nasceu a vontade de contar o “outro lado” da história e mostrar Wallis não como a vilã, mas a vítima da situação. A cena em que Wallis vê seu nome estampado nos jornais e sente-se julgada pelas pessoas que passam nas ruas, lembrar muito da própria Madonna, que sempre teve a vida dissecada pelos jornais e julgada pela opinião publica.  

A interpretação de Andrea Riseborough é um destaque, transformando Wallis em uma figura complexa, cheia de dúvidas e muito verdadeira. Outro ponto positivo é a parte técnica do filme, que mostra a obsessão de Madonna pelos detalhes e um time de profissionais gabaritados, como Arianne Phillips, responsável pelo figurino lindíssimo, indicado aos principais prêmios da categoria. A direção de arte ganha força nas cenas que exaltam o luxo e beleza da vida real. Já a edição pode causar um certo estranhamento inicial, com cortes rápidos e a tentativa de estabelecer um paralelo entre as duas tramas, sem ordem cronológica.

Comparação: W.E verdadeiro e da ficção
Madonna poderia ter feito um filme menor, algo menos pretensioso, como gravar um filme convencional sobre a vida de Wallis. No mundo de Madonna, entretanto, não há espaço para intimismos. Não podemos negar que ela foi ousada em se arriscar com tramas paralelas, narrativa não linear e com momentos delicados, como as cenas de agressão. W.E, dessa forma, é um bom filme, que vai crescendo e nos faz ter muita curiosidade pela história de Wallis e Edward. Se fosse lançado por outro diretor, talvez, o filme não seria massacrado pelos críticos e faria bem mais sucesso. Entre erros e acertos, Madonna revela-se uma diretora e roterista ousada, mas ainda bem menos interessante do que a cantora. A prova disso é o Globo de Ouro de melhor canção, para a bela Masterpiece, tema do filme. 

  

23 de outubro de 2011

Com "Sexo" e "Clímax" Erasmo e Marina voltam ao cenário musical



Como a música popular brasileira anda sem grandes ousadias, a tarefa de injetar um pouco de ânimo no cenário musical ficou para dois “veteranos” desse setor: Marina Lima e Erasmo Carlos. Os dois já até trocaram alguns selinhos numa premiação da MTV alguns anos atrás e chegam ao mercado com bons trabalhos que chamam a atenção pela dose de sensualidade nas letras e uma tentativa de modernizar o som desses dois artistas que andavam sumidos do cenário musical.

Marina, com seu Clímax, continua discreta e elegante em seus projetos, mesmo ao abordar sua busca por prazeres na metrópole com “noites de subir pelas paredes altas” na canção de abertura, Não me Venha Mais Com Amor. Marina parece ter aproveitado o contato intenso com a capital paulistana, sua nova casa desde que se mudou do Rio, apresentando um som revigorado, eletrônico e recheado de misturas sonoras em uma tentativa sincera de atualizar seu estilo. Essa é uma característica de quase todo o CD: a sensação de urgência, como se Marina depois dos 50 anos e da mudança de cidade estivesse ansiosa em aumentar o contato com as novidades musicais. Entres as canções, grande parte composições da própria cantora, destaca-se De Todas que Vivi, um dueto com Vanessa da Mata, em que cada cantora respeitou seu estilo de cantar e de interpretar a canção. São Paulo também ganhou uma homenagem em #Sampa Feelings, que chega a rimar Torá com Lady Gaga, para expressar como a metrópole paulista é cosmopolita. Outra parceria de sucesso no novo CD é a radiofônica Pra Sempre, com o vocalista do Skank, Samuel Rosa, que fecha o álbum de maneira mais calma, como se depois da agitação da cidade e dos questionamentos das relações modernas, Marina diminuisse o ritmo. Clímax é superior ao último trabalho de Marina, o também bom Lá Nos Primórdios, por representar, justamente, essa revitalização e novas parcerias no trabalho da cantora, fugindo dos clichês e dos padrões de outras cantoras brasileiras.

Já Erasmo Carlos continua a safra de bons projetos musicais, depois do elogiado Rock N' Roll, com o lançamento Sexo. Enquanto seus colegas da Jovem Guarda só gravam coletânias ou fazem shows bregas em Jerusalém, o “tremendão” aposta em letras repletas de sensualidade e um projeto ousado, a começar pela capa do cd: muito criativa e interessante. Depois da introdução da empolgante de Kama Sutra, música de Arnaldo Antunes que fala sobre as diversas posições sexuais do famoso livro indiano, Erasmo engata uma das melhores músicas do CD: Jogo Sujo, que chama a atenção por colocar a mulher como a interessada apenas por sexo, sem querer comprometimento amoroso. Essa “nova mulher”, mais interessada no prazer que em romance (que Marina também representa em seu novo disco) aparecerá em outras canções do álbum, como Apaixonado Anônimo. O cd perde um pouco do fôlego da metade para o final, com músicas que não contribuem musicalmente e que pouco acrescentam sobre o tema, muita vezes soando  muito parecidas entre elas. Entre os destaques das músicas mais "calmas" do disco estão Santas Mulheres, Seu Homem Mulher e Vênus e Marte.

Marina e Erasmo conseguiram produzir músicas atuais, fugiram de temas batidos e soam atuais sem apagar o histórico dos artistas e suas características principais. Em ambos os CDs, outro fator em comum chama a atenção: a busca por compositores novos, que injetam sangue novo nas produções. Adriana Calcanhotto, por exemplo, colabora com canções nos dois discos, com músicas acimas da média, que provam, mais uma vez, o talento de Adriana como compositora e sua capacidade de dialogar com diferentes ritmos e cantores.

Clímax e Sexo representam bons momentos nas discografias de seus autores por representarem um esforço em dialogar com questões modernas como sexo, vida urbana, amor... Erasmo e Marina, com todo os anos de carreira de cada, conseguiram ser mais relevantes e interessantes que grande parte dos cantores e cantoras que surgiram nos últimos anos. Mais uma vez, os "veteranos" ensinam como produzir obras de qualidade, com uma pitada de ousadia e sem perder a elegância. 

 
 

3 de setembro de 2011

Sinead O' Connor - Nothing Compares 2U


Na começo da década de 90, o mercado musical foi abalado pelo surgimento de uma cantora diferente de toda estética e sonoridade que rolavam nas paradas musicais do momento. Sinead O’Connor, com sua cabeça raspada e voz doce, era tão contraditória que agradou em cheio o público e os críticos especializados. Entretanto,  depois de declarações polêmicas e um aparente desequílibrio emocional, esse mesmo público abandonaria a cantora.  

Nascida na Irlanda, terra do U2 e do The Cranberries, Sinead O’Connor nunca pareceu muito interessada em se comportar como uma pop star comum. A cantora dava declarações polêmicas (como o apoio ao IRA), abandonava e voltava com a carreira e se dizia totalmente contraria aos modelos dos ídolos musicais e da preocupação com a aparência. De cabeça raspada, roupas mal cuidadas e um olhar inquieto que transmitia tristeza e uma revolta contida, Sinead tornou-se mundialmente conhecida com a canção Nothing Compares 2U, uma bela composição de Prince que ganhou na voz triste de Sinead sua versão definitiva e inesquecível. O clipe também ajudaria a lançar a cantora: no lugar de grandes produções ou ideias mirabolantes, temos um destaque no rosto de Sinead que se emociona ao cantar. A simplicidade renderia prêmios e influenciaria diversos outros clipes, entre eles Losing My Regilion do R.E.M.


No auge da fama, Sinead participou de popular programa americano Satuday Night Live e rasgou uma foto do Papa João Paulo II após cantar uma música de guerra e declarar que a aquele era o real inimigo. A cantora pagaria com a própria carreira esse insulto, já que depois disso grande parte do público americano, e mundial, deixou de acompanhá-la. O desequílibrio emocional da cantora ainda renderia resultaria em uma precoce aposentandoria musical. Uma pena, uma vez que Sinead tem uma das mais belas vozes de sua geração e sempre buscou ousar nas parcerias musicais, indo do reggae ao folk com maestria. 

Sinead expressa com a voz sua confusão de sentimentos, em um misto de sussuros doces e gritos de raiva. A autenticidade de Sinead serviria de exemplo para dezenas de outras cantoras posteriores. O talento da carequinha pode ser conferido em músicas como The Last Day of Our Acquaintance, Fire on Babylon, 1001 Mirrors, Success has made a failure of our home, entre as diversas participações em músicas de outros cantores e covers, normalmente acima da média, como Mother do Pink Floyd e Sacrifice de Elton John. 

Depois de abandonar e retomar com sua carreira musical diversas vezes, Sinead acabou saindo de vez da grande mídia e tornando-se uma lembrança um tanto empalidecida dos anos 90, restrita aos apreciadores de música alternativa. Dona de uma voz e visual únicos, a cantora  ainda faz músicas, mas parece pouco interessada em voltar aos holofotes. Cheia de atitude e uma mistura constante de fragilidade e agressividade, Sinead continuará, para sempre, sendo uma das mulheres mais transgressoras da música. 

 

 

13 de agosto de 2011

Madonna 53 anos - O que podemos comemorar?

Madonna no trono, como "Rainha do Pop" em sua última tour

Ela está velha, é feia, não tem talento, é chata, não causa mais polêmica, passou da hora de se aposentar, não sabe mais como chamar a atenção.... 

Essas são críticas comuns a Madonna Ciccone, ou só Madonna, como é conhecida no mundo inteiro. Mesmo se depois de mais de duas décadas como a “Rainha do Pop” não bastassem, Madonna ainda tem, e muito, o que nos dizer. Como um dos símbolos máximos da cultura pop, nenhuma outra cantora chegou aos seus patamares de popularidade, vendas ou influência. Se ela se aposentasse da música e dedicasse o resto dos seus dias sem fazer nada ou simplesmente lançando seus filmes, como diretora ou produtora, ainda assim, seria impossível menosprezar o talento dessa “loira ambiciosa”, que queria dominar o mundo na década de 80, gerou polêmicas nos anos 90 e começou o século XXI como a “mãe da re-invenção”.

O problema é que a cultura pop não tem memória. Os ídolos de uma geração são os astros decadentes da próxima década. Nisso, esqueceu-se que Madonna surgiu nos anos 80, época em que não existia Internet ou a troca tão rápida de informações, e soube, como poucos, reconhecer e dar ao seu público o que ele precisava no momento. No começo da carreira, por exemplo, ela era a expressão dos anos 80, no auge de seus excessos, influências do punk e um misto de inocência e malícia que conquistou rapidamente as paradas musicais do mundo inteiro. Mas isso não faria dela especial ou diferente, já que muitos outros artistas expressavam isso, com até mais talento para cantar e dançar. A jovem com sede de fama sabia que precisaria de algo a mais para se destacar...

Madonna e as "re-invenções" de sua imagem
Com o surgimento e popularização da MTV, como propulsor das novas tendências musicais e comportamentais para os jovens, Madonna e Michael Jackson foram pioneiros ao criarem videoclipes tão famosos que eram capazes de marcar mais que a própria música. Se com a televisão o mundo tornou-se ainda mais imagético, a força da música pop seria ligada diretamente a imagem que o artista representava. Não bastava só cantar, era necessário ter uma imagem forte o suficiente para gravar na cabeça dos adolescentes e fazer com que eles comprassem os discos e quisessem imitar as roupas, os gestos e o estilo de vida dos novos astros. Nisso, surgiram os primeiros personagens de Madonna, como a virgem que rola pelo chão sensualmente e a garota materialista que se inspira em atrizes de Hollywood para destruir corações.  

O segundo elemento que fez Madonna permanecer relevante por 25 anos, foi perceber a efemeridade da música pop e saber se "re-inventar" a cada tendência e novidade musical. No mundo de Madonna não há lugar para a repetição, mesmo com as coisas que fizeram sucesso. No lugar de  continuar com suas músicas como Holiday, a cantora foi mudando sua imagem, sonoridade e até postura ao longo do tempo. Dessa forma, quem vê a deusa do sexo simulando masturbação na escandalosa turnê Blond Ambition pode estranhar a imagem de guerrilheira politizada que se apresentava na divulgação de American Life ou a bruxa que voa pelo deserto no clipe de Frozen. Madonna, na busca pela re-invenção acabou flertando com a música country, com o rock, com a música alternativa, com o R&B, o dance e o hip-hop. O diferencial, é que essa mudança é sempre baseada em influências marcadas, com polêmicas inteligentes e que continuavam soando como Madonna. 

As várias faces de Madonna em duas décadas de carreira
Madonna muda porque a sociedade muda. Para o bem ou para o mal, ela é o que nós somos, como diz o título de seu documentário. Podem dizer que ela está velha ou fora da moda, mas a Rainha do Pop chega nesse mês aos seus 53 anos preparando mais um álbum de inéditas, que já desperta curiosidade e interesse na mídia e nos fãs do mundo inteiro, além de lançar seu longa W.E, em que foi diretora, produtora e roterista. Nesse aniversário, poderíamos apenas celebrar o que Madonna já fez, mas isso seria pouco para essa mulher que ousou debater publicamente sobre sexo, política e religião e ainda teve tempo de se acabar nas pistas de dança e curtir a vida. Não sabemos como será a nova Madonna, mas podemos deduzir que, de certa forma, ela refletirá o que somos.

“Em todo o meu trabalho, o objetivo é nunca ter vergonha: de quem você é, do seu corpo, dos seus desejos, das suas fantasias sexuais. (...) As pessoas têm medo de seus próprios sentimentos, medo do desconhecido. E o que eu estou falando é: Não tenha medo”  
Madonna

11 de julho de 2011

Comentário - Born This Way (Lady Gaga)

Lady Gaga é onipresente: ela está no rádio, na televisão, nos sites de notícias, no youtube... A cantora ficou tão famosa nos últimos anos que nem parece que antes de 2008 ela era praticamente uma desconhecida do grande público. Com Poker Face e Just Dance, a loira conquistou as paradas musicais e nunca mais saiu da mídia, emendando “escândalos” (como a famosa roupa de carne), figurinos bizarros e declarações polêmicas por onde passa. Com o cenário musical ávido por novidades e dominado por cantoras que não faziam nada de novo ou ousado, Gaga surgiu e já foi rotulada como a última revolução do pop, a única capaz de lançar tendência, gerar debate e ainda colocar suas músicas no topo do sucesso.

Depois do sucesso de The Fame Monster (que contou com o hit Bad Romance), Gaga teria a maior provação da carreira até agora: conseguir manter o sucesso e interesse dos fãs e da mídia com o segundo CD de inéditas de sua carreira. Mesmo com a pressão de alcançar os patamares anteriores, Gaga, como boa marketeira que é, não se intimidou e declarou que seu novo álbum seria o “melhor da década”, o “hino de uma geração”. Com o lançamento do aguardado Born This Way no final de maio, percebe-se que o novo trabalho, na verdade, é uma evolução de The Fame Monster, mas está longe de representar uma ruptura ou mesmo uma grande inovação no que a cantora já vinha produzindo.

Dessa forma, o CD aposta no caminho que Gaga já domina, com muitas músicas preparadas para agitar as baladas do mundo todo, com algumas misturas de ritmos e claras referências a outros artistas (é só lembrar da polêmica envolvendo Madonna e Express Yourself). Born This Way começa com muito folêgo, principalmente suas cinco primeiras músicas, mas que vai perdendo o gás depois da segunda metade, recheada com canções feitas sob medida para cumprir as exigências da gravadora e com pouco diferencial entre si, totalmente esquecíveis. Entre os destaques, estão Judas (que lembra muito a estrutura de Bad Romance), em que a cantora discute sobre amar a pessoa errada, Americano, em que Gaga evoca Gogol Bordello, Bloody Mary (a mais madônnica de todas as músicas de Gaga, tanto na letra quanto na melodia) e duas que prometem incendiar as pistas do mundo inteiro: Shibe (com passagens em alemão) e Goverment Hooker. O disco termina com a balada à Shania Twain, You and I e o próximo single da cantora, The Edge of Glory.


Um dos pontos favoráveis do CD é que podemos escutar melhor a voz da cantora, sem tantos efeitos quanto as canções da Kesha, Britney ou mesmo nas primeiras canções de Gaga em The Fame. No quesito letras, Born This Way acaba sendo bem mais pessoal que os outros trabalhos dela, debatendo sobre religião, amor e, principalmente, a necessidade da auto-aceitação, como proclama a faixa-título, que celebra a diversidade sexual. A cantora já declarou diversas vezes que nunca foi uma garota muito popular antes da fama e que sofria por não se encaixar nos padrões estéticos e comportamentais, essa é base de todo disco. Pode até soar um tanto clichê ou como auto-ajuda barata, mas mostra uma tentativa de Gaga em se expor e dialogar diretamente com os anseios de seus fãs, os "monstrinhos".

Diante de tantas expectativas e propagandas, Born This Way não cumpriu a revolução proclamada, mas também não compromete a carreira de Lady Gaga. Se por um lado, temos canções mais pessoais e que buscam trazer elementos de outros ritmos musicais, a sensação é que nenhuma música consegue superar Bad Romance ou Poker Face. Talvez, com mais tempo e sem tanta pressão da mídia e dos fãs, Gaga conseguiria criar um CD ainda mais pessoal e que pudesse, de fato, mostrar mais sobre a mulher que está por baixo do personagem e das roupas bizarras. Agora é esperar pela turnê (que pode passar pelo Brasil no ano que vem) e pelos clipes que a loira lançará. 

22 de maio de 2011

Comentário - Who You Are de Jessie J

Se você andou por fora das novidades da música pop nos últimos anos, só vai precisar ouvir o primeiro CD da cantora britânica que está indo bem nas paradas de sucesso: Jessie J.  Who You Are tem um pouco do sucesso do hip-hop, rapper fazendo participações em canções, uma pitada de rock e baladinhas que poderiam aparecer nas vozes de Kesha ou Rihanna. Isso pode até ser explicado pelo fato de Jessie ter composto várias músicas para outros cantores, antes de gravar suas próprias canções.

Fisicamente, ela pode até lembrar Katy Perry, usar roupas excêntricas à Lady Gaga, ter letras sobre o cotidiano feminino como Lily Allen, soar agressiva como Nicki Minaj e adora mostrar que tem uma bela voz, com exibições dignas dos candidatos do Ídolos. A maior qualidade da cantora parece ser justamente essa capacidade de combinar um pouco de tudo e conseguir soar natural, sem parecer uma cópia. Há até um certo frescor e atitude que parece ter agradado em cheio os críticos ingleses. 

No cd, destaca-se a faixa de abertura Price Tag, uma saborosa canção de introdução, seguida por uma das melhores do álbum:  Nobody's Perfect, em que a cantora relata sobre os momentos em que perde o controle e fica fora de si. Conhecida por falar o que pensa, sem se preocupar com a  opinião dos outros, a canção ganha força e brilha como um dos melhores momentos do cd. Tirando o single Do It Like a Dude (uma canção com mistura de hip-hop e que conseguiu ir bem nas paradas), e alguns outros bons momentos, o restante das músicas soam sem muita força ou pecam pelo excesso de firulas vocais. De maneira geral, Who You Are vai oscilando entre bons momentos, momentos medianos ou abaixo da média, mas que ainda conseguem mostrar que Jessie tem talento.

Além de começar a chamar a atenção do público, a cantora tem recebido elogios dos críticos, que destacam sua voz bem treinada, suas composições sobre a mulher moderna e o talento para misturar ritmos sem parecer com data de validade. Nesse primeiro álbum, por enquanto, fica a sensação de que ainda falta algo e a certeza de que a cantora ainda poderá render muito mais se ficar menos presa no que está sendo tocando nas rádios e se esforçar em soar mais como ela mesma.