15 de julho de 2010

Comentário Dogville de Lars Von Trier

Dogville é uma pequena cidade nas Rock Mountains, EUA. Neste pacato local, todos os moradores  vivem suas vidas sem grandes mudanças ou novidades. A tranqüilidade da cidade , entretanto, é abalada quando Grace (Nicole Kidman) pede para se esconder de perigosos gangsteres. Os moradores oferecem esconderijo por duas semanas, contanto que ela fizesse pequenas funções e trabalhos considerados inutéis pela comunidade. Aos poucos, os moradores passam a depender tanto de Grace que a tratam como uma escrava. O que no começo parecia uma cidade hospitaleira, transforma-se em uma verdadeira prisão para a moça, que vira algo de acusações, humilhações públicas, abusos sexuais e agressões física.

Em Dogville, as pessoas podem não ser o que parecem
Dogville, lançado em 2003, foi produzido como a primeira parte de uma trilogia que o diretor dinamarquês Lars Von Trier criou sobre os Estados Unidos. O diretor foi um dos criadores do radical movimento Dogma 95, no qual os filmes deveriam ser os mais realistas possíveis. Lars gera polêmica com suas obras, que abordam temas e situações delicadas, como no recente Anticristo (2009) que mostra multilações em closes escatológicos. Desta maneira, Dogville não é diferente das outras obras do diretor, que sempre procura mostrar a natureza cruel e mesquinha do ser humano.

O cenário de Doville é o grande atrativo deste filme: tudo que se vê é um enorme tablado com demarcações brancas no chão determinando os espaços, como “casa do Tom”, "jardim". No filme há apenas alguns objetos em cena, como cadeiras, camas e mesas. Essa falta de cenário, que pode até causar um certo incomodo inicial no expectador, oferece uma concepção única ao filme, já que podemos acompanhar o que cada morador da pacata está fazendo em quase todas as cenas, principalmente nos momentos mais tensos. Desta forma, o filme passa a impressão que estamos presenciando uma éspecie (bizarra) de reality show, em que os moradores são os participantes.

Para o sucesso deste projeto era necessário bons atores, que não colocassem a perder a sensação de que aquele lugar é realmente uma cidade. O elenco, que inclue Lauren Bacall, Paul Bettany e Stellan Skarsgard, oferece ótimas atuações, demonstrando sintonia entre eles, como se fosse vizinhos há décadas. O destaque é Nicole Kidman como a delicada Grace. A atriz, ganhadora do Oscar por As Horas, vive uma personagem que sofre diversos abusos e é explorada por todos da cidade e, ainda assim, parece manter sua ingenuidade e acreditar realmente na bondade do ser humano. Para ela, as pessoas só agem com crueldade porque vivem em condições díficeis e, portanto, merecem ser perdoadas. Nas mãos de uma atriz inesperiente, Grace seria uma personagem tola. Com Nicole, ela ganha status de heróina.

Dogville é bem diferente dos blockbusters americanos: quase não há trilha sonora, a duração é longa (mais de 170 minutos) e os elementos diferentes da produção, afastam os expectadores que querem um filme só para se divertir ou passar o tempo. A segunda parte da “trilogia” sobre os Estados Unidos, Manderlay, foi lançada em 2005 com Bryce Dallas Howard no papel de Grace, substituindo Nicole. A história continua a trajetória da personagem pelos Estados Unidos, entretanto, a sequencia não tem o impacto de Dogville, por diversos elementos, como um elenco diferente e uma história menos envolvente.

Com um final surpreendente e arrebatador, Dogville é uma obra única, que propõe debates sobre a forma que as pessoas abusam da força para tirarem proveito das outras, uma tentativa de mostrar o quanto o ser humano pode transitar do amor ao ódio, do acerto ao erro através de suas ações. Dogville pode estar mais perto do que imaginamos...

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