10 de março de 2015

Crítica - Madonna expõem dilemas com 'Rebel Heart'

Poucas artistas tiveram tantos ‘retornos’ e recomeços como Madonna. Dentro da proposta de se reinventar a cada trabalho, a cantora soube como poucos usar as saídas estratégicas para manter-se constantemente sendo ‘redescoberta’ pelo grande público e a mídia. Se hoje ela já poderia desfrutar soberana em um almejado (e disputado) trono do pop, Madonna parece genuinamente interessada em, mais uma vez, descer do Olimpo e provar que não é reverenciada como ícone pop há três décadas apenas por legado. A cantora quer provar que ainda consegue ser a mulher que desperta o interesse do público, fazendo aquilo que melhor sabe: ser controversa. É com o objetivo de recomeçar (mais uma vez), que Madonna apresenta seu décimo terceiro trabalho em mais trinta anos de carreira: Rebel Heart.

Depois da recepção morna ao último trabalho, MDNA (2012), que foi realizado entre a filmagem do filme W.E e o lançamento de uma linha de roupas (o que gerou protesto até do produtor William Orbit), Madonna pareceu bem mais focada na produção do álbum sucessor e chamou um verdadeiro ‘time’ de talentos em busca de uma nova sonoridade. Depois de quase um ano no estúdio, que resultaram as famosas ‘80 demos’, temos colaborações de artistas e produtores consagrados, como Avicci, Diplo, Alicia Keys, Kayne West, Pharrell Williams, Nicki Minaj (na sua terceira colaboração com Madonna) e o rapper Nas. Das novatas, Natalia Kills conseguiu deixar o som da veterana mais obscuro, enquanto a ‘amiga’ Miley Cyrus ajudou na composição de Wash Over Me. No meio de tantos nomes, até o ex-boxeador Mike Tyson conseguiu participar de uma das faixas (!?).

O álbum já se tornou um marco na carreira da artista por ser o trabalho que mais tempo levou para ser produzido (cerca de nove meses) e ter a divulgação atrapalhada pelos constantes vazamento de materiais ilegais. Em novembro, enquanto o álbum ainda era finalizado, Madonna teve o primeiro baque com a liberação de duas faixas, que seriam só o começo de outros vazamentos, terminando em cerca de 30 canções divulgadas de forma ilegal. Quase um mês antes do lançamento oficial, o álbum já finalizado caiu na internet, quebrando de vez a surpresa dos ajustes. Depois de esbravejar nas redes sociais, Madonna tentou reverter os vazamentos disponibilizando seis faixas do trabalho para venda digital, quase como EP de antecipação, mas é inegável que Rebel Heart chega já prejudicado e sem grandes surpresas.

Bastaram as seis músicas disponibilizadas no iTunes para a crítica eleger Rebel Heart como o melhor álbum de Madonna desde o sucesso de Confessions on a Dancefloor (2005). Ouvindo o trabalho completo, não é difícil analisar que ele se encontra à frente de Hard Candy (2008), em que a cantora tentava seguir a ‘onda’ do hip-hop ou do próprio MDNA (2012), que oscilava entre canções ‘maduras’ sobre o divórcio (como as queridinhas dos fãs, Gang Bang e Love Spent) e outras músicas genéricas e impessoais, em que a cantora tentava emplacar uma imagem juvenil (Some Girls, Superstar). Longe de serem os lixos descartáveis que os delatores tentam pintar, os últimos projetos de Madonna pecavam justamente por não conseguirem marcar uma sonoridade e imagem para cada era, servindo de base apenas para a divulgação da turnê, real foco da cantora na última década.


Rebel Heart acerta justamente no ponto fraco dos últimos trabalhos ao manter uma unidade sonora, como um álbum consistente, o que deve ter sido complicado visto a quantidade de pessoas que trabalharam no projeto e a duração da produção. Dessa forma, é possível encontrar no trabalho o lado ‘rebelde’ da artista, aquele que aos cinquenta anos ainda deseja festejar, falar de sexo e curtir os sabores da fama, ao lado da parcela mais ‘romântica’, recheada de baladas sobre desilusões amorosas, vulnerabilidade e superação pessoal. Como um álbum de contrates, definido pela própria cantora como o encontro da antiga Madonna com uma nova Madonna, há espaços para reflexões pessoais, sendo o trabalho mais autobiográfico de Madonna desde do belo American Life (2003) e relembrando em alguns momentos a sonoridade refinada e obscura do subestimado Erotica (1993).  

As primeiras faixas estão entre as melhores do álbum, com o primeiro single Living for Love, seguido de Devil Pray (sobre uma tenebrosa relação com as drogas) e as mais agitadas do projeto: com pegada reggae, Unapolegic Bitch se torna um novo hino pessoal de Madonna ao decretar-se uma ‘vadia sem remorso’, enquanto Bitch I’m Madonna poderia soar como o cúmulo do egocentrismo, mas não passa de uma divertida brincadeira pop com pitada de Nicki Minaj, ideal para lotar as baladas com coreografias. Iluminatti aproveita os boatos da ‘sociedade secreta’ que dominaria os rumos mundais e rende uma das melhores músicas do álbum, com produção luxuosa de Kayne West e tratando do assunto com ironia, combinando o nome das celebridades que supostamente fazem parte desse grupo secreto.


O restante das músicas oscilam entre baladas românticas, área que Madonna andava um tanto afastada, como Joan D’Ark (que fala sobre vulnerabilidade, algo raro quando falamos da loira) e as dramáticas Heartbreak City e Ghosttown (que provavelmente será o próximo single), enquanto outras canções abordam o lado ‘rebelde’ da artista, como S.E.X, Best Night e Holly Water, que convocam as mulheres para falarem abertamente sobre sexo, posições sexuais e a liberação da ideia de pecado. A própria voz de Madonna ajuda a separar essas temáticas, aparecendo mais calma e suave nas músicas românticas, enquanto nas mais sensuais há sussurros e um tom mais grave, utilizado na época de Like a Prayer e Erotica.

Em Rebel Heart, há também reflexões sobre a própria carreira, como em Iconic, que contém uma mensagem que é pura Madonna, sobre não desistir e manter um discurso contestador. Veni Vidi Vici é outra faixa autoreferente, que rima os nomes e trechos de outros sucessos de Madonna para fazer uma recapitulação da carreira, enquanto a faixa homônima, Rebel Heart, relembra o começo da carreira e a tentativa de ser provocante para chamar atenção, mesmo com a desaprovação do pai. Apontando para um futuro musical, Body Shop, uma das menos querida pelos fãs, é uma daquelas faixas em que a cantora testa novas sonoridades, misturando o ritmo oriental com uma letra metafórica sobre ser ‘arrumada’ em uma oficina corporal. Já Inside Out é um daqueles momentos em que a boa produção encontra uma letra interessante que coloca o amor completo, que incluí defeitos, imperfeições e cicatrizes. Uma posição madura, que nada lembra o som dance que Madonna tentou emplacar nos últimos anos e pode ser um bom indicio do que poderemos ouvir num futuro musical da veterana.


Completamente retrabalhada e agora pouco lembrando a demo focada em baladas, Wash Over Me ganha maior profundidade, sendo uma das faixas que mais expõem os dilemas atuais da artista, que canta ‘Quem sou eu para decidir o que deve ser feito?’ e prefere deixar ‘a chuva cair sobre mim’. É Madonna se colocando como uma ‘estranha’ no cenário atual, vivendo em um mundo contraditório em que ela deseja ainda ser relevante. Comparando com as músicas vazadas ou rejeitadas, é curioso observar que Madonna acabou cortando as canções mais sociais (Freedon, Revolution) para optar pelas dúvidas e contradições de seu ‘coração rebelde’. 

Longe de ser um Confessions 2.0, como muitos fãs esperam há anos, Rebel Heart dá um tempo nas canções-dance-escapista de Madonna e soa mais maduro e até mais calmo que últimos trabalhos da artista. Querendo provar que ainda pode se reinventar e se reapresentar para uma nova geração de fãs, Rebel Heart pode não se tornar um sucesso comercial já que não tem apelo radiofônico, mas prova que Madonna ainda está interessada em produzir, dialogar e criticar convenções. Em um sociedade que ainda boicota as músicas dela pela questão da idade, faz piadinhas com sua queda ou que a critica por simplesmente ser sensual com mais de 50 anos, ainda será necessário que Madonna quebre muitas barreiras antes de poder sentar-se confortavelmente no trono e apenas observar seu legado inegável dentro da cultura pop.


Obs: Lançado em três versões diferentes, caso não seja tão fã da cantora, pode escolher a versão Deluxe, com 19 faixas e as melhores músicas dessa nova fase. Aproveite!



8 de março de 2015

Com 'Are You The One' e 'Adotada', MTV foca em novo público

Não estranhe se beirando os 30 anos, você começa a assistir novamente a MTV. Focado nessa geração que ‘deu uma esticada’ na adolescência e ainda vive mais dilemas que certezas, dois reality shows do canal focam nesse grupo específico de telespectadores. Enquanto Are You The One é um reality de relacionamentos amorosos, com o objetivo de formar 10 casais ‘perfeitos’, Adotada foca nas relações (nem sempre agradáveis) em família e as diferenças entre criações.  

Se no começo dos anos 00 a MTV, ainda na era pré-youtube e banda larga, era a responsável por ditar as tendências e os ícones jovens, como os clipes que marcaram gerações e os comportamentos que seriam copiados, a emissora sofreu a decadência quando o acesso a música, vídeos e entrevistas se tornaram acessíveis a distância de um clique, no momento em que você desejar. Não tentando mais competir com a Internet ou retomar o espaço que um dia teve, o canal acerta a mão novamente ao oferecer entretenimento fácil e que refletem alguns comportamentos bem atuais, sem julgamentos ou lições de moral. 


Com 20 jovens bonitos, cheios de estilo e solteiros, Are You The One é um reality de formato estrangeiro com o objetivo de encontrar 10 pares ideais. Em uma época de Tinder, Grindr e Badoo, em que o match perfeito pode estar no clique certo, os solteiros são isolados em uma casa maravilhosa e devem encontrar a pessoa que, por testes de personalidade, foi escolhida como ‘par ideal’. Com a primeira temporada ainda em exibição, nos episódios acompanhamos competidores que tentam manter uma postura madura no primeiro momento, mas que logo se revelam ciumentos, egoístas e, muitas vezes, sem tanto conteúdo.  

Com provinhas sem criatividade (normalmente envolvendo os participantes com pouca roupa) e brigas ao nível de novela mexicana, Are You The One é um espelho das relações atuais, em que nem sempre o ‘par perfeito’ é a melhor escolha, já que não é raro os participantes se apaixonarem por candidatos que não são os seus indicados compatíveis. Também é curioso como em geral os jovens se mostram bem imaturos quando precisam conversar entre eles, expressar opiniões ou até mesmo argumentarem entre si. Não é raro ver homens se comportando como meninos, jogando capoeira, tentando ‘chegar nas meninas’ ou em rodinhas conversando sobre exercícios físicos, enquanto as meninas assumem a tarefa de arrumarem a casa, fofocarem entre si e cozinharem. Também não faltam inimizades entre elas, como quando uma menina propôs a troca de casais, objetivo do programa, logo foram as outras colegas ficaram contra ela começaram a taxá-la como ‘piriguete’. Em uma época de conquistas feministas, ainda falta uma mudança no comportamento e atitude de muitas mulheres, que ainda julgam quando uma delas falam abertamente de seduzir um homem e não espera que ele tome a atitude. 


Com a proposta de visitar uma nova casa e ‘ser parte da família’ por episódio, Adotada é outro reality que chama atenção por choques culturais e sociais. Maria Eugenia, produtora de moda, DJ e ex-namorada do Supla (que aparece em todos os episódios), é magra, bem produzida, antenada, veste as melhores grifes do mundo e chega aos 27 anos ainda querendo experimentar novidades. Com uma segunda temporada já marcada para estrear em abril, Adotada mostrou na primeira temporada cerca de 10 famílias diferentes, em que a ‘filha adotada’ teve que encarar o dia a dia de comunidades hippies, vendedoras de acarajé, mães obcecadas por disciplina e muitos filhos mimados. 

Seguindo a proposta do ‘Troca de Família’ ou ‘Super Nanny’, que busca o choque de gerações e criações para dar dinâmica ao programa, Adotada renova a fórmula por ser protagonizado por Maria Eugenia, que oscila entre momentos em que se diz ‘madura para a idade’, entre outros que parece disposta a ir curtir a balada com seus ‘irmãos adotivos’ e pouco se importar com as consequências do que fala. Marieu, como é chamada pelos fãs, também é autêntica em demonstrar um comportamento típico da nossa geração, ao defender seu discurso, mesmo que isso muitas vezes signifique ignorar outros argumentos ou ideias. No mesmo episódio em que defende um jovem homossexual e finge ser transsexual para o pai dele, com intuito de debater a diversidade sexual, ela dá risada em uma apresentação de dança em que mulheres acima do peso dançavam. 

Talvez sem o objetivo, a nova MTV acerta ao demonstrar os comportamentos dessa nova geração de jovens, que chega a idade adulta ainda oscilando com muitas dúvidas. Os programas se destacam justamente quando retratam essa inconstância tão comum em nossos dias e, sem dúvida, soam mais autênticos que outros programas desse gênero. Não se surpreenda se de repente, você também se ver torcendo para que aqueles jovens encontrem seus pares ideais, que Marieu entre em choque com novas famílias e que, pouco a pouco, retratem muito da sua rotina e te façam pensar em novos dilemas e possibilidades!