8 de março de 2015

Com 'Are You The One' e 'Adotada', MTV foca em novo público

Não estranhe se beirando os 30 anos, você começa a assistir novamente a MTV. Focado nessa geração que ‘deu uma esticada’ na adolescência e ainda vive mais dilemas que certezas, dois reality shows do canal focam nesse grupo específico de telespectadores. Enquanto Are You The One é um reality de relacionamentos amorosos, com o objetivo de formar 10 casais ‘perfeitos’, Adotada foca nas relações (nem sempre agradáveis) em família e as diferenças entre criações.  

Se no começo dos anos 00 a MTV, ainda na era pré-youtube e banda larga, era a responsável por ditar as tendências e os ícones jovens, como os clipes que marcaram gerações e os comportamentos que seriam copiados, a emissora sofreu a decadência quando o acesso a música, vídeos e entrevistas se tornaram acessíveis a distância de um clique, no momento em que você desejar. Não tentando mais competir com a Internet ou retomar o espaço que um dia teve, o canal acerta a mão novamente ao oferecer entretenimento fácil e que refletem alguns comportamentos bem atuais, sem julgamentos ou lições de moral. 


Com 20 jovens bonitos, cheios de estilo e solteiros, Are You The One é um reality de formato estrangeiro com o objetivo de encontrar 10 pares ideais. Em uma época de Tinder, Grindr e Badoo, em que o match perfeito pode estar no clique certo, os solteiros são isolados em uma casa maravilhosa e devem encontrar a pessoa que, por testes de personalidade, foi escolhida como ‘par ideal’. Com a primeira temporada ainda em exibição, nos episódios acompanhamos competidores que tentam manter uma postura madura no primeiro momento, mas que logo se revelam ciumentos, egoístas e, muitas vezes, sem tanto conteúdo.  

Com provinhas sem criatividade (normalmente envolvendo os participantes com pouca roupa) e brigas ao nível de novela mexicana, Are You The One é um espelho das relações atuais, em que nem sempre o ‘par perfeito’ é a melhor escolha, já que não é raro os participantes se apaixonarem por candidatos que não são os seus indicados compatíveis. Também é curioso como em geral os jovens se mostram bem imaturos quando precisam conversar entre eles, expressar opiniões ou até mesmo argumentarem entre si. Não é raro ver homens se comportando como meninos, jogando capoeira, tentando ‘chegar nas meninas’ ou em rodinhas conversando sobre exercícios físicos, enquanto as meninas assumem a tarefa de arrumarem a casa, fofocarem entre si e cozinharem. Também não faltam inimizades entre elas, como quando uma menina propôs a troca de casais, objetivo do programa, logo foram as outras colegas ficaram contra ela começaram a taxá-la como ‘piriguete’. Em uma época de conquistas feministas, ainda falta uma mudança no comportamento e atitude de muitas mulheres, que ainda julgam quando uma delas falam abertamente de seduzir um homem e não espera que ele tome a atitude. 


Com a proposta de visitar uma nova casa e ‘ser parte da família’ por episódio, Adotada é outro reality que chama atenção por choques culturais e sociais. Maria Eugenia, produtora de moda, DJ e ex-namorada do Supla (que aparece em todos os episódios), é magra, bem produzida, antenada, veste as melhores grifes do mundo e chega aos 27 anos ainda querendo experimentar novidades. Com uma segunda temporada já marcada para estrear em abril, Adotada mostrou na primeira temporada cerca de 10 famílias diferentes, em que a ‘filha adotada’ teve que encarar o dia a dia de comunidades hippies, vendedoras de acarajé, mães obcecadas por disciplina e muitos filhos mimados. 

Seguindo a proposta do ‘Troca de Família’ ou ‘Super Nanny’, que busca o choque de gerações e criações para dar dinâmica ao programa, Adotada renova a fórmula por ser protagonizado por Maria Eugenia, que oscila entre momentos em que se diz ‘madura para a idade’, entre outros que parece disposta a ir curtir a balada com seus ‘irmãos adotivos’ e pouco se importar com as consequências do que fala. Marieu, como é chamada pelos fãs, também é autêntica em demonstrar um comportamento típico da nossa geração, ao defender seu discurso, mesmo que isso muitas vezes signifique ignorar outros argumentos ou ideias. No mesmo episódio em que defende um jovem homossexual e finge ser transsexual para o pai dele, com intuito de debater a diversidade sexual, ela dá risada em uma apresentação de dança em que mulheres acima do peso dançavam. 

Talvez sem o objetivo, a nova MTV acerta ao demonstrar os comportamentos dessa nova geração de jovens, que chega a idade adulta ainda oscilando com muitas dúvidas. Os programas se destacam justamente quando retratam essa inconstância tão comum em nossos dias e, sem dúvida, soam mais autênticos que outros programas desse gênero. Não se surpreenda se de repente, você também se ver torcendo para que aqueles jovens encontrem seus pares ideais, que Marieu entre em choque com novas famílias e que, pouco a pouco, retratem muito da sua rotina e te façam pensar em novos dilemas e possibilidades! 

18 de fevereiro de 2015

Megapost: Entendendo Living For Love de Madonna


A crítica foi praticamente unânime em apontar ‘Living for Love’, produção dirigida por Julien Choquart e Camille Hirigoyen como o mais influente clipe de Madonna desde que a Rainha do Pop desfilou seu collant roxo em Hung Up e iniciou a onda do revival dance-disco-setentista. A cantora andava mesmo um tanto desleixada com as produções de videoclipes, área em que foi referência por anos e rendeu pérolas como Like a Prayer, Frozen, Bedtime Story, superproduções como Express Yourself, Die Another Day, além dos polêmicos e censurados Justify My Love e Erotica. Se na última era, Give me All Your Luving foi uma divertida crítica ao cenário pop atual, Girl Gone Wild e Turn Up the Radio passaram quase desapercebidas do grande público e não conseguiram marcar a identidade visual do álbum MDNA.  

Aparentemente uma produção simples, Living For Love acerta onde algumas das criações recentes de Madonna pecaram, criando imagens fortes, personagem marcante, além da referência ao passado da artista, ao mesmo tempo em que aponta para a vontade da cantora em dialogar com um novo público. O próprio lançamento do vídeo, o primeiro videoclipe lançado mundialmente pelo aplicativo Snapchat, já indica como Madonna está de olho em novos meios de divulgar seu nome para futuras gerações, especialmente os mais jovens que talvez ainda associem Madonna como a ‘rival de Lady Gaga’ e ainda não tiveram contato com o trabalho dela. 

Como todo lançamento de Madonna, mesmo um clipe aparentemente simples, revela significados e referências a outros trabalhos da artista, homenagens e marca uma mensagem de superação, como diz a letra da canção.

A LETRA


Living for Love foi definida pela própria Madonna como uma canção sobre triunfar logo após ter o coração partido, uma mensagem de superação. Não há espaço para martírios românticos ou vítimas: no novo single, Madonna adota uma postura de esperança quando as coisas não parecem tão bem e aposta no amor como o elemento motivador das grandes mudanças.

First you love me and I let you in
Made me feel like I was born again
You empowered me, you made me strong
Built me up and I can do no wrong
I let down my guard, I fell into your arms
Forgot who I was, I didn't hear the alarms
Now I'm down on my knees, alone in the dark
I was blind to your game
You fired a shot in my heart

No começo da música, Madonna descreve como deixou-se enganar por um relacionamento aparentemente perfeito, deixando de lado os próprios gostos e dependendo do outro para fortalecê-la, motivá-la. Com o rompimento dessa realidade, ela percebe que estava ‘cega para o jogo’ e agora terá que enfrentar sozinha o fim dessa relação e encontrar a automotivação para seguir em frente.  

Took me to heaven and let me fall down
Now that it's over
I'm gonna carry on
Lifted me up, and watched me stumble
After the heartache, I'm gonna carry on
Living for love
Living for love
I'm not giving up
I'm gonna carry on

No lugar de lamentar esse término ou se colocar como a vítima da situação, o refrão da canção revela a mensagem de superação, ao colocar o amor (próprio) como elemento motivador para não desistir e superar as adversidades. O amor que antes era dedicado para o outro, volta-se para si, sendo um elemento de mudança. 

I could get  caught up in bitterness
But I'm not dwelling on this crazy mess
I found freedom in the ugly truth
I deserve the best and it's not you
You broke my heart, but you can't bring me down
I was falling apart, what was lost, now I'm found
I picked up my crown, put it back on my head
I can forgive, but I will never forget

Já superado o fim desse relacionamento, há a libertação e a convicção de que ela merece 'o melhor', diferente da relação fracassada que estava vivendo. Encontrando a liberdade na 'feia verdade' e já fortalecida, ela não se deixa mais abalar por essa história, recolocando 'coroa em sua cabeça', encarando o problema de frente. Apesar de parecer uma história superada, há uma promessa: apesar de perdoar, ela ainda não é capaz de esquecer, aprendendo com essa situação.

As Touradas


Semanas antes do lançamento do clipe, quando ainda não havia a confirmação da temática, a cantora postou uma foto de toureiro em a conta do Instagram, com elogios a pose ‘sexy’ da imagem. Minutos depois, a enxurrada de críticas diziam que as touradas incentivavam a matança do touro por entretenimento e mesmo com a cantora tentando justificar que admirava a pose e figurino na foto, ela acabou deletando a imagem para não gerar ainda mais polêmica ou ter que ficar que justificando as postagens. 

Polêmicas, as touradas fazem parte da cultura espanhola e são recheadas de simbolismo, rituais e etapas. A tradicional imagem do homem duelando contra o touro com uma capa vermelha é apenas uma parte do espetáculo, que envolve riscos para todos os participantes. Nesse duelo tão próximo com o animal, os dribles com a capa servem justamente para o toureiro conseguir avaliar o porte, velocidade e força do touro, para decidir o momento ideal para desferir o golpe. A tourada espanhola, diferente de outras versões em países Latinos, termina com o animal morto, de preferência com uma morte rápida e com um golpe calculado. Se o toureiro der o golpe certeiro, o animal não permanecerá por mais alguns minutos vivos e será ovacionado pelo público presente. 

Além da polêmica dessa tradição aparentemente cruel, o meio ainda é dominado pelos homens, apesar de existirem mulheres que encarem uma arena. As reais toureiras ainda lidam com o preconceito de participarem de um ambiente predominante masculino e têm que viver de maneira centrada para serem bem-sucedidas e encarem os perigos da prática, como retratado em ‘Fale com Ela’, do diretor Almodóvar em que a personagem toureira é atropelada por um touro e entra em estado vegetativo.

Entre os significados que alguns adotam das touradas, está a luta entre o homem e o animal, a razão sobre o instinto e até o feminino contra o masculino. 

Madonna e os toureiros


Não é a primeira vez que Madonna se aproxima do universo das touradas: em 1994, com o belíssimo clipe de Take a Bow (que fez com que ela ganhasse o papel título em Evita), ela interpretava uma mulher apaixonada pelo toureiro, quase obcecada pela imagem viril que ele representa. Depois de finalmente seduzi-lo, ela era abandonada e terminava o vídeo sozinha, encarando que tinha sido usada pelo homem que tanto venerou. O clipe tornou-se uma referência na videografia da cantora, na época no auge da beleza e rendeu uma das baladas de maior sucesso da carreira, permanecendo no topo das paradas por semanas. 



O sucesso de Take a Bow fez com a cantora repetisse a dose e fizesse a primeira continuação de videoclipe da carreira com a balada You’ll See. Dessa vez, entretanto, a situação era inversa: o toureiro arrependido segue Madonna para pedir perdão, mas a cantora está decida em deixá-lo, viajando para longe. Na letra, ela insiste em que não perderá a fé no amor e irá encontrar forças para superar essa desilusão, sozinha. Quase em tom de ameaça, a faixa termina dizendo 'eu não preciso de ninguém dessa vez - você verá'. 


O Clipe

Décadas depois de deixar o toureiro no clipe de You'll See, é Madonna agora quem assume o papel de domadora. Se em Take a Bow e You'll See as touradas eram um ambiente viril e sedutor, dessa vez ela surge como um dramático palco de lutas, com status de libertação. Se no clipe clássico de 1994 ela se arrumava para seduzir o toureiro, dessa vez ela se apronta para a luta.


Com belos e detalhados figurinos criado sob coordenação de B. Åkerlund com a estilista alemã Verena Dietzel, conhecida por peças burlescas, Madonna surge sozinha no palco que simula uma arena de tourada cercada com cortinas vermelhas, treinado para a luta (espetáculo) que está para começar. Se antes ela sofreu de amor e prometeu que iria superar, em Living For Love ela retoma a mensagem de superação e força, dessa vez encarando de frente os 'minotauros' que adquirem o significado dos problemas passados, relacionamentos fracassados e até ex-amantes. 





Já fortalecida e confiante, acreditando no amor próprio como defesa, a cantora adota uma postura provocativa, encarando os minotauros e fazendo com que, um a um, eles a enfrentem e sejam domados na arena. Ao encarar os problemas 'de frente', ela prova que está além dessas adversidades e logo faz com que os minotauros sigam seu comando, seu ritmo, como se tomasse as rédeas da situação.






Depois de dominar seus problemas, Madonna aparece rapidamente com uma máscara de diamantes parecida com as dos minotauros, que por sua vez revelam seus rostos. Se antes eles eram intocáveis seres místicos, agora eles não passam de homens comuns. Abandonando o figurino de toureira, Madonna ressurge mais feminina, solta e vibrante, como se depois de controlar seus medos a cantora se libertasse e estivesse pronta para uma nova fase. Um dos minotauros até tenta seduzi-la (uma reconciliação?), mas logo é repelido pela cantora, que é elevada pelos seres como a vencedora da Arena. 




Como na tradição espanhola, os minotauros são mortos e Madonna surge vitoriosa no fim, sendo ovacionada pela platéia que acompanhava o espetáculo. Encarando os medos e acreditando no amor como o motivador de grandes mudanças (como diz a letra), o clipe traz elementos da carreira da artista e faz referência as coreografias e palco de Maurice Bejart, além de pequenas polêmicas como o incentivo as touradas ou aqueles que preferem acreditar que Madonna está enfrentando 'demônios' no clipe. Com uma produção aparentemente simples, mas repletas de detalhes, Living For Love marca o começo da era 'Rebel Heart' e prova que Madonna ainda está interessada em permanecer no imaginário popular com imagens impactantes e, como diz na canção: não irá desistir!    



24 de janeiro de 2015

American Horror Story - Elenco e personagens encantam, apesar de furos no roteiro


Quando surgiu em 2011, American Horror Story foi encarada como um teste do produtor Ryan Murphy, que na época  aproveitava a repercussão do sucesso Glee, a série do momento. Poucos acreditavam  no projeto, que tinha o objetivo de resgatar as histórias de terror e suspense na televisão, um vazio não preenchido desde o fim de Arquivo X. Com boa repercussão, American Horror se tornou uma referência, abrindo caminho para outras grandes produções de suspense, desde a elegante Penny Dreadful, passando pela acelerada The Stain, até produções que dividem opiniões, como Salem, Sleepy Hollow, As Bruxas de East End, Hemlock Grove e até Hannibal e Bates Motel. Agora, com o fim da quarta temporada, Freakshow, American Horror se consolida como uma das produções mais influentes da TV, apesar de ainda manter problemas na estrutura.

Com a premissa de contar uma nova história por temporada, sempre com cerca de 13 episódios, American Horror muda a trama anualmente, apresentando novos personagens para o mesmo elenco, que conta com ótimos atores em sintonia. Dessa forma, a série se beneficia em poder se adaptar-se aos temas que estão relevância, atraindo novos fãs a cada ano e não caindo no principal problema de séries atuais: com a necessidade de alongar as temporadas, muitas acabam perdendo o ritmo em episódios arrastados ou tramas que duram anos e poderiam ser resolvidas em alguns dias. O próprio Glee de Ryan não escapou dessa situação e chega na sexta e última temporada sem a repercussão e audiência dos primeiros anos.


Dessa forma, já acompanhamos a história de uma mansão assombrada e palco de assassinatos no primeiro ano, um manicômio cercado de mistérios na segunda (e melhor) temporada, um clã de bruxas lutando pela supremacia de New Orleans e um circo decadente de aberrações no quarto ano. O elemento em comum em todas as histórias é o talento de Ryan em criar personagens carismáticos e complexos, que despertam nossa rejeição e afeição na mesma medida, além de colocá-los em situações bizarras, que podem ir desde uma abdução, rituais voodo ou uma cena musical ao som de Lana Del Rey ambientada nos anos 50. Para rechear as tramas e aproximá-las da realidade, também não faltam referências e citações a celebridades da época, casos reais de crimes hediondos ou personagens históricos que aparecem constantemente na série, despertando nosso interesse em conhecer ainda mais detalhes da história. Na época da 'segunda tela', American Horror se beneficia em manter-nos sempre atento aos detalhes, em busca de pistas ou referências externas. 

Para interpretar personagens tão complexos, Ryan conseguiu reunir um elenco de primeira, de dar inveja a qualquer produção na TV e até mesmo no cinema, juntando na mesma cena talentos consagrados como Katy Bathes e Jessica Lange, além de destacar novos rostos como Emma Roberts e Gabourey Sidibe. Entre as descobertas da série, estão Evan Peters, Frances Conroy e Sarah Paulson, que integram o 'elenco fixo' e se destacaram como o assassino Tate, a bruxa fashion Myrtle Snow e a repórter trancafiada no manicômio, Lana Winters. Da quarta temporada, com o maior elenco até agora, Finn Wittrock foi quem se saiu melhor como o desequilibrado Dandy, que oscilava entre Psicopata Americano e Psicose. 

Entre todos os destaques, a série também marcou o retorno de Jessica Lange ao estrelato, muitas vezes apoiando-se em seu talento como chamariz. Desde que roubou a cena na primeira temporada como a vizinha misteriosa Constance, Jessica protagonizou os outros anos, sempre com personagens marcantes e representando mulheres fortes, que provaram como Lange é uma atriz completa, seja em tocantes sequências dramáticas, cenas musicais (como The Name Game, uma das mais lembradas pelos fãs) ou desfilando lingerie de dominadora sadomasoquista aos 65 anos. Anunciada como última colaboração de Lange na série, Elsa Mars, dona do circo de aberrações, foi a despedida em grande estilo, uma personagem que oscilava entre o egocentrismo e a vontade genuína de proteger seus 'monstros'. A versatilidade de Lange, obviamente, foi reconhecida com indicações ao Globo de Ouro e Emmy em quase todos os anos em que participou da série. 

Se por um lado a alternância de histórias contribuiu para manter a relevância da série, também resultou em seu maior problema: com uma quantidade grande de personagens e tramas paralelas, não é difícil encontrar erros no roteiro que resultam em situações que não são explicadas, personagens que somem quando não estão em destaque e episódios finais apressados, para conseguir concluir a narrativa elaborada. Das temporadas, Coven foi a mais prejudica por oscilações e personagens que praticamente mudavam o objetivo e importância na trama semanalmente, principalmente a personagem de Lange, que hora aparecia abatida por um câncer e em outros momentos simplesmente esbanjava mais vitalidade que todas as bruxas adolescentes. Além disso, a necessidade de ter praticamente uma morte 'surpreendente' por capítulo acaba tirando o impacto da informação e quando chegamos ao meio da temporada já estamos cansados de ver personagens secundários morrendo de forma inexplicável como desculpa para manter o interesse do público. 


Parecendo preocupados com as críticas, a última temporada manteve um ritmo melhor que Coven e brilhou nos episódios em que haviam citações aos casos reais, como aberrações da época ou homenagens a filmes como Freaks. A temporada também ganhou destaque por ser a primeira que estabeleceu conexões com as histórias dos anos anteriores, indicando que, provavelmente, as tramas se ligarão futuramente, com personagens consagrados estabelecendo esses ganchos. Apesar de melhor estruturada, não faltaram críticas, especialmente em alguns episódios que deixaram o suspense de lado e mergulharam em um drama digno de filmes de época, incluindo um cansativo discurso de igualdade social entre as aberrações e a sociedade. 

Com uma quinta temporada já confirmada (com boatos de que será uma história contemporânea sobre Hollywood ou abduções alienígenas) a expectativa é que American Horror consiga lidar com a possível saída de Lange (e ficar sem A protagonista) e encontre uma temática que ainda não tenha sido explorada nos anos anteriores, com situações e personagens interessantes. O próximo ano será decisivo em manter a série como uma das produções mais ousadas da TV e consolidar-se como uma referência, uma vez que cada vez mais produções de suspense e terror ganham as telinhas e a concorrência aumenta a cada ano. Dependerá de Ryan evitar os erros de ritmo e roteiro das últimas temporadas e dar mais do que o público quer: boas atuações, personagens interessantes, situações bizarras e aquela ansiedade causada pelas boas histórias de suspense (e se possível mais Jessica Lange cantando David Bowie, por favor).


9 de setembro de 2014

5 lições de RuPaul's Drag Race


Em meio a toda maquiagem, roupas coloridas e tramas previsíveis de reality show, RuPaul’s Drag Race mantém o sucesso após seis temporadas por também trazer lições valiosas sobre competição e superação de desafios que valem para qualquer pessoa, mesmo aqueles muito fora do circuito pop ou do mundo LGBT. 

Quase sempre vítimas de preconceitos e com histórias familiares nem sempre com finais felizes, os participantes do reality encontraram na transformação de drag queen a forma de se tornarem artistas admirados, expressarem os talentos e serem capazes de zombarem do próprio sofrimento, quando necessário. Entre as várias lições que podemos tirar do programar, algumas se destacam:

1 - Vale (quase) tudo para atingir os objetivos

Diferente de competições ou concursos de talentos específicos, em que vence o melhor cozinheiro ou ou cantor, em RuPaul’s Drag Race as competidoras devem saber costurar, cantar, dançar, fazer um show de comédia, imitarem as celebridades e ainda se maquiarem para arrasar nas passarelas. Entre os desafios semanais, há atividades individuais e em grupo e nesses momentos vemos que para ficar entre os melhores da semana vale de tudo: desde colar um vestido no próprio corpo com cola quente, reatar inimizades de anos com as rivais e até falar mal das amigas para os jurados. Fora os competidores que tiveram que aprender na marra como cantar ou dançar para não fazerem feio para os jurados, como Alaska (da quinta temporada) no desafio da dança ou Trinity K. Bonet  que superou a timidez para fazer um show de comédia stand-up na última temporada.  

2 -  Melhor Ousar que não Marcar

As últimas vencedoras do programa têm algo em comum: todas tiveram coragem de ousar e sair do padrão esperado para uma drag queen ‘tradicional’. Logo na terceira temporada, Raja chamou a atenção justamente por não se parecer com nenhuma competidora e trazer novidades para os desafios, sempre com sua pitada ‘fashion’ e boas referências da moda e cultura pop. Criticada por parecer ‘um homem de vestido’, Raja não usava os tradicionais enchimentos que algumas competidoras usam para deixar seu corpo mais feminino e apostava na estética andrógina, com o corpo bem magro e delgado para se destacar. Na última temporada, Milk também foi criticada justamente por não seguir uma estética mais feminina, aparecendo inclusive com uma barba postiça no primeiro desafio e de homem em outro. O preço, nesse caso, acabou sendo alto: Milk saiu na metade do desafio. Mesmo sem levar o grande prêmio, a drag figura fácil entre as mais marcante das últimas competidoras.  

3 - Confie e elabore o próprio estilo


Entre as participantes de RuPaul’s Drag Race há diferentes estilos e talentos: algumas se garantem na comédia, enquanto outras imitam celebridades perfeitamente e há ainda aquelas que se esforçam em parecer mulheres de verdade. Nem sempre as próprias competidoras entendem as outras e atritos acabam sendo inevitáveis, como na quarta temporada, com PhiPhi O’Hara e Sharon Needles, vencedora da edição. Sharon apresentava uma mistura ousada de estilos e sabia explorar como poucas sua estética gótica para vencer os desafios. Conhecendo o próprio potencial e talento, logo no primeiro desafio enquanto as outras competidoras apresentavam suas versões de guerreiras pós-apocalipse, Sharon entrou como um zumbi mutante, jorrando sangue pela boca e surpreendendo a todos, inclusive os jurados. Bianca Del Rio, a última rainha coroada, também soube como usar a comédia de insulto como diferencial, conquistando cada vez mais admiradores no caminho, até aqueles que ela tirou sarro. Definir e explorar um estilo ajuda a fixar a marca e mostrar aos outros os diferenciais.

4 - Tenha boas referências


Muitas participantes prejudicam-se por não estarem atualizadas ou conhecerem diferentes estilos de artistas, produções culturais ou mesmo personagens pop. Em desafios maiores, que exigem imitações, criação de roteiro ou interpretação, conhecer além do mainstream pode ser o fator determinante para o sucesso. A excêntrica Jinkx Monsoon, vencedora da quinta temporada, destacou-se ao escolher Edie de Grey Gardens em um jogo de imitações de celebridades. Enquanto as colegas imitavam cantoras pop contemporâneas como Katy Perry, Kesha e Taylor Swift, Jynks deu um show de atuação e improviso ao caracterizar-se como a prima decadente de Jackie-O. Mesmo com as colegas criticando a escolha, Jinkx manteve a opinião e soube usar o conhecimento para brilhar. No mesmo desafio na temporada anterior, Chad Michael também surpreendeu ao praticamente encarnar Cher e provar que além de uma boa ideia, é necessário pesquisa, preparo e dedicação para ter bons resultados. 

5 - Esteja preparado para dublar! 


Você lutou, tentou, se colou com cola quente e mesmo assim o resultado não foi dos melhores? Muitas vezes, essa pode ser a chance de dar a volta por cima e provar o valor e desejo de continuar na competição. ‘Na sua última chance de impressionar’, é necessário estar preparado para dublar ‘pela própria vida’. Nesses minutos derradeiros é necessário buscar força e motivação e não deixar que a concorrente chame mais atenção ou atraia os olhares dos jurados. Uma sílaba fora do tom pode ser o seu ‘sashay’ do prêmio. Nessa hora, a melhor coisa defender-se da maneira que você mais sabe e apostar no talento, seja com humor, interpretação ou simplesmente tirando a roupa. Só não vale tentar erguer a outra drag….  

10 de agosto de 2014

Lançamentos Musicais - Primeiro Semestre 2014

Shakira - Shakira

No novo trabalho da cantora colombiana é fácil perceber os momentos de Shakira apaixonada e inspirada e aquelas faixas que parecem ter entrado só para cumprir tabela. Da parte mais pessoal, o relacionamento com Piqué é o tema central, como fica evidente nas boas 'Broken Record' e '23', em que é possível até ouvir o riso de Milan, filho do casal. Como não poderia faltar, ainda temos momentos mais agitados, com a ótima (e quase esquecida) Chasing Shadows e o primeiro single, o dueto sensual com Rihanna, Can't Remember to Forget You, que apesar de não ter feito o sucesso esperado, figura como um das melhores faixas do álbum. Como a própria cantora admitiu ter se envolvido menos na produção musical dessa vez, fica a impressão de que várias faixas poderiam estar na voz de qualquer pop-princess e alguns momentos parecem sobras de outros trabalhos. Menos redondinho que o álbum anterior, Shakira tem boas músicas encobertas por produções sem personalidade, um pecado quando se trata da cantora colombiana mais querida do pop. 

Fernanda Takai - Na Medida do Impossível 

O novo álbum de Fernanda Takai merece destaque por não se parecer com os trabalhos do Pato Fu nem com o projeto anterior da cantora, com a releitura da obra de Nara Leão. Na Medida do Impossível, entretanto, está longe de ser uma ruptura: o estilo doce de Takai está presente nas 13 faixas do novo projeto e serve de fio condutor do trabalho, em que a cantora visita diferente estilos musicais. Seu Tipo, parceira com Pitty, é charmosa, enquanto A Pobreza (Paixão Proibida) ganha ares dramáticos para contar sobre um amor proibido. Outras parcerias também rendem bons momentos, indo de  Mon Amour, Meu Bem, Ma Femme com Zélia Duncan, passando pela bela Pra Curar Essa Dor com Samuel Rosa e até uma parceria inusitada com o Padre Fábio de Melo. Suave a agradável de escutar, Na Medida do Impossível, é um daqueles álbuns para deixar tocando e acompanhar a viagem musical de Takai, sem grandes variações ou surpresas. 

Silva - Vista Pro Mar

Depois de uma estreia aclamada, Silva passou rapidamente de 'relevação' para 'nova promessa da MPB'. Diante de tanta pressão, o cantor capixaba apresenta o segundo trabalho, Vista Pro Mar e firma seu posto na música brasileira, com canções 'ensolaradas' e bem produzidas. Menos variado que o ótimo Claridão, Vista Pro Mar é também e menos pop que o antecessor. A impressão que em busca de uma unidade sonora, algumas músicas acabam passando desapercebidas e demora para o álbum fixar na memória. O destaque continuam sendo as boas letras do cantor capixaba e a produção elaborada, longe do pop fácil das 'mais pedidas'. O destaque vai para o dueto com Fernanda Takai na ótima Okinawa.  

Lana del Rey - Ultraviolence

A musa dos clipes com filtros do Instagram passa pela prova do segundo álbum com seu Ultraviolence e prefere seguir a máxima de não mudar o time que está ganhando. Com um produção mais elaborada que Born to Die, o charme blasé de Lana, com sua voz sussurrada, continua sendo explorado ao máximo em músicas com sonoridade retrô como The Other Woman, Black Beautiful e o primeiro single West Coast, que já se afasta da imagem colorida de Katy Perry e demonstra essa evolução musical de Lana, contribuição de Dan Auerbach, do BlackKeys. Ultraviolence não mudará a opinião de quem acha Lana forçada ou tediosa, nem dos fãs que a veneram como uma musa, mas prova que a cantora encontrou seu nicho, estilo e sabe trabalhar muito bem dentro da sua proposta. 

8 de junho de 2014

True Blood - O que esperar da última temporada?

Após mais de sete anos, True Blood começará sua temporada final e, se por um lado a série já não está mais entre as mais populares do momento, por outro, ainda figura como uma das maiores audiências da HBO (apesar das quedas nas últimas temporadas) e deixou marcas na cultura pop, como uma das produções mais sensuais da atualidade e o retorno das histórias adultas com vampiros, mais próximos das criações de Anne Rice que Stephenie Meyer. 

Quando estreou, o conceito da série era bem interessante: com a criação de um sangue artificial, os vampiros revelaram-se e passaram a viver em sociedade, aprendendo a lidar com relacionamento entre mortais, disputas de poder e grupos de humanos que os caçavam (muitas vezes utilizando argumentos religiosos). Na série, os vampiros eram como um grupo de minoria, com uma diferença: o poder e sabedoria de séculos de existência. 

Em uma época em que a moda eram os jovens vampiros veganos, True Blood trouxe de volta o vampiro perigoso, poderoso e extramente sedutor, respeitando as regras ‘tradicionais’, como queimar na luz do Sol, precisar de sangue humano ou morrer com uma estaca no peito. 

A produção foi beneficiada com a fotografia elaborada e a direção de arte que se esforça em enfatizar o Sul dos Estados Unidos como um ambiente agressivo, dando a sensação de que estava sempre muito quente, úmido e, por isso, os personagens deveriam permanecer com pouca roupa a maior parte do tempo. O principal destaque, entretanto, não era nem a parte técnica, mas o elenco afiado e personagens carismáticos, como o cozinheiro travesti, a vampira recém-criada Jéssica ou a irônica Pan, um destaque que foi crescendo ao longo da trama sem perder seu mau humor habital e comentários pertinentes. Como triângulos amoroso rendem bons conflitos, True Blood também teve seus momentos, com a protagonista Sookie dividia entre o aparentemente bom-vampiro Bill e o ameaçador Eric, um dos queridinhos do público. 


É uma pena que esses bons elementos foram dando destaque à tramas paralelas que não acrescentavam nada à história ou resultavam em uma reviravolta que não condizia com o desenvolvimento das personagens, soando como tentativas forçadas em manter a atenção do espectador. Outro exagero foram os seres fantásticos em cena: em determinado momento, estávamos com uma quantidade enorme de vampiros, fadas, bruxas, metamorfos, lobisomens e até uma mênade disputando nossa atenção. Com os anos, True Blood revelou-se uma série com altos e baixos no roteiro, especialmente com a saída do produtor Alan Ball na quinta temporada, de longe a menos interessante.

Na sexta temporada, alguns elementos pareceram voltar aos eixos e prepararam caminho para uma última temporada intensa, novamente focada nos vampiros e sem tantas reviravoltas ou novos seres fantásticos. Para quem vai acompanhar as últimas aventuras de Sookie, talvez seja bacana relembrar os bons e maus momentos que a série passou nos últimos tempos e conseguir aproveitar esses últimos episódios em um misto de saudosimos e esperança de um final triunfante para os personagens de Bons Temps.

5 de abril de 2014

Comentário - Morte Súbita de J.K Rowling

Demorei para finalmente ler Morte Súbita. Tinha medo que o primeiro romance adulto da escritora de Harry Potter nos fizesse pensar que a saga do bruxo tinha sido mais um golpe de sorte do que talento. Besteira. Se o livro não é uma obra-prima avassaladora, ao menos comprova o talento de Rowling em criar histórias envolventes, universais e entreter o leitor. 

As diversas tramas se passam em uma pacata vila inglesa, em que os tradicionais moradores vivem uma aparente imutável rotina há décadas. Quando um dos membros mais carismáticos do local morre inesperadamente (como já anuncia o título), os segredos e mentiras construídos por anos começam a ruir e, pouco a pouco, os aparentemente impecáveis moradores do local começam a mostrar o lado mais…. ‘humano’. 

Como toda obra com várias histórias paralelas e diversos personagens, nem sempre há espaço para um bom desenvolvimento e algumas boas histórias acabam apressadas, desperdiçadas no meio do caminho para dar espaço para acontecimentos sem muita importância. Nesse sentindo, Rowling prefere criar dezenas de personagens típicos como a ‘dona de casa entediada’, ‘a vítima de preconceito’ ou ‘a adolescente problemática’ do que focar e desenvolver com complexidade alguma das histórias que montam seu quebra-cabeça. 


Da série que a tornou famosa no mundo inteiro, Rowling continua dando um destaque especial para os adolescentes e parece bem mais familiarizada a escrever sobre as angústias de jovens que querem sair da cidade pequena do que a crise de meia idade por que passam os personagens ‘maduros’. Os jovens, inclusive, protagonizam os principais momentos da trama e são responsáveis pelas grandes revelações. Os adultos, em geral, só reagem a esse acontecimentos.

Para certificar-se de que a história não seria confundida com seus livros anteriores, Rowling também parece ter passado por uma listinha de temas ‘adultos’ em cada capítulo, algumas vezes até forçando a mão em revelações e acontecimentos que parecem não levar a nada, como um estupro que pouco é comentado nas páginas seguintes.  

Com um ritmo lento no começo, em que cada personagem é apresentado dentro da rotina da cidade, Morte Súbita engrena mesmo quando os segredos começam a aparecer. Pena que quando já estamos íntimos daqueles personagens, com seus defeitos e características, a história termina um tanto apressada, principalmente diante dos acontecimentos finais. Para os que ainda estão em dúvida sobre Morta Súbita, pode ler sem medo e escolher dentre as diversas tramas, aqueles que você mais gosta ou se identifica.