Anvergers - Os
Vingadores não é
apenas um dos filmes mais esperados pelo fãs de quadrinhos de todos os tempos,
mas um verdadeiro acontecimento na história do cinema. É a primeira vez que
quatro franquias de sucesso se unem e formam um complexo quebra cabeça que
começou a ser montando depois da boa recepção de Homem de Ferro. Desde então, a
cada novo filme da Marvel eram plantados novos índicos de que a reunião de
todos aqueles heróis aconteceria em breve.
Se nos quadrinhos um herói aparece na revista
de outro com certa frequência, nos cinemas esse tipo de união é bem mais rara e
nunca teve uma grandeza como essa elaborada pela Marvel. Dessa forma, o sucesso
estrondoso de Vingadores foi resultande tanto da atenção de fãs de
determinados heróis, quanto aqueles que nunca acompanharam os outros filmes,
mas tiveram curiosidade pela união entre eles.
Diferente da densa trilogia Batman, calçada na
realidade e com questionamentos sobre a natureza dos heróis e dos vilões, ou
mesmo as questões sociais levantadas pela saga X-Men, com base no preconceito e aceitação das minorias, os filmes da
Marvel mantém o clima divertido e colorido dos quadrinhos. Em Os Vingadores
esse humor é extrapolado, aliado as cenas espetaculares de ação,
como o clímax em que Nova Iorque (já que não existe outra cidade no
mundo) é vítima de um ataque alienígena e cada herói é mostrado em ação para
defender a Terra, sem soar confuso ou cansativo como nos filmes dos Transformes.
Muitos criticaram o clima leve adotado pelo filme, mas desde quando é obrigatório ser
realista em um filme sobre heróis uniformizados com super poderes?
Dessa maneira, é melhor aproveitar o que o
filme tem de melhor. Se a trama é um tanto simples, aproveite as boas interpretações. Além disso, todo o elenco parece muito confortável em seus
personagens e conseguem equilibrar muito bem a participação de cada herói e
demonstrar sua personalidade, mesmo para quem não assistiu aos filmes solos. Dessa forma, Tony Stark continua arrogante e extremamente imprevisível
como o Homem de Ferro, entrando em conflito com o Capitão América, que ainda
está se adaptando com o mundo moderno e mantém sua postura de militar e símbolo
de resistência. Thor continua durão e com momentos de drama mexicano quando
encontra o vilão Loki. Já Hulk perde um pouco a densidade e questionamentos dos
filmes solos e parte para a pancadaria. Até os “humanos” como o Gavião e a Viúva
Negra têm seus destaques.
Os Vingadores, dessa forma, é um ótimo filme de
ação, um dos melhores produtos que vieram dos quadrinhos, com momentos
memoráveis e que não decepciona quem esperava há décadas pelo encontro desses
heróis nas telas do cinema. Clichê, emocionante e com humor, Os Vingadores fez tanto sucesso por dar
um grande espetáculo, da maneira que o público esperava. A expectativa é que
agora a Marvel possa se aprofundar nos personagens e criar tramas e filmes
cada vez melhores nas sequências e não depender, apenas dos efeitos e dos bons atores.
2012 parece ser o ano dos grandes
retornos musicais. Talvez seja o tão falado fim do mundo que está fazendo com que artistas consagrados voltem a lançar material inédito depois de anos. Ou
simplesmente uma vontade de se mostrarem para as novas gerações. Nesse “retorno”, que
envolve Madonna, No Doubt, Nelly Furtado, Lionel Ritchie e até Ritchie, duas
cantoras polêmicas lançaram bons trabalhos: Rita Lee com Reza e Sinead O’Connor
com How About I Be Me.
As duas, que a primeira vista não teriam muito em comum, estiveram envolvidas com escândalos por toda carreira, problemas com drogas, anunciaram a aposentadoria várias vezes e são reconhecidas pelo trabalho de qualidade e bem autoral. As duas cantoras também sofrem com o transtorno bipolar, que as fizeram perder a cabeça, publicamente, com declarações polêmicas, shows cancelados e problemas expostos na mídia. A última coincidência é que ambas lançaram recentemente trabalhos inéditos, que estão recebendo bom retorno da crítica.
Se no campo da
música pop Madonna mantém uma carreira icônica, no cinema a história sempre foi bem diferente. Ela desejava ser uma atriz premiada e reconhecida pela crítica (até
se casou com um ator talentoso e um diretor respeitado para lhe dar um
suporte), mas sempre foi motivo de chacota pelos colegas e detonada pela
crítica. Suas melhores interpretações são aquelas em que pode injetar um pouco
do seu próprio jeito e personalidade, como Procurando Susan
Desesperadamente, Dick Tracy e Evita. Depois de abandonar a carreira de atriz,
Madonna não desistiu do cinema e agora dirige filmes, ainda sem o sucesso e reconhecimento
esperado.
Chegamos então a W.E – O Romance do Século, o
segundo longa-metragem da cantora que foi lançado ano passado em festivais. Madonna mostrou-se tão obsessiva por esse
projeto quanto na época de Evita, chegando a abandonar a música por alguns anos
para escrever o roteiro e dar atenção a cada detalhe, da
escalação do elenco até os figurinos que seriam utilizados em cada cena. Lançando com fracasso no mercado internacional e avacalhado pela crítica, o filme chegou ao Brasil nesse ano, em poucas salas, em geral no
circuito alternativo. Depois de conferir W.E, entretanto, podemos comprovar que entre erros e acertos, há uma bela história.
Madonna como diretora: atenção aos detalhes
Para o bem ou para o mal, o nome Madonna é mais
forte que qualquer coisa que ela faça. Fãs irão assistir e comprar o que ela fizer, preparados
para amar, enquanto quem não gosta ou vai se recusar a assistir ou vai assistir apenas para apontar os defeitos. Aposto
que muitos críticos já tinha a resenha pronta antes mesmo de irem à première. A mídia
brasileira, entretanto, foi mais branda e menos afetada que os comentários dos festivais e apontou o óbvio: Madonna não é um Woody Allen, mas faz um filme com atenção aos detalhes, imagens fortes e boas atuações.
A trama é quase um Julia e Julie com toques
mais dramáticos: acompanhamos a história real de Wallis Simpson, plebéia e
divorciada por quem o rei Edward VIII abdicou o trono. O romance se tornaria
um dos casos mais polêmicos e famosos da história (parte dessa trama é vista do
premiado O Discurso do Rei). No presente, acompanhamos a jovem Wally, que sofre por
estar em um casamento fracassado até que fica fascinada pela
história de Wallis e busca nela o exemplo para mudar de vida. Madonna, então, recheia sua
trama com alguns clichês e situações forçadas, como o guarda-costa russo, culto
e sensível, por quem Wally se apaixona ou o marido insensível e unilateral, que
aparece na trama apenas para humilhar nossa protagonista. No fundo, W.E só ganha força com a história de Wallis
e Edward, ao mostrar o outro lado e contar um belo caso de
amor, capaz de alterar os rumos de uma nação.
W.E ganha força com a história real
As protagonistas, no fundo, possuem muito da
própria Madonna. A cantora escreveu o roteiro quando estava no fim do casamento
com o diretor Guy Ritchie, momento em que pipocavam na mídia boatos sobre as
adoções feitas pelo casal e brigas constantes. Assim
como Wally, Madonna se apegou desesperadamente na história de Wallis em busca da fórmula de um grande amor, tendo acesso as cartas que eles
trocavam e estudando tudo sobre o casal. Foi então que ela percebeu que mesmo
eles tiveram que aguentar o peso das escolhas e que não havia um final feliz. Nasceu a vontade de contar o “outro lado” da história e mostrar
Wallis não como a vilã, mas a vítima da situação. A cena em que
Wallis vê seu nome estampado nos jornais e sente-se julgada pelas pessoas que
passam nas ruas, lembrar muito da própria Madonna, que sempre teve a vida
dissecada pelos jornais e julgada pela opinião publica.
A interpretação de Andrea Riseborough é um
destaque, transformando Wallis em uma figura complexa, cheia de dúvidas e muito
verdadeira. Outro ponto positivo é a parte técnica do filme,
que mostra a obsessão de Madonna pelos detalhes e um time de profissionais gabaritados, como Arianne Phillips, responsável pelo figurino
lindíssimo, indicado aos principais prêmios da categoria. A direção de arte ganha força nas cenas que exaltam o luxo e beleza da vida real. Já a edição pode causar um certo estranhamento inicial, com cortes rápidos e a tentativa de estabelecer um paralelo entre as duas tramas, sem ordem cronológica.
Comparação: W.E verdadeiro e da ficção
Madonna poderia ter feito um filme menor, algo menos pretensioso, como gravar um filme convencional
sobre a vida de Wallis. No mundo de Madonna, entretanto, não há espaço para intimismos.
Não podemos negar que ela foi ousada em se arriscar com tramas
paralelas, narrativa não linear e com momentos delicados, como as cenas de agressão. W.E, dessa forma, é um bom filme, que vai
crescendo e nos faz ter muita curiosidade pela história de Wallis e Edward. Se fosse lançado por outro diretor, talvez, o filme não seria massacrado pelos críticos e faria bem mais sucesso. Entre
erros e acertos, Madonna revela-se uma diretora e roterista ousada, mas ainda bem menos interessante do que a cantora. A prova disso é o Globo de Ouro de
melhor canção, para a bela Masterpiece, tema do filme.
Não é muito fácil ser fã de Madonna. A cantora costuma dar um bom tempo entre um projeto e outro e nunca sabemos muito bem o que esperar da sonoridade e estética que será adotada. O fãs do pop fácil de Like a Virgin podem não curtir os excessos da fase Erotica, enquanto os amantes da maturidade de Ray of Light podem não gostar do clima de balada de Confessions on a Dance Floor. Com MDNA, novo lançamento da cantora, grande parte dos fãs deverá ficar feliz já que Madonna parece fazer um belo resumo de toda a carreira e lembrar as várias fases e sonoridades que adotou nesses quase trinta anos desde que Everybody foi lançada.
Como o nome anuncia, o tema desse novo álbum é a própria Madonna, com objetivo de mostrá-la como uma cantora/compositora multifacetada, como representa a belíssima capa do encarte. Se Hard Candy (último trabalho de inéditas lançado em 2008) dividiu opiniões e foi acusado de “não soar como Madonna”, MDNA traz a cantora reinventando suas antigas personas (coisa que outras cantoras tentaram ao longo dos anos) e admitindo que está disposta a brigar pelo trono da música pop. Para tal façanha, a cantora contou com alguns truques, como a escolha dos produtores e dos profissionais que trabalharam nesse projeto, incluindo a dupla de fotógrafos Mert & Marcus e o diretor de arte Giovanni Bianco.
Os dois principais produtores do disco são Martin Solveig (do hit Hello) e o antigo colaborador, William Orbit (o mesmo do aclamado Ray of Light). Solveig é um dos produtores da moda, de letras fáceis e batidas dance que “fazem as pessoas sorrir”, como definiu a cantora. Já Orbit é conhecido pelo experimentalismo nas produções e por arrancar as letras mais pessoais e tristes da Material Girl. Dessa forma, os dois oferecem trabalhos quase opostos, de alegria e tristeza, futuro e passado. Esse é o grande trunfo e, ao mesmo tempo, problema de MDNA: soar quase esquizofrênico, com cada faixa apontando para uma direção, indo da agressividade (Gang Bang/ I Don’t Give A) à inocência (Superstar/ Bday Song), passando por momentos de pura diversão despretensiosa (GMAYL/ Girl Gone Wild). A variedade de ritmos também ajuda a lembrar o quanto Madonna adotou novos estilos na carreira, com pitadas de rock, dance, hip-hop, R&B e até música country.
Outro aspecto positivo de MDNA é ser o cd mais pessoal da cantora desde American Life, com destaque para o fim do casamento com o diretor Guy Ritchie e a dificuldade de manter a rotina de cantora, empresária, diretora de cinema, mãe de quatro filhos e uma das mulheres mais famosas e comentadas do mundo. Se em I Dont’Give A a cantora parece sem arrependimentos pelo fim do casamento e até diz “tentei ser uma boa garota/ tentei ser uma boa esposa/ diminuindo a mim mesma/ engolindo minha luz”, em I Fucked Up ela assume a culpa pelo fracasso da relação e declara “estou arrependida/ não tenho medo de admitir/gostaria de voltar/ mas não posso”. Essa dualidade permeia todo CD e marca o retorno da Madonna contraditória, politicamente incorreta e irônica, com menos lições da Cabala e mais questionamentos.
Entre as faixas, algumas se destacam pela mensagem ou pela boa produção. O CD começa com o segundo single, Girl Gone Wild, que apesar de não ser a melhor ou a mais original, introduz bem a sonoridade dance que domina o projeto e nos faz lembrar da própria Madonna, com a letra sobre uma menina católica que “pira” na pista de dança e se assume uma "má-garota" (lembrando o ínicio da carreira com Like a Virgin e Like a Prayer). A segunda faixa é a primeira surpresa: Gang Bang, originalmente composta por Mika, foi totalmente transformada com sons de tiros misturados com batidas dubstep, enquanto Madonna entre sussurros e gritos canta como em Erotica. A letra é dramática o suficiente para dizer “achei que você era quem eu amava mais/ mas só estava mantendo meu inimigo por perto”.
I'm Addicted é a mais dance do CD, com pitadas de Daft Punk e sonoridade futurista que embala uma comparação entre o efeito do amor e do ecstasy, em que Madonna diz que sentimentos são como drogas e ela nunca se sente satisfeita. Turn Up the Radio tem cara de hit-pop do álbum, momento em que Solveig cria uma música deliciosa, daquelas para ouvir no carro, na balada e no rádio, em alto volume (essa dica vale para todo o cd: ouça alto!). I Dont Give A é uma ótima surpresa pela mistura de pop e hip hop, reforçada pela participação da rapper Nicki Minaj e um coral no fim que celebra a coroação da Rainha do Pop. O último grande destaque é Love Spent, que soa bem diferente da preview: uma típica música de Orbit, marcada pela letra madura sobre amor e dinheiro que questiona "você se casaria comigo se eu fosse pobre?"
O restante, incluindo as faixas do CD bônus, variam entre músicas muito boas (I'm a Sinner, Falling Free) e outras medianas (Some Girls,Best Friend). O estranho é notar que a música mais fora do contexto do álbum é o primeiro single, Give Me All Your Love, que apesar da letra irônica, clipe bacana e ter funcionado muito bem ao vivo, soa um tanto perdida entre as outras. Masterpiece, vencedora do Globo de Ouro de melhor canção pelo filme W.E, é muito boa, mas poderia ficar como bônus e dar espaço para I Fucked Up, que estaria ainda mais dentro da proposta do álbum.
MDNA, dessa forma, não é uma obra-prima como Like a Prayer ou Ray Light, mas é um ótimo trabalho que lembra a energia de Music, por exemplo. Tem tudo para agradar quem não gostou do resultado de Hard Candy. Vale a pena uma conferida, especialmente a versão dupla, que contém boas músicas. Aos 53 anos e quase três décadas de sucesso, Madonna ainda desperta a atenção da mídia e oferece um CD de qualidade, bem produzido e com músicas que não apelam para o passado. Com dois clipes bacanas e uma nova turnê mundial que promete ser sua maior, Madonna parece disposta, mais do que nunca, mostrar que ainda consegue dar as cartas nesse cenário pop. Nicki Minaj dá a mensagem que parece resumir muito bem o objetivo desse álbum: “só existe uma rainha, e ela é Madonna! Bitch!”.
De repente virou obrigação gostar de Adele. Não curtir ou não ligar para cantora se tornou sinônimo de mal gosto musical. Mas, de verdade, precisamos gostar de Adele?!
Ok... ela canta bem, tem músicas com boa produção e faz um estilo que andava esquecido nas paradas de sucesso, com baladinhas de cortar os pulsos e todo jeitão de diva do passado (um tanto forçado em alguns momentos). O único problema é quando a popularidade sufoca o talento. Explico: boa parte dos apreciadores atuais de Adele passaram a gostar dela não por admirarem as qualidades da artista, mas por que ela está na mídia, lançou DVD, ganhou alguns prêmios (seis Grammy só em uma noite) e tem uma música como tema da protagonista da novela Fina Estampa. Muitos gostam de Adele sem nem entender que Someone Like You é sobre a dificuldade de superar o fim de um relacionamento e não uma declaração de amor.
Adele faz sucesso por representar um tipo de cantora que andava em falta no mercado musical: a diva para adultos. Perry, Gaga, Rihanna e Beyoncé fazem sucesso com a moçada que curte músicas para cantar no banho e se acabar na balada. Para o público que não gosta desse tipo de música, fazia algum tempo que não surgia uma cantora com produção caprichada. Adele apareceu no momento certo e nem precisou muito para a mídia colocá-la como A cantora do ano, A salvação da música.... O sucesso de Adele vem, em parte, por ser a única na atualidade que faz um trabalho parecido com o que outras cantoras fizeram, como Mariah Carrey e a própria Whitney Houston, ao evocar as grandes divas do soul e trazer esse som para o grande público.
Além disso, é fácil e nada comprometedor ser fã de Adele. Ela parece nossa vizinha gordinha, sorridente que ficou mal por perder o namorado. Ela não é tão adolescente quanto Katy Perry ou Rihanna, não cria polêmicas como Madonna e está longe das bizarrices de Lady Gaga. É uma garota comum, um pouco acima do peso e que se veste sempre com roupas pretas no estilo "senhora". É muito mais fácil para o público se identificar e gostar dela do que de outras. Amy Winehouse, por exemplo, cantava tão bem quanto, tinha letras ainda mais pessoais, produção impecável e um visual singular, entretanto, as polêmicas envolvendo prisões, bebidas, drogas e barracos públicos acabaram afastando o grande público e abafando o talento da cantora. Florence + the Machine tem uma sonoridade ainda mais elaborada, uma estética própria e presença de palco incrível. O problema!? Florence soa alternativa de mais para tocar nas rádios ou ter o clipe nas listas do TOP 5 da MTV.
Não sou contra o sucesso de Adele, mas precisamos ter senso crítico e saber diferenciar o que é mídia dizendo "Adele é ótima" e o quanto realmente ela é ótima. Muito menos devemos defender os discursos de “Adele não liga para aparência, só para a música”, “Adele não quer fazer sucesso, quer ser alternativa”... a prova máxima disso são os cabelos mais loiros e os quilos a menos que a cantora exibiu na noite do Grammy. Fora as declarações um tanto contraditórias que ela apresentou, como as férias que iria tirar e depois se arrependeu...
Ainda é cedo para saber se o sucesso vai durar ou se estamos diante de um novo “fenômeno passageiro”, mas o melhor de tudo isso foi ver que a indústria musical ainda consegue vender bem quando o artista cai nas graças do público. Para os pessimistas que diziam que a internet acabaria com a música, Adele provou que é possível vender bem em cima de uma boa reputação. Desejo sucesso para Adele e que ela consiga surpreender o público com o próximo trabalho e, quem sabe, provar que a popularidade tão grande não foi questão do momento, mas merecimento.
Depois de quase dois meses o programa Mulheres Ricas chegou ao fim na segunda-feira passada. Exibido pela Band durante as férias do CQC, o programa pegou o público de surpresa com a proposta de “mostrar o dia-a-dia de luxo de cinco mulheres ricas”... quase a versão televisiva da revista Caras. Apesar de aumentar, e muito, o ibope da emissora nesse período, o programa foi muito criticado por não agregar valores culturais e só exibir o consumo desenfreado das protagonistas. Aquele velho (e chato) discurso de “em um país com tata desigualdade social elas deveriam ter vergonha de gastar tanto” foi repetido à exaustação. Sinceramente, adorei Mulheres Ricas e aposto que a maior parte dos críticos nunca assistiram ao programa. Se assistissem, veriam que a maior qualidade de Mulheres Ricas foi não se levar muito a sério e tirar sarro de si mesmo e das protagonistas.
A primeira questão que me incomoda quando criticam Mulheres Ricas e o discurso de “deveriam mostrar a realidade brasileira”. Desde quando a realidade brasileira é só favela e pobreza?! Hello! (Como diria Val Marchiori). Somos um país desigual, mas temos gente muito rica nesse país: pessoas com poder aquisitivo para fazer o que quiserem, quando querem. Nada mais justo que a TV também mostre a vida deles. Para quem reclamou da falta de conteúdo, o programa até mostrou dois exemplos de superação: Debora Rodrigues e Val Marchiori são mulheres que saíram da pobreza e conquistaram uma posição financeira e social de destaque (ok, não vamos discutir os possíveis métodos...).
Elas dão a sensação ao telespectador que é possível, quem sabe, um dia fazer parte daquele grupo. Talvez algumas pessoas assistiram ao programa justamente para se imaginarem fazendo parte do “rich man world” (para citar ABBA). Outros, como eu, assistiam para rir das figuras quase caricaturescas que essas mulheres representavam, tipos de ricas bem definidos como a “barbie do botox”, a “emergente grosseira”, a “neurótica”, a “alienada” e a “que não ficou iludida pela fama e fortuna” (aham, cláudia senta lá).
A arquiteta Brunete era a típica “madame do botox” que só se interessa por rapazes jovens e reclama quando o amor não é correspondido. Iludida e um tanto inocente, ela realmente acreditava que todas eram amigas no programa, enquanto Val destilava seu veneno e vivia xingando-a nos comentários. Lygia, a joalheira, mostrou que mulheres ricas trabalham, e muito, mas também tem tempo para frequentar grandes eventos sociais, usar fantasias sexuais para o marido, presentear os amigos e fazer TODAS as vontades dos filhos mimados (como ela mesmo definiu). Debora Rodrigues é a ex-sem-terra que agora dirige caminhões em corridas e faz questão de dizer que não se ilude com os prazeres da fama (apesar de ter sido quem mais mudou de postura ao longo do programa, indo de “dona de casa comum” para produções glamourosas e até uma sessão de fotos). Narcisa protagonizou momentos divertidos, com sua filosofia de vida... única... e uma aparente falta de coerência nos discursos, como se estivesse sempre alienada, em um mundo paralelo onde repetir “Ai que loucura” e “Ai que absurdo” parece fazer sentido. O sorriso característico para terminar as frases (até as mais tristes) marcou o programa.
Não podemos negar que Val foi o destaque, com o papel da emergente grosseira, que agora tem pavor do passado de pobreza e passa cada minuto do dia tentando provar o quanto é rica. Ela deseja esbanjar uma realidade fake, mostrar que o dinheiro pode comprar qualquer coisa e ter dramas como “meu vestido de festa ainda não chegou da Itália”. A loira é cercada por amigos falsos, que desfrutam da fortuna dela, sem nem disfarçarem o quanto são comprados. Ela mostrou-se indelicada e grosseira, até com as colegas do programa: nos comentários ela tentava alfinetar as amigas, como se precisasse se reafirmar no mundo das ricas. Val, no fundo, representa o pensamento de muitas pessoas, de que não precisa ser esperta ou educada, o importante é ter dinheiro e ser superior aos outros. Com a tacinha de champanhe na mão e roupas de alta-costura modeladas em seu corpo turbinado, ela se tornou um resumo perfeito dos defeitos das novas ricas: consumista, sem cultura e com vontade de humilhar os pobres.
Mulheres Ricas teve momentos bregas e cenas divertidas que transformaram as protagonistas em celebridades que estapam capas de revistas e sites de fofocas. Enquanto BBB exibe pessoas sem conteúdo querendo ser ricas, prefiro assistir pessoas sem conteúdo que podem e compram Chanel e desfilam por ai fazendo o que a maioria das pessoas tem vontade de fazer e compram o que a maioria dos mortais nunca consiguirá. Foi ótimo para mostrar para muitas pessoas que se acham ricas e poderosas só por "comprar uma tv de plasma, um carro, GPS", que há pessoas realmente ricas e poderosas. Se teremos uma próxima temporada ainda não sabemos, mas foi divertido (e nada instrutivo) acompanhar as protagonistas bebendo champanhe, comprando roupas de grifes e frequentando festas e os lugares da moda. Deliciosamente alienante, divertido e fútil. Que pecado há nisso?
O Estranho Mundo de Tim Burton não é uma biografia convencional, até porque Tim Burton não é um diretor ou homem muito convencional. O livro, na verdade, é uma reunião de análises, críticas, entrevistas e depoimentos sobre os mais de 20 projetos que ele esteve envolvido (como diretor ou produtor) desde que começou a carreira com curtas-metragens na Disney. Alguns detalhes da vida pessoal de Tim são abordados, como o relacionamento complicado com os pais, alguns namoros e, principalmente, a infância do diretor. Esses detalhes ajudam a desvendar alguns aspectos dos filmes, como os temas sombrios e os personagens estranhos que ele tanto gosta.
Como um livro de vários autores, algumas análises são ricas em detalhes e nos oferecem curiosidades dos bastidores, aspectos da vida pessoal do diretor e entrevistas bem esclarecedoras. Outras, entretanto, são mais superficiais, basicamente com a sinopse do filme e algum cometário rápido. De maneira geral, com essas análises podemos ver como Burton conseguiu manter o estilo pessoal e desafiou padrões de Hollywood ao ter sucesso de público e crítica com obras consideradas estranhas ou de difícil realização.
Burton e Depp: amigos e parceiros
O livro esclarece algumas questões frequentes sobre as obras de Burton. Os visuais de seus filmes são tão carregados e únicos porque ele é um ex-desenhista: cada frame deve ter a beleza e estética de uma pintura ou animação. Há uma maior preocupação com a estética do que com o roteiro, por exemplo. A dificuldade em se adaptar ao meio social, tema frequente das suas obras, é reflexo do próprio diretor, que se considera uma pessoa socialmente deslocada. Além disso, todos os filmes remetem a elementos que fizeram parte de uma infância recheada de filmes de monstros, quadrinhos e ídolos do terror como Vincent Price e Christopher Lee. Os protagonistas dos seus filmes, como o bizarro Edward, o sombrio Batman ou o diretor menosprezado Ed Wood, representam partes da personalidade e biografia do próprio Burton.
O livro ajuda a compreender como Burton foi recebido pela crítica e público ao longo do tempo. Os filmes do diretor sempre foram muito reconhecidos pelos aspectos técnicos e visuais, mas não são unanimidades entre os críticos, muito menos nas premiações, que sempre o esnobaram o trabalho do diretor. Já o público normalmente comparece em peso nos cinemas, mesmo que depois critique, como aconteceu com o recente Alice no País das Maravilhas, que se tornou uma das maiores bilheterias de todos os tempos.
No fim, fica a sensação de que Burton está tentando, a cada filme, resgatar pedaços da infância e oferecer ao público pequenos fragmentos de sua personalidade e vivência. Com personagens bizarros, visuais únicos e histórias estranhas, o diretor oferece ao público uma chance de sair da realidade e questionar o que é ser "normal". Indicado especialmente para fãs, o livro nos faz entender e admirar, ainda mais, o trabalho e vida desse homem que é um dos artistas contemporâneos mais expressivos e criativos. Com dois projetos para esse ano, o diretor ainda tem muito para oferecer e encantar platéias do mundo inteiro.