5 de fevereiro de 2012

Megapost: Entendendo Give me All Your Luvin de Madonna

O mundo pop sofreu uma verdadeira overdose de Madonna na última semana: música nova, clipe divulgado, entrevista em diversos programas e a esperada apresentação no show de intervalo do Super Bowl, aclamada pela crítica internacional. A música conseguiu boas posições nas paradas de sucesso, o clipe teve milhões de visualizações no youtube e MDNA, novo cd de Madonna, ficou em primeiro lugar de venda em diversos países. O clipe de Give me All Your Luvin, lançado na véspera do show do Super Bowl, recebeu comentários variados: enquanto muitos exaltaram a originalidade da produção e o ar jovial de Madonna, outros comentavam que a cantora já não seria tão relevante no cenário musical atual e seus lançamentos careciam de maturidade.

A questão da idade parece ser o principal motivo de críticas, o que chega a ser interessante, uma vez que cantores como Mick Jagger, Prince, Elton John e Bono são mais velhos que Madonna e ninguém comenta que eles deveriam se aposentar. Pelo contrário,  a mídia exalta que apesar da idade esses “senhores” conseguem levar multidões de fãs ao delírio. Comentários como “está na hora de Madonna ir para o asilo” ou “velha asquerosa querendo se passar por uma jovem” revelam o machismo e preconceito da nossa sociedade.

Madonna, a mulher que já quebrou tabus e definiu os parametros para outras cantoras pop, parece pouco se importar com as críticas. Give me all your Luvin (GMAYL) tem justamente o papel de questionar o mercado pop atual, mas para entender melhor o sentido da música é necessário entender todo o contexto, incluindo a letra da música, a parceria e o clipe.
  

A Música


Muitos interpretaram GMAYL apenas como uma música chiclete, com letra simplista sobre uma “garota diferente” que deseja ser amada. Essa interpretação pode ser feita por quem não conhece a carreira ou personalidade de Madonna, que sempre manteve uma postura crítica e contestadora. GMAYL pode ser entendida como uma alfinetada sobre o período atual da música pop, em que qualquer cantora torna-se “ídolo da música” da noite para o dia e é esquecida na semana seguinte. Tente lembrar quantas “novas Madonnas” tivemos nos últimos anos? 

 “I see you coming and I don’t wanna know your name
I see you coming and you’re gonna have to change the game”

A música já começa revelando a postura indiferente de Madonna em relação as novatas. Afinal, para quer saber o nome delas se serão esquecidas rapidamente?  E quantas vezes pensamos que determinada cantora seria capaz de “mudar o jogo” e depois se tornou apenas mais uma? 

Don't play the stupid game
Cause I'm a different kind of girl
Every record sounds the same
You've got to step into my world”

Esse jogo de tentar ser a nova Rainha do Pop é estúpido. Principalmente por não “entrarem no mundo de Madonna” (entender o trabalho, contexto e referências que ela utiliza) e apenas copiar o que já foi feito por outras pessoas. Dessa forma, todo som que ouvimos atualmente nas rádios soa igual, já que todos utilizam as mesmas referências e só trabalham com os produtores "da moda".

“Give me all your love and give me your love
 Give me all your love today
 Give me all your love and give me your love
 Let's forget about time
 And dance our lives away”

O refrão, que pede todo o amor disponível, pode se referir tanto aos consumidores de música pop, quanto as próprias wannabes, que sempre dizem amar Madonna. Esquecer o tempo e dançar é o mandamento que todos deveriam seguir, afinal é para isso que a música pop serve, como entretenimento antes de tudo. 

A segunda parte da música soa mais como uma dica para as novatas: não desista e aproveite esse tempo para se divertir um pouco mais. De tanta preocupação em quebrar recordes, vender mais singles, divulgar seus trabalhos e conseguir novos fãs, elas parecem que não têm tempo para aproveitar a própria fama, os prazeres que ela oferece. 

A interpretação de que GMAYL é para as novas cantoras do pop é reforçada pela parceria com M.I.A e Minaj e pelo clipe. 

A Parceria

Madonna declarou que chamou Nicki Minaj e M.I.A por considerá-las originais e fugirem do padrão das outras estrelas do pop. Enquanto os fãs clamavam por parcerias com Britney Spears, Shakira ou a própria Gaga, Madonna chamou duas cantoras “atrevidas, únicas com vozes individuais”. 

A primeira reação de muitos quando conhecem Minaj é considera-la “ridicula, exagerada, estranha”. Com visual exagerado e super colorido, a rapper apareceu em diversas parceiras e colaborações, das mais habituais (William, Kayne West, Rihanna) até músicas pop (David Guetta, Britney Spears, Christina Aguilera). Minaj também chama a atenção pela versalidade da voz, capaz de fazer raps tão rápidos que se tornam quase impossiveis de acompanhar. Além disso, ao mesmo tempo em que participa desse mundo pop, Minaj mantém uma postura crítica e satiriza outras cantoras. Em seus últimos clipes, por exemplo, ela aparece como a andróide diferenciada em Turn me On e ridiculariza as danças sensuais de Shakira e os efeitos especiais em Stupid Hoe. Com a deliciosa Super Bass, Minaj conquistou prêmios importantes e atualmente é a mulher mais importante do hip-hop americano. 


M.I.A pode até não ser um sucesso de vendas ou popularidade, mas tem uma carreira respeita pela crítica, principalmente pelas apostas musicais ousadas, como misturar música árabe, hip-hop, rap, dubstep e até funk brasileiro. O último clipe de M.I.A, Bad Girls, reforça essa ideia da cantora como uma mulher independente, sem medo do território masculino e com coragem suficiente para mostrar o rosto para as retalhações. 

Independentes, exóticas e ousadas, essas duas cantoras representam tudo que Madonna queria destacar em seu novo single, como comprovamos no clipe.

O Clipe

Quando o conceito do novo clipe de Madonna foi anunciado muitos previram a catástrofe épica que geraria o fim do mundo em 2012. Futebol americano, líderes de torcida e música pop soava mais com um episódio de Glee do que o clipe que marcaria o retorno da Rainha do Pop, depois de anos sem lançar um clipe. O clima de pessimismo começou a mudar quando, além da parceria de Minaj e M.I.A, o grupo MedaForce foi contratado para dirigir o clipe. Conhecidos por produções interessantes, o trabalho com Madonna poderia render um ótimo clipe. O resultado final foi o melhor clipe da cantora em anos, lotado de referências e capaz de reforçar a mensagem da música de forma indireta.


No clipe, todas as cheerleaders usam a mesma máscara, em uma referência clara as cantoras atuais, que não se diferenciam na sonoridade e copiam o visual uma da outra. As únicas líderes de torcida com rostos expostos são Minaj e M.I.A, as “originais” e sem medo de ousar, de acordo com Madonna. Essa questão da máscara como elemento de massificação lembra, e muito, o clipe clássico de Another Brick in the Wall do Pink Floyd, no qual as crianças perdem a individualidade nas mãos dos professores carrascos e surgem usando máscaras iguais. O muro em que Madonna dança é mais uma alusão ao clipe clássico. 

O visual da cantora ao longo do clipe também é um detalhe que merece ser comentado, por ajudar a transmitir a mensagem da canção. Madonna surge com um clássico casaco e um carrinho de bebê no papel que a sociedade espera dela: uma discreta senhora, mãe de família. Não demora muito para Madonna se livrar desse “disfarce” e mostrar um ousado figurino que deixa sua boa forma a mostra. Ao trocar de roupa, Madonna para de se comportar como uma senhora e adota uma postura mais solta e jovial, sem medo dos perigos ou das dificuldades encontradas no caminho. Por fim, o crucifixo e o sutiã de onça nos remetem às origens de Madonna nos anos 80, mostrando que ela sabe se reinventar sem ser óbvia, diferente das wannabes.

Surgem os jogadores, que dão todo o amor que Madonna necessita. Eles a protegem dos obstáculos, deixam seu caminho livre, fazem ela subir pelas paredes e estendem o tapete vermelho por onde ela passa. Os jogadores são capazes de morrer para manter a proteção de Madonna, por exemplo. Eles representam o público, a mídia, os fãs de Madonna. Essa representação fica mais evidente quando eles formam uma “escada” para que ela possa subir até uma janela, uma metáfora visual sobre subir na carreira, subir no mundo da fama.  


Depois de subir até o topo da fama, Madonna aparece como Marilyn Monroe, um ícone pop genuíno, uma mulher idolatrada por décadas e ainda hoje relevante na cultura popular. Enquanto as outras cantoras (as líderes de torcida) continuam sem expressão, tentam chocar o público e ficam se imitando, as três se diferenciam e buscam referências em outras artes, como o cinema. No fim, Madonna aparece idolatrada pelos jogadores/fãs enquanto as líderes de torcida surgem sem destaque, como coadjuvantes, ainda com a mesma expressão. 

Recheado com referências ao cinema, como Dançando na Chuva e Beleza Americana, o clipe de Madonna deixa claro sua mensagem: enquanto algumas se copiam e não conseguem se destacar, ela ainda está  em busca de novas referências e estilos. Tudo é abordado pelo clipe com bom humor e indiretas, tanto que muitos não conseguiram entender a alfinetada. GMAYL é o melhor clipe de Madonna em anos, e nem precisou de minutos de enrolação, inúmeras trocas de roupas, efeitos especiais ou discursos clichês para isso. Touchdown

19 de janeiro de 2012

Comentário - Trilogia Millenium de Stieg Larsson

O escritor sueco Stieg Larsson conquistou fama mundial pela trilogia Millenium, sucesso editorial que narra as histórias da hacker Lisbeth Salander e o jornalista Mikael Blomkvist. Tamanha popularidade pode até ser surpreendente, já que os livros abordam questões polêmicas como segredos políticos, espionagem, crimes digitais, bastidores mídia, abusos sexuais e o tráfico de mulheres. O autor, entretanto, pouco aproveitou da fama, já que morreu logo após a publicação dos livros, gerando boatos e conspirações sobre o ocorrido. Agora, com a adaptaçao hollywoodiana do primeiro livro, Os Homens que Não Amavam as Mulheres, com direção de David Fincher (Clube da Luta, Seven, O Quarto do Pânico), o interesse de público deverá ser renovado.

Os três livros focam na trajetória de Lisbeth Salander, uma hacker antisocial, anoréxica, violenta,  com um passado de agressões físicas e psicológicas e uma trama que envolve as altas cúpulas do governo sueco. No primeiro livro, Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, a hacker auxilia o famoso jornalista Mikael Blomkvist na investigação de um desaparecimento e os dois começam uma inusitada amizade que servirá como base dos outros dois livros.  O primeiro livro é eletrizante, com suspense gradual. Serve muito bem como introdução dos personagens e nos faz até ter simpatia pela figura de Lisbeth, a anti-heroína que no fundo tem medo de confiar nas pessoas pelos traumas do passado, explorados no segundo livro da trilogia, A Menina que Brincava com Fogo.

Lisbeth nos cinemas, na Suécia e Hollywood
Pena que com tantos aspectos positivos e originais, a trilogia termina com o decepcionante  A Rainha do Castelo de Ar, no qual a narrativa instigante de Larsson fica repleta de passagens desnecessárias. A mudança de emprego da editora Erica, por exemplo, não ajuda em nada a história principal e parece ter sido colocada só para aumentar a espera pelo clímax. A quantidade de personagens torna-se tão grande nesse terceiro volume que fica difícil acompanhar a história, alguns são até esquecidos no meio do caminho. Fora a tendência do autor em recapitular a história de Lisbeth em todo capítulo.  Ainda há bons momentos, que lembram o livro original, como o ataque ao hospital e o julgamento de Lisbeth, um dos melhores momentos da série e um clímax emocionante. 

No final do livro é impossível não entender e torcer por Lisbeth, que perdeu a confiança nas autoridades e age por seu próprio código moral. Com uma narrativa direta, Larsson conseguiu criar uma personagem diferente, fascinante e surpreendente, que mistura agressividade e inteligência na medida certa.  Há boatos de que o autor deixou um quarto livro da Millenium pronto antes de morrer, e tinha objetivo de transformar a trilogia em uma serie. Se for para continuar enchendo a história com passagens inúteis e deixar Lisbeth como coadjuvante da própria história, é melhor que o quarto livro não seja publicado e deixe a personagem na memória do leitor e na tela do cinema.

12 de janeiro de 2012

Madonna X Lady Gaga: quem será a Rainha do Pop?

Madonna e Lady Gaga: quem será a verdadeira rainha do pop?
A música pop sempre foi marcada por disputas. Quase como times de futebol, os ídolos musicais têm legiões de fãs dispostos a brigarem por eles e contar cada conquista para derrotar o adversário. Só para ficar nos embates mais famosos tivemos Beatles X Rolling Stones, Michael Jackson X Prince, Britney Spears X Christina Aguilera e muitos outros. Essas dispustas, na maioria das vezes, são movidas pelos fãs e pela mídia sensacionalista e podem até ajudar na venda de discos e na divulgação dos cantores. A maior disputa musical dos últimos anos começará em breve, com duas cantoras brigando pelo trono da música pop: Lady Gaga e Madonna.

No começo das comparações as duas cantoras trocavam elogios
Gaga surgiu, explodiu, causou polêmicas e conquistou destaque na mídia, que logo a proclamou como a nova rainha do pop. Com poucos anos de carreira, a loira lançou três CDS, coletânias de remixes, dvds, emplacou vários hits, produziu clipes bacanas e tornou-se a  queridinha do mundo fashion, dos adolescentes e dos homossexuais, principalmente dos mais jovens que a elegeram como um  ícone de comportamento com o discurso de “seja você mesmo, seja diferente”. Gaga foi a cantora mais debatida dos últimos tempos por sempre surpreender em suas aparições, declarações, roupas bizarras e pela originalidade de suas produções. Nenhuma outra cantora parecia capaz de chamar tanto a atenção quanto ela. Katy Pery, Rihanna, Aguilera, Britney, Ke$ha e até Beyoncé alteraram os estilos para chegar mais perto do efeito Gaga, algumas com sucesso e outras nem tanto.

Loira, fashion e polêmica, Gaga lembrava muito Madonna no ínicio de carreira e não demorou para surgirem as primeiras comparações diretas e boatos de uma “disputa” entre as duas. Publicamente, entretanto, as cantoras trocavam declarações de admiração: Gaga se dizia a maior fã de Madonna (tanto que dedicou The Fame a ela) enquanto a Material Girl era vista nos shows da novata e afirmava ver muito de si mesma em Gaga. Para brincar com os boatos de rivalidade, elas até toparam se estapear em um programa humorístico  e tirar sarro da situação. 

No Saturday Night Live as duas brincaram com os boatos de rivalidade
Aos poucos, a admiração de Gaga por Madonna começou a surgir em “homenagens”: no clipe de Alejandro, dirigido por um dos maiores parceiros de Madonna, o fotógrafo Steven Klein, algumas passagens remetem diretamente à Vogue e Like a Prayer. A polêmica ficou ainda maior com o lançamento da música Born This Way, que foi imediatamente relacionada com Express Yourself, seja pela temática de “ser você mesmo e exigir respeito” e pela sonoridade. A situação ficou pior quando Gaga declarou que Madonna tinha adorado a canção, afirmação que foi rapidamente desmentida pela assessoria da Material Girl. As pequenas “coincidências” não pararam por ai: Gaga lançou o clipe de You and I no dia do aniversário de Madonna, momento em que ela era um dos assuntos mais discutidos do Twitter.  

As "homenagens" de Gaga: plágio ou coincidência?
A  admiração inicial de Madonna por Gaga parece ter se esgotado, já que a loira decidiu revidar no campo que conhece melhor, com grandes lançamentos musicais e muita ironia. A cantora estava envolvida com a produção de seu segundo longa-metragem, W.E e deixou a carreira musical um pouco de lado nos últimos anos. Com o lançamento do novo CD marcado para março, Madonna pretende reconquistar o trono do pop. O primeiro single, Gimme All Your LUV e Masterpiece  já estão disponíveis na internet e aumentaram ainda mais a expectativa da mídia e dos fãs pelo novo álbum. A ansiedade não é sem motivo: a cantora voltou a trabalhar com o “mago” William Orbit, o mesmo produtor de Ray of Light, trabalho aclamado pela crítica e responsável por colocar a cantora de volta aos holofotes no fim da década de 90. Pelo o que indicam os boatos, o novo CD poderá seguir o mesmo caminho. Para isso, Madonna está investindo pesado na produção de clipes, parcerias com novos colaboradores e participações de outras cantoras como Nicki Minaj e M.I.A. 

Gaga enfrenta críticas enquanto Madonna lança seu novo filme
Pela primeira vez desde que começou a carreira, Gaga enfrentará diretamente sua “criadora”, bem no momento em que enfrenta críticas pelos últimos clipes fracos e pelo retorno abaixo do esperado nas vendas do álbum Born This Way. A primeira derrota de Gaga já aconteceu no Super Bowl, com a escolha de Madonna para apresentar as novas músicas no horário mais disputado da TV americana. A segunda derrota de Gaga poderá acontecer no quesito turnê, já que Madonna é a artista feminina com maior arrecadação em tours. Só para se ter ideia, enquanto Gaga arrecadou $227,400,000 com a The Monster Ball Tour em 201 shows, Madonna conseguiu o dobro do faturamento com “apenas” 85 shows. Nesse ano as duas estarão percorrendo o mundo com turnês e essa comparação será inevitável. Gaga, por outro lado, conta com uma base de fãs jovens e ainda é muito popular na internet.

No meio dessa guerra toda, quem ganha é o publico da música pop, que poderá acompanhar esse “duelo” com turnês grandiosas, clipes bem produzidos, apresentações expetaculares e músicas novas de ambas as partes. Se Madonna conseguirá vencer a popularidade de Lady Gaga ainda é um mistério, mas pelo sonoro "Lady Who" que ela soltou em uma apresentação de W.E, podemos ter certeza que essa disputa promete ser, no mínimo, divertida. E você, já escolheu para quem vai torcer?


5 de janeiro de 2012

O melhor de 2011

2011 foi um ano de entressafra cultural, que mais preparou terreno para  grandes lançamentos de 2012 ou divulgou artistas que lançaram trabalhos do ano anterior.


Na música, Adele conquistou o mundo e as paradas de sucesso no mesmo ano em que Amy Winehouse morreu.  Outra cantora britânica foi uma das maiores revelações dos últimos tempos na música pop: Jessie J. A morena conquistou uma base de fãs com boas performances, carisma, voz afinada e composições próprias. Florence + The Machine passou pelo desafio do segundo CD com aval da crítica especializada.  Já no outro lado do Atlântico, o ano não foi muito bom para a música pop americana, com Lady Gaga e Beyoncé atingindo resultados abaixo do esperado. Born This Way, de Gaga, foi anunciado como uma “revolução musical, o hino de uma geração”, mas ficou mais marcado pelas polêmicas de plágio e pelos clipes ruins de The Edge Of Glory e Marry The Night. A loira está rodando o mundo tentando alavancar as vendas do cd, inclusive lançando versões diferentes, como um álbum de remixes. Já Beyoncé não teve com “4” a popularidade dos trabalhos anteriores, ainda mais com a gravidez da cantora que não deu espaço  para sair em turnê. Bruno Mars, Justin Bieber, Rihanna e Katy Perry seguiram lançando singles de sucesso e dominando as premiações, principalmente aquelas que dependiam de votação popular. 


Na música brasileira, tivemos mais algumas cantoras/compositoras que seguem a escola de Vanessa da Mata, com a consagração de Tulipa Ruiz, que saiu do gueto alternativo e figurou até em premiações da MTV e especiais de TV. Filipe Catto chamou a atenção da mídia paulistana com seu cd de estreia e shows intensos. Criolo conquistou os principais prêmios do VMB, a Rolling Stone chegou a eleger duas de suas músicas como as melhores do ano. 2011 foi marcado pela ousadia dos “veteranos”, com Marina Lima e seu Clímax, Gal Costa e um disco de música eletrônica experimental e Erasmo Carlos com um trabalho sobre sexo. Até Chico Buarque lançou um disco de inéditas. Nessa onda de “ousadias”, Marisa Monte acabou sendo criticada por apostar no terreno já explorado pela cantora em “O que você quer saber de verdade”, apesar da qualidade indiscutível do trabalho. O Brasil confirmou que está na rota dos shows internacionais, com U2, Shakira, Katy Perry, Kesha, Britney Spears, Justin Bieber e Rihanna lotando shows. O Rock'n Rio e outros festivais também ajudaram a manter a agenda de shows lotada por todo o ano.


Na TV, as séries mais uma vez mostraram que não devem em nada para o cinema no quesito roteiro, elenco e até efeitos especiais. Com uma qualidade digna das telonas, Game Of Thrones chamou a atenção do público com a história que mistura magia de Senhor dos Anéis com intricadas tramas políticas, personagens complexos e uma produção caprichada. American Horror Story destacou-se como uma das tramas mais interessantes e uma das séries mais instigantes dos últimos anos, acompanhando uma família desestruturada em uma mansão mal assombrada. A atuação de Jessica Lange, inclusive, garantiu uma indicação ao Globo de Ouro para a atriz. Depois de uma segunda temporada confusa, com histórias e personagens desinteressantes, Glee voltou aos rumos na terceira temporada, com números musicais memoráveis e menos drama barato. The New Girl parecia a série perfeita para mostrar toda a “fofura” e delicadeza de Zooey Deschanel, entretanto, nos últimos episódios a graça parece estar acabando e a falta de um roteiro mais elaborado está se tornando crucial para a sobrevivência da musa indie. Na TV brasileira, Rafinha Bastos foi a figura polêmica do ano.


Nos cinemas, Cisne Negro comprova que nem sempre o filme ganhador do Oscar é o melhor, nem o mais memorável, já que a sombria trama da bailarina que faz de tudo para ser perfeita no papel do cisne negro já se tornou uma obra pop, imitada e comentada. Almodóvar também se mostrou mais sombrio e menos colorido em A Pele que Habito, bom suspense que mostra que o diretor ainda consegue se reinventar e gerar tramas ousadas, criativas e instigantes. Melancolia de Lars Von Trier foi prejudicado pela polêmica em Cannes, que encobriu o perturbador filme de Von Trier sobre o fim do mundo e a incapacidade de reagir perante uma tragédia iminente. Menos polêmico e sombrio, Woody Allen cativou o público com Meia Noite Em Paris, uma encantadora trama que nos faz sair do cinema alegres, coisa rara hoje em dia. A Árvore da Vida, de Terrence Malick, garantiu prêmios ao excêntrico diretor. 


Entre os blockbusters, o final emocionante de Harry Potter consagrou uma das melhores e mais lucrativas séries cinematograficas de todos os tempos. O menino bruxo deixa uma legião de fãs que cresceram lendo e assistindo aos filmes. O final de Amanhecer também foi dividido, para aumentar ainda mais os lucros da saga Crepúsculo e demorar mais para Bella ter seu final feliz.  Piratas do Caribe e Transformers foram mais do mesmo, para o bem ou para o mal, e renderam muito bem nas bilheterias, mostrando que o público, muitas vezes, está mais interessado em ver o que já conhece. Thor e Capitão América, da Marvel, serviram mais para preparar o terreno para Os Vingadores do que produzir um grande filme de cada herói. Já Lanterna Verde cometeu o mesmo erro de outras adaptações e acreditou que efeitos especiais salvariam um roteiro fraco. Duas séries tiveram suas origens recontadas em bons filmes: X-men Primeira Classe e Planeta dos Macacos - A Origem. Carros 2 não foi nem de longe um dos melhores trabalhos da Pixar, enquanto Kung Fu Panda 2 mostrou uma trama ainda mais interessante e adulta. Os Smurfs, Os Muppets, A Hora do Espanto e outros filmes mostraram que a década de 80 ainda pode gerar interesse nos cinemas.


Para 2012 teremos a aguardada segunda temporada de Game Of Thrones, que promete mais ação. No terreno musical, o lançamento mais comentado é o novo cd de Madonna, o primeiro em mais de quatro anos, que está sendo descrito como uma mistura das boas letras de Ray of Light com a energia para cima de Music, com participações de M.I.A e Nick Minaj. Nos cinemas teremos Tim Burton retornando as origens em uma animação, depois das críticas divididas em Alice. Os Vingadores será a união dos heróis da Marvel em um filme aguardado pelos nerds desde dos primeiros filmes de super heróis. Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge promete ser o final impactante da nova trilogia do homem morcego, depois de dois filmes que foram sucesso de público e crítica. 2012 promete ainda mais lançamentos, debates e novidades que 2011!

3 de janeiro de 2012

Comentário - Ceremonials de Florence + the Machine

O VMA 2010 foi marcado por apresentações desinteressantes, excesso de playback e Lady Gaga vestida de carne. Na festa da MTV daquela noite, uma apresentação chamou a atenção de todos, inclusive de Gaga: uma ruiva meio hipponga com voz poderosa e uma música pop diferente. Depois disso, a banda Florence + The Machine se tornaria conhecida fora do gueto alternativo britânico e a vocalista, Florence Welch, representaria uma figura diferente das divas do pop americano e se transformaria em musa indie. 


Agora, já queridinha da crítica especializada, com uma base de fãs formada e apelo fashion, a ruiva enfrenta o desafio do segundo CD com o lançamento de Ceremonials. Pela recepção do trabalho, bem aceito pela crítica e com comentários positivos em fóruns na internet, Florence parece ter acertado novamente e agradado aos fãs, mesmo com algumas diferenças do trabalho anterior. Visualmente, algumas alterações já chamam atenção para os rumos do projeto: menos “hippie”, mais clássico (remetendo as antigas divas do cinema) e bem mais sombrio. 

Florence na apresentação do VMA 2010
Ceremonials traz alguns elementos que tornaram Florence tão conhecida em seu CD de estreia, o ótimo Lungs: boas letras, arranjos que misturam diferentes elementos e formam um som meio místico, sem perder a raiz pop. A produção continua primorosa, com destaque para músicas mais "cruas", mais próximas do rock. A voz de Florence está ainda mais controlada, conseguindo soar poderosa ou como um sussurro quando necessário, que demonstra maturidade musical da cantora. A grande diferença de Ceremonials é o tom mais sombrio e introspectivo em todo trabalho. Há menos canções que  leves como You've Got The Love ou uma música tão impactante quanto The Dog Days Are Over. 

Como o nome já diz, o tema desse novo álbum são rituais, reflexões sobre a morte e espiritualidade. A temática ganhou mais força com  os clipes lançados até agora, como Shake It Out que mostra Florence em uma festa de grupo ligado ao ocultismo, em uma clara referência à De Olhos Bem Fechados, de Kubrick. Ceremonials  mantém esse clima ocultista, com destaques para Seven Devils, What  The Water Gave to Me e No Light, No Light. 

Mesmo com as mudanças na temática e sonoridade, Florence consegue soar como ela mesma e estabelecer conexão com o trabalho anterior. A ruiva pode não ser um sucesso estrondoso de vendas e popularidade como Adele ou Amy Winehouse (só para citar as duas últimas sensações britânicas), nem tão performática quanto Jessie J, entretanto, Florence prova que é possível conquistar uma legião de fãs e o  interesse da mídia, sem perder a identidade e qualidade no trabalho.  


19 de dezembro de 2011

Comentário - Rocky Horror Picture Show

Atualmente é comum ouvir a definição 'filme cult' para qualquer obra independente ou de pouco apelo comercial que é lançada. Um filme cult, na essência, é um produto que não tem uma boa recepção do público ou reconhecimento de crítica na época em que foi lançado e é descoberto futuramente, influenciando a estética de outras produções cinematográficas e adquirindo status de uma obra cultuada, com uma base de fãs. 

Só para ficar com exemplos famosos de obras cults, temos Blade Runner – O Caçador de Andróides e O Estranho Mundo de Jack, filmes que se tornaram clássicos com o tempo, apesar de um lançamento ruim. Uma das maiores obras cults de todos os tempos é a adaptação cinematográfica do musical Rocky Horror Picture Show (1973). Quando lançado nos cinemas, o longa foi um fiasco de bilheteria e poucos entenderam a trama anárquica que faz uma homenagem aos filmes de ficção e ao cinema trash. Após o fracasso, o filme começou a ser exibido nas famosas “sessões da meia-noite”, que divulgavam longas de baixo orçamento. O sucesso de Rocky Horror nessas sessões foi imediato, tornando-se o filme que ficou mais tempo em cartaz.

Anarquia, tramas estranhas e o visual glam rock
O sucesso posterior deve-se, principalmente, pela estranha mistura de tramas e influências. É um musical que satiriza os filmes de terror com a manjada história do casal nerd que se perde em uma tempestade e acaba no castelo assombrado. Todos os elementos do terror trash estão lá: os empregados sinistros, o dono do castelo estranho, duelo de cientistas, crimes e até extraterrestres. Junte isso com várias passagens que celebram o amor livre, o humor negro e músicas que grudam na cabeça.

Uma trama tão confusa poderia ser um fracasso se não fosse pelas grandes atuações de todo o elenco em papéis encantadores. Tin Rourque é o centro das atenções como Dr Frank, o cientista travesti mestre do castelo que pretende criar um ser humano esteticamente perfeito (referência direta ao clássico do terror Frankenstein). O casal nerd e puritano chama a atenção pelas mudanças que vão sofrendo ao longo do filme, descobrindo muito sobre a sexualidade e sentimentos reprimidos Além desse trio principal temos os  serviçais do castelo, fundamentais para o desfecho dessa trama estranha.

Homenagem de Glee ao musical
Como clássico cult, o filme acabou inspirando dezenas de outras produções culturais, como o recente videoclipe Hold It Against Me de Britney Spears, além de ter sido considerado um dos “30 filmes que mais influenciaram na moda”, com sua estética glam-rock. O filme continua tão presente na cultura pop que ganhou uma homenagem da serie Glee e até um CD com músicas interpretadas pelo elenco.

O filme é, indiscutivelmente, um clássico do cinema B, com a trama um tanto confusa, personagens cativantes e uma trilha sonora deliciosamente influenciada pelo rocky e pop.  Longe de ser um filme indicado para todos os públicos, o longa é uma opção diferente, principalmente para quem gosta de filmes de terror B. Como diria os icônicos lábios vermelhos que abrem o filme: "Oh-oh at the late night, double feature, picture show"

19 de novembro de 2011

Romeu + Julieta de Baz Luhrmann - poesia pop


Romeu e Julieta é uma história tão clássica que é possível lembrar vários filmes, peças, musicais, sátiras e até animações que tiveram base no clássico de Shakespear sobre famílias rivais e jovens apaixonados que levam o amor as últimas consequências. Poucas adaptações da obra, entretanto, foram tão emblemáticas quanto a versão do diretor autraliano Baz Luhrmann (1996), que trouxe a tragédia dos Capuletos e Montéquios para os dias de hoje, transformando a briga de famílias em uma guerra de gangues. A “modernização”, porém, fica só no visual, já que o roteiro apresenta os versos líricos do livro na integra. Poderia ser incoerente, mas nas mãos de Luhrmann os versos ganham ainda mais força e sentido com o visual extravagante. 

Luhrmann usa histórias tradicionais com visuais modernos
A edição frenética, o uso das cores para transmitir sensações (do colorido saturado ao monocromático) e a trilha sonora recheada de canções pop dá um ar de “videoclipe da MTV“ para o filme, que ressalta ainda mais a juventude dos protagonistas e consegue dialogar diretamente com o público atual. Usando com maestria recursos visuais e sonoros, o diretor consegue criar imagens tão fortes que já fazem parte do coletivo popular, como a belíssima cena do encontro de Romeu e Julieta com um aquário entre eles enquanto a festa acontece na mansão dos Capuletos.
 
O elenco é encabeçado por um Leonardo Di Caprio ainda jovem e carismático. O Romeu do ator parece sem perspectivas, rumo ou ideais, até que encontra a razão de sua existência: o amor que nutre pela bela Julieta (Clarice Daines), jovem da família rival e considerada "inimiga". A atriz Clarice Daines cria uma Julieta inocente, quase etérea, mas que consegue manusear uma pistola quando necessário sem perder a feminilidade. Os protagonistas convencem nos papéis de jovens perdidamente apaixonados, capazes de brigar com suas famílias para consumarem seu amor. O elenco de apoio também da conta do recado com muitos rostos que seriam vistos em obras posteriores de Luhrmann. 

O amor em Romeu + Julieta é levado aos extremos
Alguns elementos presentes nesse filme seriam vistos depois em Mouling Rouge, a obra-prima do diretor responsável por trazer os filmes musicais de volta as telas de cinema e aos prêmios. Algumas cenas, como a chuva que cai azulada no momento em que Romeu é exilado da cidade, lembra, e muito, os momentos em que a cortesã Satine deixa seu amado Christian para evitar uma briga no cabaré.

Nos filmes de Luhrmann, principalmente em Romeu + Julieta, a história é conhecida, previsível, mas a forma como é contada é tão inovadora que desperta o interesse do espectador. Em R+J é até possível torcer, genuinamente, por aquele casal fadado ao final mais apoteótico e dramático de todos: morrer por amor. No mundo de Luhrmann o amor é sempre assim: intenso, dramático, proibido e sem medo de abraçar os clichês. Entre cores berrantes, músicas pop e poesia lírica, Romeu + Julieta fica marcado como uma das melhores versões do clássico de Shakespear