12 de janeiro de 2012

Madonna X Lady Gaga: quem será a Rainha do Pop?

Madonna e Lady Gaga: quem será a verdadeira rainha do pop?
A música pop sempre foi marcada por disputas. Quase como times de futebol, os ídolos musicais têm legiões de fãs dispostos a brigarem por eles e contar cada conquista para derrotar o adversário. Só para ficar nos embates mais famosos tivemos Beatles X Rolling Stones, Michael Jackson X Prince, Britney Spears X Christina Aguilera e muitos outros. Essas dispustas, na maioria das vezes, são movidas pelos fãs e pela mídia sensacionalista e podem até ajudar na venda de discos e na divulgação dos cantores. A maior disputa musical dos últimos anos começará em breve, com duas cantoras brigando pelo trono da música pop: Lady Gaga e Madonna.

No começo das comparações as duas cantoras trocavam elogios
Gaga surgiu, explodiu, causou polêmicas e conquistou destaque na mídia, que logo a proclamou como a nova rainha do pop. Com poucos anos de carreira, a loira lançou três CDS, coletânias de remixes, dvds, emplacou vários hits, produziu clipes bacanas e tornou-se a  queridinha do mundo fashion, dos adolescentes e dos homossexuais, principalmente dos mais jovens que a elegeram como um  ícone de comportamento com o discurso de “seja você mesmo, seja diferente”. Gaga foi a cantora mais debatida dos últimos tempos por sempre surpreender em suas aparições, declarações, roupas bizarras e pela originalidade de suas produções. Nenhuma outra cantora parecia capaz de chamar tanto a atenção quanto ela. Katy Pery, Rihanna, Aguilera, Britney, Ke$ha e até Beyoncé alteraram os estilos para chegar mais perto do efeito Gaga, algumas com sucesso e outras nem tanto.

Loira, fashion e polêmica, Gaga lembrava muito Madonna no ínicio de carreira e não demorou para surgirem as primeiras comparações diretas e boatos de uma “disputa” entre as duas. Publicamente, entretanto, as cantoras trocavam declarações de admiração: Gaga se dizia a maior fã de Madonna (tanto que dedicou The Fame a ela) enquanto a Material Girl era vista nos shows da novata e afirmava ver muito de si mesma em Gaga. Para brincar com os boatos de rivalidade, elas até toparam se estapear em um programa humorístico  e tirar sarro da situação. 

No Saturday Night Live as duas brincaram com os boatos de rivalidade
Aos poucos, a admiração de Gaga por Madonna começou a surgir em “homenagens”: no clipe de Alejandro, dirigido por um dos maiores parceiros de Madonna, o fotógrafo Steven Klein, algumas passagens remetem diretamente à Vogue e Like a Prayer. A polêmica ficou ainda maior com o lançamento da música Born This Way, que foi imediatamente relacionada com Express Yourself, seja pela temática de “ser você mesmo e exigir respeito” e pela sonoridade. A situação ficou pior quando Gaga declarou que Madonna tinha adorado a canção, afirmação que foi rapidamente desmentida pela assessoria da Material Girl. As pequenas “coincidências” não pararam por ai: Gaga lançou o clipe de You and I no dia do aniversário de Madonna, momento em que ela era um dos assuntos mais discutidos do Twitter.  

As "homenagens" de Gaga: plágio ou coincidência?
A  admiração inicial de Madonna por Gaga parece ter se esgotado, já que a loira decidiu revidar no campo que conhece melhor, com grandes lançamentos musicais e muita ironia. A cantora estava envolvida com a produção de seu segundo longa-metragem, W.E e deixou a carreira musical um pouco de lado nos últimos anos. Com o lançamento do novo CD marcado para março, Madonna pretende reconquistar o trono do pop. O primeiro single, Gimme All Your LUV e Masterpiece  já estão disponíveis na internet e aumentaram ainda mais a expectativa da mídia e dos fãs pelo novo álbum. A ansiedade não é sem motivo: a cantora voltou a trabalhar com o “mago” William Orbit, o mesmo produtor de Ray of Light, trabalho aclamado pela crítica e responsável por colocar a cantora de volta aos holofotes no fim da década de 90. Pelo o que indicam os boatos, o novo CD poderá seguir o mesmo caminho. Para isso, Madonna está investindo pesado na produção de clipes, parcerias com novos colaboradores e participações de outras cantoras como Nicki Minaj e M.I.A. 

Gaga enfrenta críticas enquanto Madonna lança seu novo filme
Pela primeira vez desde que começou a carreira, Gaga enfrentará diretamente sua “criadora”, bem no momento em que enfrenta críticas pelos últimos clipes fracos e pelo retorno abaixo do esperado nas vendas do álbum Born This Way. A primeira derrota de Gaga já aconteceu no Super Bowl, com a escolha de Madonna para apresentar as novas músicas no horário mais disputado da TV americana. A segunda derrota de Gaga poderá acontecer no quesito turnê, já que Madonna é a artista feminina com maior arrecadação em tours. Só para se ter ideia, enquanto Gaga arrecadou $227,400,000 com a The Monster Ball Tour em 201 shows, Madonna conseguiu o dobro do faturamento com “apenas” 85 shows. Nesse ano as duas estarão percorrendo o mundo com turnês e essa comparação será inevitável. Gaga, por outro lado, conta com uma base de fãs jovens e ainda é muito popular na internet.

No meio dessa guerra toda, quem ganha é o publico da música pop, que poderá acompanhar esse “duelo” com turnês grandiosas, clipes bem produzidos, apresentações expetaculares e músicas novas de ambas as partes. Se Madonna conseguirá vencer a popularidade de Lady Gaga ainda é um mistério, mas pelo sonoro "Lady Who" que ela soltou em uma apresentação de W.E, podemos ter certeza que essa disputa promete ser, no mínimo, divertida. E você, já escolheu para quem vai torcer?


5 de janeiro de 2012

O melhor de 2011

2011 foi um ano de entressafra cultural, que mais preparou terreno para  grandes lançamentos de 2012 ou divulgou artistas que lançaram trabalhos do ano anterior.


Na música, Adele conquistou o mundo e as paradas de sucesso no mesmo ano em que Amy Winehouse morreu.  Outra cantora britânica foi uma das maiores revelações dos últimos tempos na música pop: Jessie J. A morena conquistou uma base de fãs com boas performances, carisma, voz afinada e composições próprias. Florence + The Machine passou pelo desafio do segundo CD com aval da crítica especializada.  Já no outro lado do Atlântico, o ano não foi muito bom para a música pop americana, com Lady Gaga e Beyoncé atingindo resultados abaixo do esperado. Born This Way, de Gaga, foi anunciado como uma “revolução musical, o hino de uma geração”, mas ficou mais marcado pelas polêmicas de plágio e pelos clipes ruins de The Edge Of Glory e Marry The Night. A loira está rodando o mundo tentando alavancar as vendas do cd, inclusive lançando versões diferentes, como um álbum de remixes. Já Beyoncé não teve com “4” a popularidade dos trabalhos anteriores, ainda mais com a gravidez da cantora que não deu espaço  para sair em turnê. Bruno Mars, Justin Bieber, Rihanna e Katy Perry seguiram lançando singles de sucesso e dominando as premiações, principalmente aquelas que dependiam de votação popular. 


Na música brasileira, tivemos mais algumas cantoras/compositoras que seguem a escola de Vanessa da Mata, com a consagração de Tulipa Ruiz, que saiu do gueto alternativo e figurou até em premiações da MTV e especiais de TV. Filipe Catto chamou a atenção da mídia paulistana com seu cd de estreia e shows intensos. Criolo conquistou os principais prêmios do VMB, a Rolling Stone chegou a eleger duas de suas músicas como as melhores do ano. 2011 foi marcado pela ousadia dos “veteranos”, com Marina Lima e seu Clímax, Gal Costa e um disco de música eletrônica experimental e Erasmo Carlos com um trabalho sobre sexo. Até Chico Buarque lançou um disco de inéditas. Nessa onda de “ousadias”, Marisa Monte acabou sendo criticada por apostar no terreno já explorado pela cantora em “O que você quer saber de verdade”, apesar da qualidade indiscutível do trabalho. O Brasil confirmou que está na rota dos shows internacionais, com U2, Shakira, Katy Perry, Kesha, Britney Spears, Justin Bieber e Rihanna lotando shows. O Rock'n Rio e outros festivais também ajudaram a manter a agenda de shows lotada por todo o ano.


Na TV, as séries mais uma vez mostraram que não devem em nada para o cinema no quesito roteiro, elenco e até efeitos especiais. Com uma qualidade digna das telonas, Game Of Thrones chamou a atenção do público com a história que mistura magia de Senhor dos Anéis com intricadas tramas políticas, personagens complexos e uma produção caprichada. American Horror Story destacou-se como uma das tramas mais interessantes e uma das séries mais instigantes dos últimos anos, acompanhando uma família desestruturada em uma mansão mal assombrada. A atuação de Jessica Lange, inclusive, garantiu uma indicação ao Globo de Ouro para a atriz. Depois de uma segunda temporada confusa, com histórias e personagens desinteressantes, Glee voltou aos rumos na terceira temporada, com números musicais memoráveis e menos drama barato. The New Girl parecia a série perfeita para mostrar toda a “fofura” e delicadeza de Zooey Deschanel, entretanto, nos últimos episódios a graça parece estar acabando e a falta de um roteiro mais elaborado está se tornando crucial para a sobrevivência da musa indie. Na TV brasileira, Rafinha Bastos foi a figura polêmica do ano.


Nos cinemas, Cisne Negro comprova que nem sempre o filme ganhador do Oscar é o melhor, nem o mais memorável, já que a sombria trama da bailarina que faz de tudo para ser perfeita no papel do cisne negro já se tornou uma obra pop, imitada e comentada. Almodóvar também se mostrou mais sombrio e menos colorido em A Pele que Habito, bom suspense que mostra que o diretor ainda consegue se reinventar e gerar tramas ousadas, criativas e instigantes. Melancolia de Lars Von Trier foi prejudicado pela polêmica em Cannes, que encobriu o perturbador filme de Von Trier sobre o fim do mundo e a incapacidade de reagir perante uma tragédia iminente. Menos polêmico e sombrio, Woody Allen cativou o público com Meia Noite Em Paris, uma encantadora trama que nos faz sair do cinema alegres, coisa rara hoje em dia. A Árvore da Vida, de Terrence Malick, garantiu prêmios ao excêntrico diretor. 


Entre os blockbusters, o final emocionante de Harry Potter consagrou uma das melhores e mais lucrativas séries cinematograficas de todos os tempos. O menino bruxo deixa uma legião de fãs que cresceram lendo e assistindo aos filmes. O final de Amanhecer também foi dividido, para aumentar ainda mais os lucros da saga Crepúsculo e demorar mais para Bella ter seu final feliz.  Piratas do Caribe e Transformers foram mais do mesmo, para o bem ou para o mal, e renderam muito bem nas bilheterias, mostrando que o público, muitas vezes, está mais interessado em ver o que já conhece. Thor e Capitão América, da Marvel, serviram mais para preparar o terreno para Os Vingadores do que produzir um grande filme de cada herói. Já Lanterna Verde cometeu o mesmo erro de outras adaptações e acreditou que efeitos especiais salvariam um roteiro fraco. Duas séries tiveram suas origens recontadas em bons filmes: X-men Primeira Classe e Planeta dos Macacos - A Origem. Carros 2 não foi nem de longe um dos melhores trabalhos da Pixar, enquanto Kung Fu Panda 2 mostrou uma trama ainda mais interessante e adulta. Os Smurfs, Os Muppets, A Hora do Espanto e outros filmes mostraram que a década de 80 ainda pode gerar interesse nos cinemas.


Para 2012 teremos a aguardada segunda temporada de Game Of Thrones, que promete mais ação. No terreno musical, o lançamento mais comentado é o novo cd de Madonna, o primeiro em mais de quatro anos, que está sendo descrito como uma mistura das boas letras de Ray of Light com a energia para cima de Music, com participações de M.I.A e Nick Minaj. Nos cinemas teremos Tim Burton retornando as origens em uma animação, depois das críticas divididas em Alice. Os Vingadores será a união dos heróis da Marvel em um filme aguardado pelos nerds desde dos primeiros filmes de super heróis. Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge promete ser o final impactante da nova trilogia do homem morcego, depois de dois filmes que foram sucesso de público e crítica. 2012 promete ainda mais lançamentos, debates e novidades que 2011!

3 de janeiro de 2012

Comentário - Ceremonials de Florence + the Machine

O VMA 2010 foi marcado por apresentações desinteressantes, excesso de playback e Lady Gaga vestida de carne. Na festa da MTV daquela noite, uma apresentação chamou a atenção de todos, inclusive de Gaga: uma ruiva meio hipponga com voz poderosa e uma música pop diferente. Depois disso, a banda Florence + The Machine se tornaria conhecida fora do gueto alternativo britânico e a vocalista, Florence Welch, representaria uma figura diferente das divas do pop americano e se transformaria em musa indie. 


Agora, já queridinha da crítica especializada, com uma base de fãs formada e apelo fashion, a ruiva enfrenta o desafio do segundo CD com o lançamento de Ceremonials. Pela recepção do trabalho, bem aceito pela crítica e com comentários positivos em fóruns na internet, Florence parece ter acertado novamente e agradado aos fãs, mesmo com algumas diferenças do trabalho anterior. Visualmente, algumas alterações já chamam atenção para os rumos do projeto: menos “hippie”, mais clássico (remetendo as antigas divas do cinema) e bem mais sombrio. 

Florence na apresentação do VMA 2010
Ceremonials traz alguns elementos que tornaram Florence tão conhecida em seu CD de estreia, o ótimo Lungs: boas letras, arranjos que misturam diferentes elementos e formam um som meio místico, sem perder a raiz pop. A produção continua primorosa, com destaque para músicas mais "cruas", mais próximas do rock. A voz de Florence está ainda mais controlada, conseguindo soar poderosa ou como um sussurro quando necessário, que demonstra maturidade musical da cantora. A grande diferença de Ceremonials é o tom mais sombrio e introspectivo em todo trabalho. Há menos canções que  leves como You've Got The Love ou uma música tão impactante quanto The Dog Days Are Over

Como o nome já diz, o tema desse novo álbum são rituais, reflexões sobre a morte e espiritualidade. A temática ganhou mais força com  os clipes lançados até agora, como Shake It Out que mostra Florence em uma festa de grupo ligado ao ocultismo, em uma clara referência à De Olhos Bem Fechados, de Kubrick. Ceremonials  mantém esse clima ocultista, com destaques para Seven Devils, What  The Water Gave to Me e No Light, No Light

Mesmo com as mudanças na temática e sonoridade, Florence consegue soar como ela mesma e estabelecer conexão com o trabalho anterior. A ruiva pode não ser um sucesso estrondoso de vendas e popularidade como Adele ou Amy Winehouse (só para citar as duas últimas sensações britânicas), nem tão performática quanto Jessie J, entretanto, Florence prova que é possível conquistar uma legião de fãs e o  interesse da mídia, sem perder a identidade e qualidade no trabalho.  


19 de dezembro de 2011

Comentário - Rocky Horror Picture Show

Atualmente é comum ouvir a definição 'filme cult' para qualquer obra independente ou de pouco apelo comercial que é lançada. Um filme cult, na essência, é um produto que não tem uma boa recepção do público ou reconhecimento de crítica na época em que foi lançado e é descoberto futuramente, influenciando a estética de outras produções cinematográficas e adquirindo status de uma obra cultuada, com uma base de fãs. 

Só para ficar com exemplos famosos de obras cults, temos Blade Runner – O Caçador de Andróides e O Estranho Mundo de Jack, filmes que se tornaram clássicos com o tempo, apesar de um lançamento ruim. Uma das maiores obras cults de todos os tempos é a adaptação cinematográfica do musical Rocky Horror Picture Show (1973). Quando lançado nos cinemas, o longa foi um fiasco de bilheteria e poucos entenderam a trama anárquica que faz uma homenagem aos filmes de ficção e ao cinema trash. Após o fracasso, o filme começou a ser exibido nas famosas “sessões da meia-noite”, que divulgavam longas de baixo orçamento. O sucesso de Rocky Horror nessas sessões foi imediato, tornando-se o filme que ficou mais tempo em cartaz.

Anarquia, tramas estranhas e o visual glam rock
O sucesso posterior deve-se, principalmente, pela estranha mistura de tramas e influências. É um musical que satiriza os filmes de terror com a manjada história do casal nerd que se perde em uma tempestade e acaba no castelo assombrado. Todos os elementos do terror trash estão lá: os empregados sinistros, o dono do castelo estranho, duelo de cientistas, crimes e até extraterrestres. Junte isso com várias passagens que celebram o amor livre, o humor negro e músicas que grudam na cabeça.

Uma trama tão confusa poderia ser um fracasso se não fosse pelas grandes atuações de todo o elenco em papéis encantadores. Tin Rourque é o centro das atenções como Dr Frank, o cientista travesti mestre do castelo que pretende criar um ser humano esteticamente perfeito (referência direta ao clássico do terror Frankenstein). O casal nerd e puritano chama a atenção pelas mudanças que vão sofrendo ao longo do filme, descobrindo muito sobre a sexualidade e sentimentos reprimidos Além desse trio principal temos os  serviçais do castelo, fundamentais para o desfecho dessa trama estranha.

Homenagem de Glee ao musical
Como clássico cult, o filme acabou inspirando dezenas de outras produções culturais, como o recente videoclipe Hold It Against Me de Britney Spears, além de ter sido considerado um dos “30 filmes que mais influenciaram na moda”, com sua estética glam-rock. O filme continua tão presente na cultura pop que ganhou uma homenagem da serie Glee e até um CD com músicas interpretadas pelo elenco.

O filme é, indiscutivelmente, um clássico do cinema B, com a trama um tanto confusa, personagens cativantes e uma trilha sonora deliciosamente influenciada pelo rocky e pop.  Longe de ser um filme indicado para todos os públicos, o longa é uma opção diferente, principalmente para quem gosta de filmes de terror B. Como diria os icônicos lábios vermelhos que abrem o filme: "Oh-oh at the late night, double feature, picture show"

19 de novembro de 2011

Romeu + Julieta de Baz Luhrmann - poesia pop


Romeu e Julieta é uma história tão clássica que é possível lembrar vários filmes, peças, musicais, sátiras e até animações que tiveram base no clássico de Shakespear sobre famílias rivais e jovens apaixonados que levam o amor as últimas consequências. Poucas adaptações da obra, entretanto, foram tão emblemáticas quanto a versão do diretor autraliano Baz Luhrmann (1996), que trouxe a tragédia dos Capuletos e Montéquios para os dias de hoje, transformando a briga de famílias em uma guerra de gangues. A “modernização”, porém, fica só no visual, já que o roteiro apresenta os versos líricos do livro na integra. Poderia ser incoerente, mas nas mãos de Luhrmann os versos ganham ainda mais força e sentido com o visual extravagante. 

Luhrmann usa histórias tradicionais com visuais modernos
A edição frenética, o uso das cores para transmitir sensações (do colorido saturado ao monocromático) e a trilha sonora recheada de canções pop dá um ar de “videoclipe da MTV“ para o filme, que ressalta ainda mais a juventude dos protagonistas e consegue dialogar diretamente com o público atual. Usando com maestria recursos visuais e sonoros, o diretor consegue criar imagens tão fortes que já fazem parte do coletivo popular, como a belíssima cena do encontro de Romeu e Julieta com um aquário entre eles enquanto a festa acontece na mansão dos Capuletos.
 
O elenco é encabeçado por um Leonardo Di Caprio ainda jovem e carismático. O Romeu do ator parece sem perspectivas, rumo ou ideais, até que encontra a razão de sua existência: o amor que nutre pela bela Julieta (Clarice Daines), jovem da família rival e considerada "inimiga". A atriz Clarice Daines cria uma Julieta inocente, quase etérea, mas que consegue manusear uma pistola quando necessário sem perder a feminilidade. Os protagonistas convencem nos papéis de jovens perdidamente apaixonados, capazes de brigar com suas famílias para consumarem seu amor. O elenco de apoio também da conta do recado com muitos rostos que seriam vistos em obras posteriores de Luhrmann. 

O amor em Romeu + Julieta é levado aos extremos
Alguns elementos presentes nesse filme seriam vistos depois em Mouling Rouge, a obra-prima do diretor responsável por trazer os filmes musicais de volta as telas de cinema e aos prêmios. Algumas cenas, como a chuva que cai azulada no momento em que Romeu é exilado da cidade, lembra, e muito, os momentos em que a cortesã Satine deixa seu amado Christian para evitar uma briga no cabaré.

Nos filmes de Luhrmann, principalmente em Romeu + Julieta, a história é conhecida, previsível, mas a forma como é contada é tão inovadora que desperta o interesse do espectador. Em R+J é até possível torcer, genuinamente, por aquele casal fadado ao final mais apoteótico e dramático de todos: morrer por amor. No mundo de Luhrmann o amor é sempre assim: intenso, dramático, proibido e sem medo de abraçar os clichês. Entre cores berrantes, músicas pop e poesia lírica, Romeu + Julieta fica marcado como uma das melhores versões do clássico de Shakespear

23 de outubro de 2011

Com "Sexo" e "Clímax" Erasmo e Marina voltam ao cenário musical



Como a música popular brasileira anda sem grandes ousadias, a tarefa de injetar um pouco de ânimo no cenário musical ficou para dois “veteranos” desse setor: Marina Lima e Erasmo Carlos. Os dois já até trocaram alguns selinhos numa premiação da MTV alguns anos atrás e chegam ao mercado com bons trabalhos que chamam a atenção pela dose de sensualidade nas letras e uma tentativa de modernizar o som desses dois artistas que andavam sumidos do cenário musical.

Marina, com seu Clímax, continua discreta e elegante em seus projetos, mesmo ao abordar sua busca por prazeres na metrópole com “noites de subir pelas paredes altas” na canção de abertura, Não me Venha Mais Com Amor. Marina parece ter aproveitado o contato intenso com a capital paulistana, sua nova casa desde que se mudou do Rio, apresentando um som revigorado, eletrônico e recheado de misturas sonoras em uma tentativa sincera de atualizar seu estilo. Essa é uma característica de quase todo o CD: a sensação de urgência, como se Marina depois dos 50 anos e da mudança de cidade estivesse ansiosa em aumentar o contato com as novidades musicais. Entres as canções, grande parte composições da própria cantora, destaca-se De Todas que Vivi, um dueto com Vanessa da Mata, em que cada cantora respeitou seu estilo de cantar e de interpretar a canção. São Paulo também ganhou uma homenagem em #Sampa Feelings, que chega a rimar Torá com Lady Gaga, para expressar como a metrópole paulista é cosmopolita. Outra parceria de sucesso no novo CD é a radiofônica Pra Sempre, com o vocalista do Skank, Samuel Rosa, que fecha o álbum de maneira mais calma, como se depois da agitação da cidade e dos questionamentos das relações modernas, Marina diminuisse o ritmo. Clímax é superior ao último trabalho de Marina, o também bom Lá Nos Primórdios, por representar, justamente, essa revitalização e novas parcerias no trabalho da cantora, fugindo dos clichês e dos padrões de outras cantoras brasileiras.

Já Erasmo Carlos continua a safra de bons projetos musicais, depois do elogiado Rock N' Roll, com o lançamento Sexo. Enquanto seus colegas da Jovem Guarda só gravam coletânias ou fazem shows bregas em Jerusalém, o “tremendão” aposta em letras repletas de sensualidade e um projeto ousado, a começar pela capa do cd: muito criativa e interessante. Depois da introdução da empolgante de Kama Sutra, música de Arnaldo Antunes que fala sobre as diversas posições sexuais do famoso livro indiano, Erasmo engata uma das melhores músicas do CD: Jogo Sujo, que chama a atenção por colocar a mulher como a interessada apenas por sexo, sem querer comprometimento amoroso. Essa “nova mulher”, mais interessada no prazer que em romance (que Marina também representa em seu novo disco) aparecerá em outras canções do álbum, como Apaixonado Anônimo. O cd perde um pouco do fôlego da metade para o final, com músicas que não contribuem musicalmente e que pouco acrescentam sobre o tema, muita vezes soando  muito parecidas entre elas. Entre os destaques das músicas mais "calmas" do disco estão Santas Mulheres, Seu Homem Mulher e Vênus e Marte.

Marina e Erasmo conseguiram produzir músicas atuais, fugiram de temas batidos e soam atuais sem apagar o histórico dos artistas e suas características principais. Em ambos os CDs, outro fator em comum chama a atenção: a busca por compositores novos, que injetam sangue novo nas produções. Adriana Calcanhotto, por exemplo, colabora com canções nos dois discos, com músicas acimas da média, que provam, mais uma vez, o talento de Adriana como compositora e sua capacidade de dialogar com diferentes ritmos e cantores.

Clímax e Sexo representam bons momentos nas discografias de seus autores por representarem um esforço em dialogar com questões modernas como sexo, vida urbana, amor... Erasmo e Marina, com todo os anos de carreira de cada, conseguiram ser mais relevantes e interessantes que grande parte dos cantores e cantoras que surgiram nos últimos anos. Mais uma vez, os "veteranos" ensinam como produzir obras de qualidade, com uma pitada de ousadia e sem perder a elegância. 

 
 

3 de setembro de 2011

Sinead O' Connor - Nothing Compares 2U


Na começo da década de 90, o mercado musical foi abalado pelo surgimento de uma cantora diferente de toda estética e sonoridade que rolavam nas paradas musicais do momento. Sinead O’Connor, com sua cabeça raspada e voz doce, era tão contraditória que agradou em cheio o público e os críticos especializados. Entretanto,  depois de declarações polêmicas e um aparente desequílibrio emocional, esse mesmo público abandonaria a cantora.  

Nascida na Irlanda, terra do U2 e do The Cranberries, Sinead O’Connor nunca pareceu muito interessada em se comportar como uma pop star comum. A cantora dava declarações polêmicas (como o apoio ao IRA), abandonava e voltava com a carreira e se dizia totalmente contraria aos modelos dos ídolos musicais e da preocupação com a aparência. De cabeça raspada, roupas mal cuidadas e um olhar inquieto que transmitia tristeza e uma revolta contida, Sinead tornou-se mundialmente conhecida com a canção Nothing Compares 2U, uma bela composição de Prince que ganhou na voz triste de Sinead sua versão definitiva e inesquecível. O clipe também ajudaria a lançar a cantora: no lugar de grandes produções ou ideias mirabolantes, temos um destaque no rosto de Sinead que se emociona ao cantar. A simplicidade renderia prêmios e influenciaria diversos outros clipes, entre eles Losing My Regilion do R.E.M.


No auge da fama, Sinead participou de popular programa americano Satuday Night Live e rasgou uma foto do Papa João Paulo II após cantar uma música de guerra e declarar que a aquele era o real inimigo. A cantora pagaria com a própria carreira esse insulto, já que depois disso grande parte do público americano, e mundial, deixou de acompanhá-la. O desequílibrio emocional da cantora ainda renderia resultaria em uma precoce aposentandoria musical. Uma pena, uma vez que Sinead tem uma das mais belas vozes de sua geração e sempre buscou ousar nas parcerias musicais, indo do reggae ao folk com maestria. 

Sinead expressa com a voz sua confusão de sentimentos, em um misto de sussuros doces e gritos de raiva. A autenticidade de Sinead serviria de exemplo para dezenas de outras cantoras posteriores. O talento da carequinha pode ser conferido em músicas como The Last Day of Our Acquaintance, Fire on Babylon, 1001 Mirrors, Success has made a failure of our home, entre as diversas participações em músicas de outros cantores e covers, normalmente acima da média, como Mother do Pink Floyd e Sacrifice de Elton John. 

Depois de abandonar e retomar com sua carreira musical diversas vezes, Sinead acabou saindo de vez da grande mídia e tornando-se uma lembrança um tanto empalidecida dos anos 90, restrita aos apreciadores de música alternativa. Dona de uma voz e visual únicos, a cantora  ainda faz músicas, mas parece pouco interessada em voltar aos holofotes. Cheia de atitude e uma mistura constante de fragilidade e agressividade, Sinead continuará, para sempre, sendo uma das mulheres mais transgressoras da música.